Postagens

Mostrando postagens de dezembro, 2025

[A FRASE QUE CAIU DA NOITE]

Imagem
[gatos apreciam andar lentamente pelo gerúndio.] [país. imaginei ter um. já não imagino mais.] ["vem", disse a chama. a lenha foi. e era noite. falava-se a língua dos murmúrios.] [buraco. o da estante. o que ficou do livro in absentia .] [arder. era mesmo para arder aquele comunal convívio pelo livro, para o livro.] ["qual legado seria o da inscrição feita dentro de uma amêndoa?", ela perguntou.] [benjamin disse: "a rua: habitação do coletivo".] [aparições. instantâneos que a letra, qual radar, puxa para a frase.] ["a mão também é peregrina com o seu lápis-cajado", ele disse.] ["manto. tão abrigante palavra, toda ela aquecida", ela disse.] ["ah, mas o tecido do texto só para poucos vira manto", ela disse.] [arpejo. tudo aquilo que, em um tempo-antes, foi rumor.] [fímbria. certas dobras, certas beiras, onde pensamento e abismo se irmanam.] [declamação. o que dizem ser uma forma de envergonhar os poem...

[ELA DISSE; ELE DISSE]

Imagem
[ele disse: "é aconselhável, em dias de chuva contínua e constante, invocar o chá, a sopa, as pantufas, o caderno aberto em folha vazia, o merlot encorpado, o silêncio dos bichos, as associações lunáticas de uma coisa dentro de outra coisa, o boné ou a boina, certas palavras úmidas que brotam enquanto a poltrona viaja com você a bordo".] *** [ele disse: "se ao texto é preciso adicionar uma foto para que seja visto ou lido, então é um texto que, na origem, já se rendeu ao fracasso".] *** [ele disse: "é preciso estar atento ao lugar de quem emite juízos sobre a qualidade literária de um livro. é o lugar do esteta ou do pateta? é o lugar do editor-mercador? é o lugar do gestor-promotor? é o lugar do amigo-comparsa? é o lugar do mero bajulador? é o lugar do resenhista-resenhador? quem fala, e o lugar de onde fala: eis onde estão as ciladas construídas para o desavisado leitor".] *** [ele disse: "admiro a palavra almofariz pelo que ela exibe ...

[DIÁRIO DE VICENTE ALARAN]

Imagem
[Abderrahmane Ualibo, o torna-viagem, o sem-pátria, dado a se camuflar em noites secretas no corpo de personagens, diz, em um de seus diários jamais publicados: "Escrever é apenas inseminação verbal".] [Joseph Joubert (1754-1824), aquele que jamais teve um livro publicado em vida. Não será esta a mais fulgurante condição para um escritor hoje?] [A vulgarização do fragmento. A vulgarização da "história curta". A vulgarização do aforismo. E, ao contrário, em outro extremo, o grande mito do livro imenso, do livro-rio, o lugar-comum do livro que "fica em pé".] [À beira dos 75 anos, tempo de repetir Drummond: nenhum problema resolvido, sequer colocado. Mas a folha em branco, à espera do lápis, é o paraíso.] [Aquela frase de Borges (algo irônica, algo sarcástica) de apoiar na Argentina um candidato certamente incapaz de vitória: "gosto das causas perdidas" (em versão livre, de memória). Pois a literatura talvez seja isto, hoje. E eu ...

[OS SABERES E OS DESSABERES]

Imagem
[ainda há pouco eu sabia,  mas o saber  esvaiu-se, areia  na peneira, matéria não mais apanhável, toda ao chão como se fungo, lodo,  água ferruginosa. ainda há pouco eu sabia,  eu disse,  e repito,  sabia,  mas o saber  que eu sabia  em vapor  se fez, um outro saber,  frágil, lerdo, manco, logo esse novo saber  apontou ali onde os saberes fazem morada, um novo saber  qual estranho,  qual bicho  sem nome.  tive de aceitá-lo, a um saber não se dá a recusa,  ele vem, puxamos a cadeira,  deixamos que seja novo conviva. olá, eu digo,  solto verbos  amigáveis,  sirvo-lhe o cálice, sirvo-lhe a prosa de uma frase sinuosa  das que honram  as amizades,  isto até que o destino dos saberes outra vez, em reprise, outra vez  o destino  leve o visitante,  mais um dia passa, outro ano,  outros saberes chegarão,  e outra vez vão ceder ...

[O BARCO E O LIVRO DOS PRESSÁGIOS]

Imagem
[o livro dos presságios,  aberto  em dia errado, anunciava  o barco  para a tarde, a horas tantas,  entre  o dia e a noite, e seria  um barco  iluminado,  traria tochas na proa,  e ele  embicaria porto adentro,  dois   marinheiros o conduziriam  ao cais,  ambos cegos, joão  era o nome de um, jarbas  era o nome de outro,  e as cordas  e os cordames,  os nós e os laços  dos velames  penderiam do mastro,  no convés o resto de peixes,  a tinta  azul que grafava o casco,   "ilusões  invictas"  era o nome desse barco  anunciado para a tarde,  isto conforme  o livro  dos presságios, livro  aberto  em dia errado,  pois previa para hoje  o que de fato seria ontem,  equívocos  de mãos  no desgoverno de um lapso,  mas eis que a tarde  apagava luzes,  mas eis  que a noite abria as port...