6.9.26

[AS COISAS DENTRO DAS COISAS]

 


Ligia Flores, em seu Todas as coisas dentro de uma coisa (Editora Galo Azul, Rio de Janeiro, 1979), conta a história de um homem que imaginava coisas dentro de coisas, e para cada coisa encontrada dentro de uma coisa ele imaginava outra coisa, outro conteúdo, e mais outro, infinitamente. Diz a autora que esse homem — identificado no livro apenas pelas iniciais F. J. V. — não sabia ler nem escrever, mas era como se o soubesse, pois encontrou um modo muito peculiar para o registro de suas descobertas: a carvão — com uma lasca de carvão — ele grafava riscos e sinais em grossas folhas de papel e depois as  empilhava pela casa, montava a sua biblioteca de folhas soltas, cada folha tornada memória da coisa que ele encontrava dentro de outra coisa, a coisa dentro da pedra, a coisa dentro da pena, a coisa dentro da fruta, e dentro de cada coisa achada dentro da coisa havia mais outra coisa.

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