3.8.26

[OS FILÓSOFOS E A ECLOSÃO DOS OVOS]

[os filósofos ficavam à espreita, atrás das pedras e dos arbustos. 

só saíam quando os ovos eclodiam. 

era o momento do júbilo. 

cada filósofo emocionava as pálpebras de ver e as pálpebras de sonhar. 

chamávamos esse espetáculo de "o que os ovos fazem com a filosofia". 

os povos ágrafos parece que transmitiram aos filósofos esse ardor na alma. pois não havia outro nome senão ardor na alma para definir aquela festa da eclosão dos ovos. 

era tanto êxtase que os filósofos, aos saltos, lembravam velas esvoaçantes de barcos em dia claro, sob vento contínuo e benfazejo. 

relatos posteriores desses acontecimentos ainda provocam até hoje a festa pândega e pagã da visão e do sonho. 

peço mais um cálice de vinho ao garçom leitor de proposições e axiomas. 

elevo brindes aos filósofos desses mundos obscuros. 

ponho a literatura ao sol, em varais com espinhos, para que ela sofra lentamente a dor das asperezas. 

é tarde. 

e a madrugada será longa como um deserto de tulipas murchas. 

chamam-me de "aquele que crê". 

prefiro, porém, ser chamado de "aquele que andarilha".]

26.7.26

[PASCAL QUIGNARD E AS CÂMARAS DE ECO]

[pascal quignard, em dois laços
entre o som e a noite, diz que as grutas
paleolíticas não são santuários de imagens,
mas instrumentos de música cujas paredes
foram decoradas, são ressoadores noturnos
pintados no invisível, câmaras de eco,
e o eco teria determinado a escolha
das paredes a serem pintadas. 

diz ainda pascal quignard que o eco
é o lugar do duplo sonoro, do mesmo modo
que a máscara é o lugar do duplo visível:
máscaras de bisonte, máscaras de cervo,
máscaras de ave presa de bico curvo. etc.

mais adiante ele diz que o eco é o guia
e o referente na obscuridade silenciosa,
e diz ainda: «o eco é a voz do invisível».

costumo pensar com frequência no eco
dentro do poema, no som que se estilhaça,
que se fragmenta, sílabas-partículas
em colisão sonora: sons para que os olhos
os vejam. ver som. ver o eco. o olho que escuta.

sei que as teorias poemáticas são modos
de justificar o que a obra, titubeante, obra.
mas de ler pascal quignard nesse tratado
sobre o som e a noite, encontro um alívio
na aflição de um paradoxo: 
o poema é o olho que canta.]

22.7.26

[CURSO GERAL DE POÉTICA: EUGÉNIO DE ANDRADE]

[em 2005, era fevereiro entrante, e manuel jorge marmelo, meu irmão-do-lado-de-lá-do-mar, levou-me em passeio pelas ruelas de miragaia, mostrou-me o douro e a procissão de gaivotas na terceira margem do douro, mostrou-me becos, passagens, vãos de ruas para outras ruas 

na região mais antiga do porto, subimos, descemos, descemos e subimos, e lá estava o douro, sempre o douro, e o jorge, sempre fraterno, levou-me ali pela foz (era tarde de sábado, era tarde de frio, era tarde em meu tempo de permanência no porto), jorge levou-me ali pela foz, e, ao largo, ali quando o rio e o mar parece que conversam, parece que dialogam, 

parece que filosofam, jorge apontou-me, bem perto, a casa de eugénio de andrade, eis a casa do poeta, eis que o poeta (isto eu pensei) soube ter diante, em suas janelas, a topografia do rio e do mar, pois rio é o que abre, mar é o que recebe, e ali a casa, névoas agora na minha vista, sombras de uma lembrança que a clara luz daquele dia só 

me cega, tantos azuis, tantos brancos, tantos raios de cores despidas de cores, cores nuas sobre o mar e sobre o rio, e lá a casa do poeta, até fiz menção de visitá-lo, quem sabe uma palavra, quem sabe só o aperto fugaz de mãos com o rio e o mar ali como testemunhas, mas, não, não era hora, 

não era mais a hora, jorge contou-me que o poeta se achava adoentado, se fosse antes, anos antes, quem sabe, mas, não, o tempo urge, o tempo é bicho voraz, e o sábado, o sábado de 2005, foi adiante, almoçaremos no abadia, disse jorge, e lá fui eu, sereno, com duas flores no peito 

para eugénio de andrade, mesmo com o crime de ter viajado ao porto tão tarde. a isto eu chamo poesia.]

[ALBERT CAMUS E A JANELA]

[na enciclopédia das quedas e dos fracassos, junto com o verbete livro, há também os verbetes dos verbos ver e deduzir.]

[impossível ver (e deduzir) o que albert camus vê pela janela nesse instante.]

[instante, assim nos parece, de descanso, de intervalo, de lacuna, ao sentar-se no marco da janela.]

[talvez fosse melhor chamar isto de contramarco da janela, ou, no dizer dos engenheiros, pano de peito.]

[talvez, talvez seja isto, ou não, pois as nomenclaturas igualmente fracassam, apenas vemos que camus se sentou.]

[uma das pernas alçada sobre o encanamento da calefação, a outra perna se apoia no assoalho.]

[a luz de paris com os seus cinzentos à beira do prata, um telhado, uma antena de televisão.]

[camus segura com a mão direita talvez um cálice, e olha.]

[o que vê o escritor não sabemos.]

[talvez nem olhe, talvez apenas absorva o que vai pela rua.]

[um homem e uma mulher talvez passem justo agora, um carro, ou nada, pode ser que a rua esteja vazia.]

[camus então apenas se deixa ficar com o nada pelos olhos.]

[sim, tudo isto é fracasso, fracasso das deduções, imaginâncias sobre uma foto que nos comove, imaginâncias sobre o fracasso do que tentamos ver.]

[um escritor na janela, entre duas folhas abertas para que a janela nos faça recordar de um livro, um livro 
igualmente aberto, a janela-página com um escritor sentado lá dentro.]

20.5.26

[OS GRAVETOS, ESSES SERES DA INOCÊNCIA]

[ela disse, e se referia ao graveto: "este jamais sofreu a maldição da escrita".] 
[era o graveto de uma árvore também seca, que dava para um quintal corroído pelo silêncio, pela ausência, pelo abandono.] 
[tinha o graveto a dimensão de um dedo, e terminava em forquilha numa das pontas.] 
["este jamais sofreu a maldição da escrita", ela repetiu, e eu perguntei o seu nome.]
["meu nome", ela falou, "não tenho nome, e se o tivesse não o usaria".]
[depois, alguns dias depois, eu voltei a encontrá-la e ela escrevia a carvão símbolos ininteligíveis numa parede.]
[eram arremedos de vogais, porções de consoantes com aleijões, números que nenhuma aritmética poderia encampá-los.] 
[só o carvão, em finca, pontudo, escavava nitidez negra nos tijolos, aquela parede que restara de um depósito de sal.]
[era o carvão de um graveto recém-queimado.]
[o graveto que não sofrera a maldição da escrita.]

21.10.25

[PROVOCAÇÕES: ERIÇAMENTOS: ATRITOS]

[ENTREVISTA COM O VAZIO]

[o vazio perguntou ao pleno por que se escreve. o pleno não soube ou não quis fecundar uma resposta.]

[chamamos deleuze, chamamos a reprodução simulatória de uma vitrine em outra vitrine numa cidade sitiada, chamamos rimbaud, lautréamont, chamamos os tuaregues e os ciganos.]

[chamamento meramente retórico.]

[só a vaziez sabe por que se escreve.]

[DOS DESTINATÁRIOS]

[o velho disse: "mas um livro é sempre uma carta para não-todos-destinatários".]

[o velho disse: "para-todos é sempre demais para o destino de um livro".]

[OS NÃO LEITORES]

[o vazio disse que gostava de provocar os não leitores com miríades baças de um texto com espinhos.]

[era o modo de dar às retinas os punhados de areia.]

[os não leitores poderiam então simular a queda no abismo.]

[a dor do texto prenhe de ilegível.]

[CANTATA MATINAL]

[na beira-página, estão os visitantes.]

[são legentes e são legíveis.]

[uns leem as páginas, outros são lidos por elas.]

[combinam-se, de um lado e outro, os povos migrantes do texto.]

[o texto é o modo mais sublime dos povoamentos.]

31.8.25

[A FERA DA RUA DA BAHIA]

[a fera foi vista ontem 
na rua da bahia.
fera ferrabrás 
de linhagem fera: 
garras, bocarra, ira, 
pelagem, retinas. 
ninguém ligou. 
não houve espanto, 
não houve pânico, 
ninguém ligou 
para a polícia 
borocoxô
ou mesmo 
para o governador 
coió. 
douta 
e acadêmica vida 
esta que já não se espanta. 
insípida e pernóstica
vida esta que já não eriça 
os pelos da surpresa.
foi-se então a fera, 
fera ferrabrás
de linhagem fera.
foi-se pela cidade. 
talvez tomar sorvete. 
talvez 
comprar uns trajes
novos lá onde drummond 
fez um incêndio.]