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[DOSES DIÁRIAS DE INFÂNCIA]

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[Ele automedicou-se com duas doses diárias de infância para que a velhice não ficasse à beira da estrada com cara de abandono e fastio.  Essas doses diárias de infância eram escolhidas aleatoriamente no frasco maior da meninice, ali onde cabiam eventos espetaculares do tempo em que as coisas nasciam, coisas inaugurantes e inauguradas.  Coisas que eclodiam. Ele acreditava com fervor nos poderes benéficos dessa estranha terapêutica. E ao contrário de outras medicações, sem qualquer temor a riscos ele cedia o corpo aos efeitos colaterais sobre os quais cultivava suprema ignorância.  Não havia bula. Não se conheciam os processos químicos ou fitoterápicos que davam origem a essas doses. Ele apenas abria o frasco maior da meninice e sorvia o que prescrevera. Sentiu-se bem.  Não sentiu-se novo porque não era este o propósito do que decidira quando viu à beira da estrada caras de abandono e fastio. Aquele enfado cheio de pontas. Aquele enfado coberto pelo limo....

[AS TARDES NO SUPLEMENTO LITERÁRIO]

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[as tardes no suplemento literário  eram tardes lépides, víssilas, larúnias,  essas palavras que não existem.] [tarde boa era tarde cortázica.] [de quando em quando, uma tarde quintero,  o ednódio, ou uma  tarde dyonélio, o machado,  ou uma tarde  caio fernando abreu.] [a pasta de poemas dera crias  durante a noite.] [pintainhos novos  eclodiam desde barbacena, juiz de fora,  maceió, manaus.] [poema inédito  de max martins, e, de amparo, comparecia  o ainda menino marçal aquino.] [manoel lobato aplicava farmacopeias  na pasta de ficções.] [jaime sugeria  guilhotina e cepo para um conto  pó de arroz.]  [quem sabe, na contracapa,  um poema do novíssimo ricardo aleixo?] [piroli não veio.] [há semana e tanto  que piroli não vem.] [mas o duílio chega,  ofega, agita-se.] [cento e oitenta e sete contos na pasta sob o braço.] [é muito, é tanto, para que tanto contista, meu deus?] [mas deu...

[O BOLINHO DE FEIJÃO E A LARANJADA]

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[Paulo Mendes Campos dedicou uma crônica inteira ao bolinho de feijão do Ignácio´s, no tempo em que o bar funcionava na Rua da Bahia, antes de se mudar para a Guajajaras e morrer para todo o sempre. A crônica está em Os bares morrem numa quarta-feira .] [Não conheci o Ignácio´s original. E sinto, por essa lacuna, digamos, no céu metafísico do paladar, uma dor prima da nostalgia.] [Mas ostento a imensa honra de ter provado a laranjada do Café Pérola.] [Pode ser que a laranjada do Café Pérola seja a parente sem aura do bolinho de feijão do Ignácio´s. O poeta de O domingo azul do mar enovelou de tal modo as virtudes apetitosas do bolinho que fico constrangido em enumerar atributos iguais da laranjada. Mas quem não pode brandir espada de samurai brande canivete de porta de bodega.] [Foi em 1967, no entrante mês de março. Eu chegava a Belo Horizonte para nunca mais voltar a viver às beiras do Córrego da Confusão, lá no alto do Paranaíba, lá onde as siriemas vagavam pelo altiplano...

[AQUILO QUE BRETON PARECE TER VISTO ALGUM DIA]

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[com o cesto que era para borboletas,  agora ele caça epifanias. são curtos- circuitos no dia, e ocorrem quando a rua, soturna e obtusa, desvogaliza a vida, troca as vogais da flauta pela bigorna  da usina, o chumbo fundido de letras,  homens-linotipos tão bestas, esses desanjos em queda, as asas com avarias, línguas queimadas em fel, incapazes de doçura. e então vêm as pagãs, profanas epifanias, não voam, mas dançam, giros em vórtice na praça, espiral de cânticos em cânticos, traçam em corisco e rabiscos os rastros em arabescos, é o instante em que o poema salta de um ovo alquímico e grassa seu gás pelas ruas, casa-se o noivo poema com a noiva  epifania, são as bodas que o poeta precisa para girar a esferaria, essas esferas magnéticas que breton parece ter visto  algum dia, um tal desarranjo da ordem, uma tal embriaguez das bússolas, assim, pois, então, encerro tal gramatologia, esse  reconto que diz lá no começo: com um cest...

[HÖLDERLIN, HÖLDERLIN]

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["pallaksch", murmurava  hölderlin, "pallaksch",  ele murmurava, nem sim, nem não, nem sim, nem não, ó melancolia dos murmúrios, ó a crua limiaridade do que não é sim, nem é não. paul celan  também murmurou com hölderlin "pallaksch", assim igual eu murmuro "pallaksch", murmuro as desdobras  sem dobras do que indefine, mas intuo ter visto lá onde o navio cruza, lá onde o mar-alto vira, intuo ter visto um pássaro sem cor sobre o verde mar desconhecido, intuo esse pássaro,  não é do sim, não é do não, mas é tão jovem quanto um fogo em seu vigor inaugural.]

[O FIO E O TIGRE AZUL]

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[era só um fio.  começava na ponta leste e vinha como se serpente até a ponta oeste e prosseguia mais e mais como se desejasse não ter fim jamais.  era só um fio na paisagem que a cidade  expunha  ao ocaso, luzes  trêmulas de postes como se fantasmas, mulheres  que puxavam os filhos aos seios para protegê-los  do tigre azul. o fio único desafiava  os tratados  de filosofia,  os estudos de ciência, ameaçava as deidades e divindades, era um fio  que começava na ponta leste e vinha como se serpente  até  a ponta oeste, e prosseguia,  mais  e mais  ele prosseguia,  um fio  desejante  de não ter jamais um fim atravessava a cidade  em seu ocaso  triste,  de mulheres tristes, com filhos tristes, em pânico  com o tigre azul.]

[A FRASE QUE CAIU DA NOITE]

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[gatos apreciam andar lentamente pelo gerúndio.] [país. imaginei ter um. já não imagino mais.] ["vem", disse a chama. a lenha foi. e era noite. falava-se a língua dos murmúrios.] [buraco. o da estante. o que ficou do livro in absentia .] [arder. era mesmo para arder aquele comunal convívio pelo livro, para o livro.] ["qual legado seria o da inscrição feita dentro de uma amêndoa?", ela perguntou.] [benjamin disse: "a rua: habitação do coletivo".] [aparições. instantâneos que a letra, qual radar, puxa para a frase.] ["a mão também é peregrina com o seu lápis-cajado", ele disse.] ["manto. tão abrigante palavra, toda ela aquecida", ela disse.] ["ah, mas o tecido do texto só para poucos vira manto", ela disse.] [arpejo. tudo aquilo que, em um tempo-antes, foi rumor.] [fímbria. certas dobras, certas beiras, onde pensamento e abismo se irmanam.] [declamação. o que dizem ser uma forma de envergonhar os poem...