[O BOLINHO DE FEIJÃO E A LARANJADA]
[Paulo Mendes Campos dedicou uma crônica inteira ao bolinho de feijão do Ignácio´s, no tempo em que o bar funcionava na Rua da Bahia, antes de se mudar para a Guajajaras e morrer para todo o sempre. A crônica está em Os bares morrem numa quarta-feira.]
[Não conheci o Ignácio´s original. E sinto, por essa lacuna, digamos, no céu metafísico do paladar, uma dor prima da nostalgia.]
[Mas ostento a imensa honra de ter provado a laranjada do Café Pérola.]
[Pode ser que a laranjada do Café Pérola seja a parente sem aura do bolinho de feijão do Ignácio´s. O poeta de O domingo azul do mar enovelou de tal modo as virtudes apetitosas do bolinho que fico constrangido em enumerar atributos iguais da laranjada. Mas quem não pode brandir espada de samurai brande canivete de porta de bodega.]
[Foi em 1967, no entrante mês de março. Eu chegava a Belo Horizonte para nunca mais voltar a viver às beiras do Córrego da Confusão, lá no alto do Paranaíba, lá onde as siriemas vagavam pelo altiplano antes que a soja e a cenoura tomassem o lugar das lobeiras, das gabirobas, do caju miúdo, e o cerrado perdesse de vez aquela tortuosidade barroca vegetal para os campos monótonos das plantations.]
[Pus os pés na Praça Sete naquele princípio de tarde e fui levado ao Café Pérola. Reluzia o aço inoxidável da máquina atrás do balcão. E da torneira jorrava aos copos o ouro da beberagem com direito a gominhos flutuantes de laranja na flor das bordas. Chamei de poesia aquele instante, e trouxe pelos anos afora essa lembrança humilde, pois só a humildade é capaz de definir tão prosaica bebida.]
[De tempos em tempos, quando revisito a Praça Sete, sinto os lampejos epifânicos daquela tarde, daquele mês de março. E a laranjada do Café Pérola, relembrada, desencadeia em mim as alegrias inaugurais da juventude.]
[Como o Ignácio´s, o Café Pérola não existe mais. Do bolinho de feijão merecedor de uma ode em forma de crônica de Paulo Mendes Campos, restou a paisagem oleosa de certos espécimes muito esquisitos em balcões do centro da cidade. E a laranjada, bom, ela é agora o pó industrial a ser diluído em águas turvas.]
[Não conheci o Ignácio´s original. E sinto, por essa lacuna, digamos, no céu metafísico do paladar, uma dor prima da nostalgia.]
[Mas ostento a imensa honra de ter provado a laranjada do Café Pérola.]
[Pode ser que a laranjada do Café Pérola seja a parente sem aura do bolinho de feijão do Ignácio´s. O poeta de O domingo azul do mar enovelou de tal modo as virtudes apetitosas do bolinho que fico constrangido em enumerar atributos iguais da laranjada. Mas quem não pode brandir espada de samurai brande canivete de porta de bodega.]
[Foi em 1967, no entrante mês de março. Eu chegava a Belo Horizonte para nunca mais voltar a viver às beiras do Córrego da Confusão, lá no alto do Paranaíba, lá onde as siriemas vagavam pelo altiplano antes que a soja e a cenoura tomassem o lugar das lobeiras, das gabirobas, do caju miúdo, e o cerrado perdesse de vez aquela tortuosidade barroca vegetal para os campos monótonos das plantations.]
[Pus os pés na Praça Sete naquele princípio de tarde e fui levado ao Café Pérola. Reluzia o aço inoxidável da máquina atrás do balcão. E da torneira jorrava aos copos o ouro da beberagem com direito a gominhos flutuantes de laranja na flor das bordas. Chamei de poesia aquele instante, e trouxe pelos anos afora essa lembrança humilde, pois só a humildade é capaz de definir tão prosaica bebida.]
[De tempos em tempos, quando revisito a Praça Sete, sinto os lampejos epifânicos daquela tarde, daquele mês de março. E a laranjada do Café Pérola, relembrada, desencadeia em mim as alegrias inaugurais da juventude.]
[Como o Ignácio´s, o Café Pérola não existe mais. Do bolinho de feijão merecedor de uma ode em forma de crônica de Paulo Mendes Campos, restou a paisagem oleosa de certos espécimes muito esquisitos em balcões do centro da cidade. E a laranjada, bom, ela é agora o pó industrial a ser diluído em águas turvas.]

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