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[O PENSAMENTO E A POESIA]

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[há um indescritível e indecifrável rumor noturno de asas quando porções  de pensamento esvoaçam em direção à poesia. essas porções que a noite  não consegue aprisionar com os seus cadeados e grades, esses vazamentos de matéria pensante a caminho da poesia poderiam ser chamados de "odres suspensos", posto que lembram o jorro do vinho para disseminar a festa  e a desordem.]

[DECÁLOGO PARA A ARTE DO CONTO, EM DIÁLOGO COM O DECÁLOGO DE JULIO RAMÓN RIBEYRO]

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1.Pode um conto não contar uma história. Mesmo assim a história estará sendo contada. Por exemplo: a história do rosto do leitor que lê um conto que não conta uma história. 2.A história em um conto pode estar na borda, no limite, na sangria: quase saindo do conto. Se o contista for esperto, a história que fica nas beiras do conto pode ganhar os olhos do leitor. 3.Quando um conto vai além do tempo que se consome para tomar meia garrafa de cerveja, calmamente, sem goles longos, muito provavelmente esse conto já não quer ser conto, embora não seja ainda uma novela. 4.Se porventura o conto possuir uma história, essa história deve ser assemelhada com os olhos de uma mulher em estado de paixão. É um redemoinho que suga, traga, puxa, consome irremediavelmente os olhos do leitor. Se nada disso ocorrer, é bem capaz que o conto e a história que porventura possuir o conto sejam nada mais que uma pedra de gelo, em derretimento. 5.A partitura por onde navega o conto deve ser hábi...

[A VAZIEZ DO ESPANTALHO]

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[tudo está vazio: sua boca, sua cabeça,  sua sombra. seu discurso está vazio. bacia sem nada, peneira  ao vento. tudo está vazio: seu grito, seu rumor,  seu murmúrio. sua aorta está vazia.  sua horta,  sua praga. tudo está vazio. o livro que você lê  está vazio. letreiros da imensa avenida,  edifícios  da grande cidade. tudo está vazio. seu lápis não tem grafite,  sua caneta  não tem tinta. tudo está vazio. seu corpo no palco,  seu enchimento-espantalho,  seu gesto  performático. tudo está vazio. seus dedos, seu teclado,  sua memória. seu chip está vazio.   sua vaidade,  seu sucesso, sua bolsa  de valores. tudo está vazio. seu monólogo em rede,  seu seguidor  e seu seguido. tudo está vazio. sua metáfora, sua curva  figurativa,  suas volutas significantes. tudo está vazio. mas o poema, rebelde,  nega o ato...

[LADRILHOS, PARTÍCULAS, MIGALHAS, VIDRILHOS]

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[a mediocridade é a mais sedutora e hipnótica das bruxas. atrai como a serpente atrai o passarinho.] [no olho da fervura, há mais poesia do que nos compêndios de verso e prosa, nos tratados altivos, nas falas da soberba.] [bem cedo, ainda escuro, cortei a cebola, o pimentão e o tomate, amassei o alho, e fiz o cozido exalar pela casa.] [disse o velho que ideologia é tal água aberta no quintal: ora inunda tudo, ora vai por trilhas aqui e lá, direita, esquerda e pelos meios.] [com o prumo do pedreiro, você pode aprender a dar o corte, no final da linha, no próprio coração da imagem. é o ritmo.] [torquês: ótima ferramenta para um poema.] [o novo, agora, só na criptoteca, com os códigos indecifráveis. o resto é rede.] [prantear. verter lágrimas por isto e aquilo. na antiguidade do dicionário ainda encontro tais pepitas.] [na oficina, para construir o poema, ele fez antes uma incisão na rocha.] [nesta altura das contendas, já sou o homem que palreia com os livros. digo-lh...

[METODOLOGIA PARA ERIÇAMENTO DE FRASES]

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[... ela disse: "narciso não tem lápis, e os rostos não escrevem".] [... ela disse: "a poesia começa quando apodrece o andor das santidades".] [...eles disseram: "fazia bem à cidade e à sua paisagem encontrar-se de repente, subitamente, com o escritor wander piroli".] [... ela dizia: "a exuberância da secura, como naquelas frases curtas do luiz vilela".] [... ele disse: " se me restarem forças, ainda escreverei uma história sobre o opala azul do escritor oswaldo frança jr.".] [... ele dizia: "os temas amenos são graciosidades próprias para os livros de culinária".] [... ela dizia: "se é para escrever, que seja a dente, a unha, a cru".] [... ele disse: "sem formas desesperadas todo conteúdo é bibelô de penteadeira".] [... ele dizia: "eram bitelas jabuticabas e bitelos olhos de meninos na cerca, prontos para o assalto e o banquete".] [... ele disse: "e então, naquela manhã, ...

[O VELHO E AS FRASES RACIOCINANTES]

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O velho disse ter muito medo das frases raciocinantes. Para o velho, frase raciocinante é aquela ideada para catequizar pregos.  Disse o velho que chusma de poetas andam anzolados pelas frases raciocinantes.  Esses poetas povoam os cadernos com os quiproquós de catequizar pregos.  O velho disse ter muito medo do bolor que acompanha tais experimentos.  "Muito bolor de coisa podre", ele falou.  Com as frases raciocinantes, esses poetas compravam entrada para as quermesses.  Lá ficavam de olhos vidrados no carrossel do eterno retorno.  E palitavam os seus dentes parnasianos antes que os políticos chegassem para a distribuição de caramelos.  Os poetas das frases raciocinantes ganhavam os caramelos e beijavam as bochechas dos políticos.  O velho disse ser muito comum tais ajuntamentos: poetas, políticos, caramelos.  O velho disse isto e foi embora com o seu cajado.  O rastro dele tinha frases de corrente de rio.  Eram frases muit...

[RELEITURA DO NÚMERO TRÊS]

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[as três linhas  do haicai; a mãe que grita ao filho "vou contar até três"; as três pessoas da santíssima trindade; as três batidas  na madeira para que  o azar  caia fora,  e nos deixe,  e nos abandone; as três marias de mãos dadas no céu das constelações; os três operadores da dialética, posto que tese, antítese,  síntese;  as três  dimensões  do tempo,  posto  que passado,  presente,  futuro; os três ângulos do triângulo, posto  que reto, agudo,  obtuso;  as três classes do triângulo, posto que equilátero, isósceles, escaleno;  a magnífica harmonia  do três, sobre a qual disse virgílio   em sua exclamante  omne trinun perfectum ;  os três  reis magos,  posto que melquior,  baltasar,  gaspar; as três  oferendas dos três magos, posto que ouro, incenso, mir...

[SE O GATO]

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O gato [se escrevesse] é bem [provável] que escreveria [o] que não está [nos] livros [nem] nas histórias [ou] nos mapas [literários] esses [mapas] tão tediosos [esses] inventários [essas] cartografias [boas] para desocupados ou [cultores] de pequenas glórias [a] glória de ter o [nome] citado junto [com] [outros] nomes [ou] então [as] pequenas [glórias] de ser o citador [ou] o enumerador [de] tantos [nomes] tantos [candidatos] a uma vaga [na] posteridade. O gato [se escrevesse] é bem [provável] que escreveria só [coisas] pelo avesso [só] coisas da hora dos [eclipses] ou da natureza dos [eclipses] coisas desses [instantes] únicos [frações] no tempo ou [do] tempo [fissuras] dos momentos [logo] ali quando uma coisa [é] e logo adiante [não] é mais [deixa] a coisa [que] era para trás [o] que [era] foi e [logo] vai ser [outra]. Mas o gato [não] escreve [não] se ocupa desses [afazeres] o gato é [talvez] leitor do que [vai] escrito no [pensamento] dos geômetras [o gato] parece um mestre [em] tr...

[DOSES DIÁRIAS DE INFÂNCIA]

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[Ele automedicou-se com duas doses diárias de infância para que a velhice não ficasse à beira da estrada com cara de abandono e fastio.  Essas doses diárias de infância eram escolhidas aleatoriamente no frasco maior da meninice, ali onde cabiam eventos espetaculares do tempo em que as coisas nasciam, coisas inaugurantes e inauguradas.  Coisas que eclodiam. Ele acreditava com fervor nos poderes benéficos dessa estranha terapêutica. E ao contrário de outras medicações, sem qualquer temor a riscos ele cedia o corpo aos efeitos colaterais sobre os quais cultivava suprema ignorância.  Não havia bula. Não se conheciam os processos químicos ou fitoterápicos que davam origem a essas doses. Ele apenas abria o frasco maior da meninice e sorvia o que prescrevera. Sentiu-se bem.  Não sentiu-se novo porque não era este o propósito do que decidira quando viu à beira da estrada caras de abandono e fastio. Aquele enfado cheio de pontas. Aquele enfado coberto pelo limo....

[AS TARDES NO SUPLEMENTO LITERÁRIO]

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[as tardes no suplemento literário  eram tardes lépides, víssilas, larúnias,  essas palavras que não existem.] [tarde boa era tarde cortázica.] [de quando em quando, uma tarde quintero,  o ednódio, ou uma  tarde dyonélio, o machado,  ou uma tarde  caio fernando abreu.] [a pasta de poemas dera crias  durante a noite.] [pintainhos novos  eclodiam desde barbacena, juiz de fora,  maceió, manaus.] [poema inédito  de max martins, e, de amparo, comparecia  o ainda menino marçal aquino.] [manoel lobato aplicava farmacopeias  na pasta de ficções.] [jaime sugeria  guilhotina e cepo para um conto  pó de arroz.]  [quem sabe, na contracapa,  um poema do novíssimo ricardo aleixo?] [piroli não veio.] [há semana e tanto  que piroli não vem.] [mas o duílio chega,  ofega, agita-se.] [cento e oitenta e sete contos na pasta sob o braço.] [é muito, é tanto, para que tanto contista, meu deus?] [mas deu...

[O BOLINHO DE FEIJÃO E A LARANJADA]

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[Paulo Mendes Campos dedicou uma crônica inteira ao bolinho de feijão do Ignácio´s, no tempo em que o bar funcionava na Rua da Bahia, antes de se mudar para a Guajajaras e morrer para todo o sempre. A crônica está em Os bares morrem numa quarta-feira .] [Não conheci o Ignácio´s original. E sinto, por essa lacuna, digamos, no céu metafísico do paladar, uma dor prima da nostalgia.] [Mas ostento a imensa honra de ter provado a laranjada do Café Pérola.] [Pode ser que a laranjada do Café Pérola seja a parente sem aura do bolinho de feijão do Ignácio´s. O poeta de O domingo azul do mar enovelou de tal modo as virtudes apetitosas do bolinho que fico constrangido em enumerar atributos iguais da laranjada. Mas quem não pode brandir espada de samurai brande canivete de porta de bodega.] [Foi em 1967, no entrante mês de março. Eu chegava a Belo Horizonte para nunca mais voltar a viver às beiras do Córrego da Confusão, lá no alto do Paranaíba, lá onde as siriemas vagavam pelo altiplano...

[AQUILO QUE BRETON PARECE TER VISTO ALGUM DIA]

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[com o cesto que era para borboletas,  agora ele caça epifanias. são curtos- circuitos no dia, e ocorrem quando a rua, soturna e obtusa, desvogaliza a vida, troca as vogais da flauta pela bigorna  da usina, o chumbo fundido de letras,  homens-linotipos tão bestas, esses desanjos em queda, as asas com avarias, línguas queimadas em fel, incapazes de doçura. e então vêm as pagãs, profanas epifanias, não voam, mas dançam, giros em vórtice na praça, espiral de cânticos em cânticos, traçam em corisco e rabiscos os rastros em arabescos, é o instante em que o poema salta de um ovo alquímico e grassa seu gás pelas ruas, casa-se o noivo poema com a noiva  epifania, são as bodas que o poeta precisa para girar a esferaria, essas esferas magnéticas que breton parece ter visto  algum dia, um tal desarranjo da ordem, uma tal embriaguez das bússolas, assim, pois, então, encerro tal gramatologia, esse  reconto que diz lá no começo: com um cest...

[HÖLDERLIN, HÖLDERLIN]

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["pallaksch", murmurava  hölderlin, "pallaksch",  ele murmurava, nem sim, nem não, nem sim, nem não, ó melancolia dos murmúrios, ó a crua limiaridade do que não é sim, nem é não. paul celan  também murmurou com hölderlin "pallaksch", assim igual eu murmuro "pallaksch", murmuro as desdobras  sem dobras do que indefine, mas intuo ter visto lá onde o navio cruza, lá onde o mar-alto vira, intuo ter visto um pássaro sem cor sobre o verde mar desconhecido, intuo esse pássaro,  não é do sim, não é do não, mas é tão jovem quanto um fogo em seu vigor inaugural.]

[O FIO E O TIGRE AZUL]

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[era só um fio.  começava na ponta leste e vinha como se serpente até a ponta oeste e prosseguia mais e mais como se desejasse não ter fim jamais.  era só um fio na paisagem que a cidade  expunha  ao ocaso, luzes  trêmulas de postes como se fantasmas, mulheres  que puxavam os filhos aos seios para protegê-los  do tigre azul. o fio único desafiava  os tratados  de filosofia,  os estudos de ciência, ameaçava as deidades e divindades, era um fio  que começava na ponta leste e vinha como se serpente  até  a ponta oeste, e prosseguia,  mais  e mais  ele prosseguia,  um fio  desejante  de não ter jamais um fim atravessava a cidade  em seu ocaso  triste,  de mulheres tristes, com filhos tristes, em pânico  com o tigre azul.]

[A FRASE QUE CAIU DA NOITE]

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[gatos apreciam andar lentamente pelo gerúndio.] [país. imaginei ter um. já não imagino mais.] ["vem", disse a chama. a lenha foi. e era noite. falava-se a língua dos murmúrios.] [buraco. o da estante. o que ficou do livro in absentia .] [arder. era mesmo para arder aquele comunal convívio pelo livro, para o livro.] ["qual legado seria o da inscrição feita dentro de uma amêndoa?", ela perguntou.] [benjamin disse: "a rua: habitação do coletivo".] [aparições. instantâneos que a letra, qual radar, puxa para a frase.] ["a mão também é peregrina com o seu lápis-cajado", ele disse.] ["manto. tão abrigante palavra, toda ela aquecida", ela disse.] ["ah, mas o tecido do texto só para poucos vira manto", ela disse.] [arpejo. tudo aquilo que, em um tempo-antes, foi rumor.] [fímbria. certas dobras, certas beiras, onde pensamento e abismo se irmanam.] [declamação. o que dizem ser uma forma de envergonhar os poem...

[ELA DISSE; ELE DISSE]

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[ele disse: "é aconselhável, em dias de chuva contínua e constante, invocar o chá, a sopa, as pantufas, o caderno aberto em folha vazia, o merlot encorpado, o silêncio dos bichos, as associações lunáticas de uma coisa dentro de outra coisa, o boné ou a boina, certas palavras úmidas que brotam enquanto a poltrona viaja com você a bordo".] *** [ele disse: "se ao texto é preciso adicionar uma foto para que seja visto ou lido, então é um texto que, na origem, já se rendeu ao fracasso".] *** [ele disse: "é preciso estar atento ao lugar de quem emite juízos sobre a qualidade literária de um livro. é o lugar do esteta ou do pateta? é o lugar do editor-mercador? é o lugar do gestor-promotor? é o lugar do amigo-comparsa? é o lugar do mero bajulador? é o lugar do resenhista-resenhador? quem fala, e o lugar de onde fala: eis onde estão as ciladas construídas para o desavisado leitor".] *** [ele disse: "admiro a palavra almofariz pelo que ela exibe ...

[DIÁRIO DE VICENTE ALARAN]

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[Abderrahmane Ualibo, o torna-viagem, o sem-pátria, dado a se camuflar em noites secretas no corpo de personagens, diz, em um de seus diários jamais publicados: "Escrever é apenas inseminação verbal".] [Joseph Joubert (1754-1824), aquele que jamais teve um livro publicado em vida. Não será esta a mais fulgurante condição para um escritor hoje?] [A vulgarização do fragmento. A vulgarização da "história curta". A vulgarização do aforismo. E, ao contrário, em outro extremo, o grande mito do livro imenso, do livro-rio, o lugar-comum do livro que "fica em pé".] [À beira dos 75 anos, tempo de repetir Drummond: nenhum problema resolvido, sequer colocado. Mas a folha em branco, à espera do lápis, é o paraíso.] [Aquela frase de Borges (algo irônica, algo sarcástica) de apoiar na Argentina um candidato certamente incapaz de vitória: "gosto das causas perdidas" (em versão livre, de memória). Pois a literatura talvez seja isto, hoje. E eu ...