Postagens

Mostrando postagens de agosto, 2025

[QUASE NOITE. COM FRANCIS PONGE]

Imagem
[é quase noite. e as pitangas  tingem o leite que o céu  derrama  a oeste, ali onde a estrela  temporã  logo virá declamar  um poema  de francis ponge. o vapor de cachoeira  não navega  mais no mar.  o jardim protege  uma ninhada  de vogais. o rústico  graveto  aresta a página de uma avenca  que, quase noite, logo vai  declamar  um poema de francis ponge.  é quase noite ao sul do sul, vai  agora o sol, vem a lua, e o cheiro  do óleo diesel é o próprio  coração  do diabo a bater  na caldeira da fábrica.  a fábrica  não vai declamar  um poema de francis ponge. o corte no olho do cão andaluz.  o banquete dos mendigos  por entre  as espirais  do tabaco de buñuel. godard recorta o senso  comum  com as tesouras  de uma andorinha  perdida,  perdida e cega,  na quase noite.  a andorinha  logo declam...

[PAUL CELAN E O FIAPO DA ROUPA DE UM PEREGRINO]

Imagem
[ainda noite, mas já manhã  prenunciada, veio o texto.] [texto assim: fiapo  da roupa de um peregrino.] [lembrei-me então da carta  que paul celan  escreveu a hans bender  em 18 de maio  do ano de 1960:  "só mãos verdadeiras  escrevem um poema verdadeiro.  em princípio,  não vejo nenhuma diferença  entre um aperto  de mãos e um poema".] [e o texto veio assim: fiapo  da roupa de um peregrino.]  [não era ouro,  não era ourivesaria, nada  de texto-diamante à luz chegante  do dia: era fiapo.] [fiapo da roupa de um peregrino.] [com a delicadeza que se impôs  em hora tão inaugural no tempo,  tratei de laçar a lápis  esse indizível que jamais escreveremos.] [modo não há de escrever o fiapo  que se fez de texto na manhã  prenunciada.] [o fiapo é o indizível,  é o horizonte inalcançável, é isto  que nos ilude para a escrita  sempre sonhada e impossível.]

[EDMOND JABÈS: GENEROSIDADES DO SILÊNCIO]

Imagem
[o que perturba sem nenhum ruído, sem  algaravias, o livro perturbador e perturbante,  esse livro que por ele somos perdidamente atraídos  (são tão poucos, são contáveis nos dedos),  esse livro que nos retira o centro e nos lança  às espirais da própria perturbação, esse livro  talvez não seja um livro longo, imenso, oceânico,  mas um livro que, mesmo ao ter mil páginas,  é um livro de pequenas cápsulas, de pequenos grãos,  de pequenas ilhas.  mostro a k . e a q .  um dos livros de jabès. abrimos em conjunto  as suas páginas. lá estão as cápsulas, as frações  e as porções do fato perturbador e perturbante.  o que lemos nesse livro, livro que é a multiplicação  de tantos livros num pontilhismo de tantas ilhas  em um mapa sem nome, nos joga às margens  da cidade. a cidade então perde o centro, e, com ela,  passamos a habitantes do horizonte. o horizonte  sem margens. t...

[CARTA AO SENHOR PON, MUY ESTIMADO EDITOR]

Imagem
[Caro amigo Senhor Pon:  Envio-lhe, enfim, os originais com 250 páginas (por favor, não fique assustado com o tamanho) em espaço simples. Há uma mancha de sangue na página 89. Por favor, igualmente não se assuste. Foi um acidente com o dedo médio no momento em que fazia a última leitura. Eu nunca deveria, Senhor Pon, usar o canivete enquanto leio. Nunca. Mas sou — o Senhor bem sabe — muito repetitivo. Passarei por Lisboa em outubro, a caminho da Espanha. Estarei em Vigo até novembro. Vou com Lanna — há cinco anos que lhe prometi a viagem e agora não há mais como desistir. Levaremos também o gato — é o Lopes — que se encontra no oitavo capítulo do livro. Dedico-lhe, aliás, 33 páginas. Peço-lhe paciência durante a leitura do texto que se encontra entre as páginas 143 e 198. Paciência e benevolência. Não pela qualidade (seja duro, Senhor Pon, não poupe nada em sua avaliação), mas pelo tema que ali descrevo — o tema do assassinato. Confesso-lhe: fui testemunha daquele crime. ...