Postagens

[METODOLOGIA PARA ERIÇAMENTO DE FRASES]

Imagem
[... ela disse: "narciso não tem lápis, e os rostos não escrevem".] [... ela disse: "a poesia começa quando apodrece o andor das santidades".] [...eles disseram: "fazia bem à cidade e à sua paisagem encontrar-se de repente, subitamente, com o escritor wander piroli".] [... ela dizia: "a exuberância da secura, como naquelas frases curtas do luiz vilela".] [... ele disse: " se me restarem forças, ainda escreverei uma história sobre o opala azul do escritor oswaldo frança jr.".] [... ele dizia: "os temas amenos são graciosidades próprias para os livros de culinária".] [... ela dizia: "se é para escrever, que seja a dente, a unha, a cru".] [... ele disse: "sem formas desesperadas todo conteúdo é bibelô de penteadeira".] [... ele dizia: "eram bitelas jabuticabas e bitelos olhos de meninos na cerca, prontos para o assalto e o banquete".] [... ele disse: "e então, naquela manhã, ...

[O VELHO E AS FRASES RACIOCINANTES]

Imagem
O velho disse ter muito medo das frases raciocinantes. Para o velho, frase raciocinante é aquela ideada para catequizar pregos.  Disse o velho que chusma de poetas andam anzolados pelas frases raciocinantes.  Esses poetas povoam os cadernos com os quiproquós de catequizar pregos.  O velho disse ter muito medo do bolor que acompanha tais experimentos.  "Muito bolor de coisa podre", ele falou.  Com as frases raciocinantes, esses poetas compravam entrada para as quermesses.  Lá ficavam de olhos vidrados no carrossel do eterno retorno.  E palitavam os seus dentes parnasianos antes que os políticos chegassem para a distribuição de caramelos.  Os poetas das frases raciocinantes ganhavam os caramelos e beijavam as bochechas dos políticos.  O velho disse ser muito comum tais ajuntamentos: poetas, políticos, caramelos.  O velho disse isto e foi embora com o seu cajado.  O rastro dele tinha frases de corrente de rio.  Eram frases muit...

[RELEITURA DO NÚMERO TRÊS]

Imagem
[as três linhas  do haicai; a mãe que grita ao filho "vou contar até três"; as três pessoas da santíssima trindade; as três batidas  na madeira para que  o azar  caia fora,  e nos deixe,  e nos abandone; as três marias de mãos dadas no céu das constelações; os três operadores da dialética, posto que tese, antítese,  síntese;  as três  dimensões  do tempo,  posto  que passado,  presente,  futuro; os três ângulos do triângulo, posto  que reto, agudo,  obtuso;  as três classes do triângulo, posto que equilátero, isósceles, escaleno;  a magnífica harmonia  do três, sobre a qual disse virgílio   em sua exclamante  omne trinun perfectum ;  os três  reis magos,  posto que melquior,  baltasar,  gaspar; as três  oferendas dos três magos, posto que ouro, incenso, mir...

[SE O GATO]

Imagem
O gato [se escrevesse] é bem [provável] que escreveria [o] que não está [nos] livros [nem] nas histórias [ou] nos mapas [literários] esses [mapas] tão tediosos [esses] inventários [essas] cartografias [boas] para desocupados ou [cultores] de pequenas glórias [a] glória de ter o [nome] citado junto [com] [outros] nomes [ou] então [as] pequenas [glórias] de ser o citador [ou] o enumerador [de] tantos [nomes] tantos [candidatos] a uma vaga [na] posteridade. O gato [se escrevesse] é bem [provável] que escreveria só [coisas] pelo avesso [só] coisas da hora dos [eclipses] ou da natureza dos [eclipses] coisas desses [instantes] únicos [frações] no tempo ou [do] tempo [fissuras] dos momentos [logo] ali quando uma coisa [é] e logo adiante [não] é mais [deixa] a coisa [que] era para trás [o] que [era] foi e [logo] vai ser [outra]. Mas o gato [não] escreve [não] se ocupa desses [afazeres] o gato é [talvez] leitor do que [vai] escrito no [pensamento] dos geômetras [o gato] parece um mestre [em] tr...

[DOSES DIÁRIAS DE INFÂNCIA]

Imagem
[Ele automedicou-se com duas doses diárias de infância para que a velhice não ficasse à beira da estrada com cara de abandono e fastio.  Essas doses diárias de infância eram escolhidas aleatoriamente no frasco maior da meninice, ali onde cabiam eventos espetaculares do tempo em que as coisas nasciam, coisas inaugurantes e inauguradas.  Coisas que eclodiam. Ele acreditava com fervor nos poderes benéficos dessa estranha terapêutica. E ao contrário de outras medicações, sem qualquer temor a riscos ele cedia o corpo aos efeitos colaterais sobre os quais cultivava suprema ignorância.  Não havia bula. Não se conheciam os processos químicos ou fitoterápicos que davam origem a essas doses. Ele apenas abria o frasco maior da meninice e sorvia o que prescrevera. Sentiu-se bem.  Não sentiu-se novo porque não era este o propósito do que decidira quando viu à beira da estrada caras de abandono e fastio. Aquele enfado cheio de pontas. Aquele enfado coberto pelo limo....

[AS TARDES NO SUPLEMENTO LITERÁRIO]

Imagem
[as tardes no suplemento literário  eram tardes lépides, víssilas, larúnias,  essas palavras que não existem.] [tarde boa era tarde cortázica.] [de quando em quando, uma tarde quintero,  o ednódio, ou uma  tarde dyonélio, o machado,  ou uma tarde  caio fernando abreu.] [a pasta de poemas dera crias  durante a noite.] [pintainhos novos  eclodiam desde barbacena, juiz de fora,  maceió, manaus.] [poema inédito  de max martins, e, de amparo, comparecia  o ainda menino marçal aquino.] [manoel lobato aplicava farmacopeias  na pasta de ficções.] [jaime sugeria  guilhotina e cepo para um conto  pó de arroz.]  [quem sabe, na contracapa,  um poema do novíssimo ricardo aleixo?] [piroli não veio.] [há semana e tanto  que piroli não vem.] [mas o duílio chega,  ofega, agita-se.] [cento e oitenta e sete contos na pasta sob o braço.] [é muito, é tanto, para que tanto contista, meu deus?] [mas deu...

[O BOLINHO DE FEIJÃO E A LARANJADA]

Imagem
[Paulo Mendes Campos dedicou uma crônica inteira ao bolinho de feijão do Ignácio´s, no tempo em que o bar funcionava na Rua da Bahia, antes de se mudar para a Guajajaras e morrer para todo o sempre. A crônica está em Os bares morrem numa quarta-feira .] [Não conheci o Ignácio´s original. E sinto, por essa lacuna, digamos, no céu metafísico do paladar, uma dor prima da nostalgia.] [Mas ostento a imensa honra de ter provado a laranjada do Café Pérola.] [Pode ser que a laranjada do Café Pérola seja a parente sem aura do bolinho de feijão do Ignácio´s. O poeta de O domingo azul do mar enovelou de tal modo as virtudes apetitosas do bolinho que fico constrangido em enumerar atributos iguais da laranjada. Mas quem não pode brandir espada de samurai brande canivete de porta de bodega.] [Foi em 1967, no entrante mês de março. Eu chegava a Belo Horizonte para nunca mais voltar a viver às beiras do Córrego da Confusão, lá no alto do Paranaíba, lá onde as siriemas vagavam pelo altiplano...