[ALBERT CAMUS E A JANELA]

[na enciclopédia das quedas e dos fracassos, junto com o verbete livro, há também os verbetes dos verbos ver e deduzir.]

[impossível ver (e deduzir) o que albert camus vê pela janela nesse instante.]

[instante, assim nos parece, de descanso, de intervalo, de lacuna, ao sentar-se no marco da janela.]

[talvez fosse melhor chamar isto de contramarco da janela, ou, no dizer dos engenheiros, pano de peito.]

[talvez, talvez seja isto, ou não, pois as nomenclaturas igualmente fracassam, apenas vemos que camus se sentou.]

[uma das pernas alçada sobre o encanamento da calefação, a outra perna se apoia no assoalho.]

[a luz de paris com os seus cinzentos à beira do prata, um telhado, uma antena de televisão.]

[camus segura com a mão direita talvez um cálice, e olha.]

[o que vê o escritor não sabemos.]

[talvez nem olhe, talvez apenas absorva o que vai pela rua.]

[um homem e uma mulher talvez passem justo agora, um carro, ou nada, pode ser que a rua esteja vazia.]

[camus então apenas se deixa ficar com o nada pelos olhos.]

[sim, tudo isto é fracasso, fracasso das deduções, imaginâncias sobre uma foto que nos comove, imaginâncias sobre o fracasso do que tentamos ver.]

[um escritor na janela, entre duas folhas abertas para que a janela nos faça recordar de um livro, um livro 
igualmente aberto, a janela-página com um escritor sentado lá dentro.]

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