[AQUILO QUE BRETON PARECE TER VISTO ALGUM DIA]

[com o cesto que era para borboletas, 
agora ele caça epifanias. são curtos-
circuitos no dia, e ocorrem quando a rua,

soturna e obtusa, desvogaliza a vida,
troca as vogais da flauta pela bigorna 
da usina, o chumbo fundido de letras, 

homens-linotipos tão bestas, esses desanjos
em queda, as asas com avarias, línguas
queimadas em fel, incapazes de doçura.

e então vêm as pagãs, profanas epifanias,
não voam, mas dançam, giros em vórtice
na praça, espiral de cânticos em cânticos,

traçam em corisco e rabiscos os rastros
em arabescos, é o instante em que o poema
salta de um ovo alquímico e grassa seu gás

pelas ruas, casa-se o noivo poema com a noiva 
epifania, são as bodas que o poeta precisa
para girar a esferaria, essas esferas

magnéticas que breton parece ter visto 
algum dia, um tal desarranjo da ordem,
uma tal embriaguez das bússolas, assim,

pois, então, encerro tal gramatologia, esse 
reconto que diz lá no começo: com um cesto
para borboletas, agora ele caça epifanias.]

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