[o menino gostava de observar o cabo de aço que descia pelo para-raios até o chão. eram dois andares, e o cabo vinha do telhado a uma passarela de cimento em volta da casa. o cabo não tocava a parede. de meio em meio metro, pequenas argolas de ferro evitavam o contato do cabo com o reboco.]
[o motorista do gmc marítimo contou um dia para o menino que os raios desciam pelo cabo em dias de tempestade. a cada raio que caía o cabo dava chicotadas, se contorcia, ficava vermelho e em brasa. a gente podia sentir o cheiro de queimado.]
[depois que ouviu isto, o menino passava horas observando o cabo. imaginava a tempestade. imaginava os trovões e os relâmpagos. imaginava o que o velho motorista chamava de "hora do capeta".]
[a irmã do meio gritava em dias de chuva. a irmã do meio nunca se livrou do medo daqueles dias de chuva. e quando chovia, o menino ficava na copa, diante da escadaria, pois ali, do lado de fora, a "hora do capeta" fazia o cabo de aço dar chicotadas.]
[o menino era um menino triste. dava para pegar a tristeza desse menino na palma da mão. só algumas coisas tiravam essa tristeza do menino. uma delas era o ronco que dava o motor do gmc marítimo. o gmc marítimo era um caminhão enorme. e era azul. levava cimento para a construção de brasília.]
[um homem da udn um dia matou um homem do psd. e então um homem do psd matou outro homem da udn. e então eles se mataram durante mais de um ano até que o governador enviou um delegado para acabar com a matança.]
[o gmc marítimo um dia levou cimento para a construção de brasília e não voltou mais. nunca ninguém mais soube do gmc marítimo. nem do motorista. o pai do menino, que era dono do caminhão, ficou também triste, e a sua tristeza também dava para pegar na palma da mão.]
[vinham as tempestades e o cabo de aço chicoteava pela parede abaixo. depois abria o sol e as tanajuras apareciam. o menino gostava de pisar na bunda das tanajuras. aquela gosma amarelada. aquela banha.]
[de vez em quando o menino pensava no gmc marítimo. depois pensou menos. até que não pensou mais.]
[a tristeza de pegar na palma da mão parecia uma bolota que grudava nos dedos. o pai ficava na poltrona com a sua bolota que escorria até o assoalho. a bolota escorria e ele ouvia o carlos gardel na vitrola.]
[o menino, mais alguns anos passados, foi para são paulo. cruzou o chapadão em um ônibus também azul. o ônibus ia muito lento pelo chapadão afora. o ônibus demorava demais para furar o horizonte. demorava demais para desaparecer lá onde a vista turva e os olhos não veem. demorava demais para alcançar o relâmpago mais distante.]
26.9.26
25.9.26
[O PENSAMENTO E A POESIA]
[há um indescritível
e indecifrável rumor noturno
de asas quando porções
de pensamento
esvoaçam em direção à poesia.
essas porções que a noite
não consegue aprisionar
com os seus cadeados e grades,
esses vazamentos de matéria
pensante a caminho da poesia
poderiam ser chamados
de "odres suspensos", posto
que lembram o jorro do vinho
para disseminar a festa
e a desordem.]
e indecifrável rumor noturno
de asas quando porções
de pensamento
esvoaçam em direção à poesia.
essas porções que a noite
não consegue aprisionar
com os seus cadeados e grades,
esses vazamentos de matéria
pensante a caminho da poesia
poderiam ser chamados
de "odres suspensos", posto
que lembram o jorro do vinho
para disseminar a festa
e a desordem.]
[CARTA AO SENHOR PON, MUY ESTIMADO EDITOR]
[Caro amigo Senhor Pon:
Envio-lhe, enfim, os originais com 250 páginas (por favor, não fique assustado com o tamanho) em espaço simples. Há uma mancha de sangue na página 89. Por favor, igualmente não se assuste. Foi um acidente com o dedo médio no momento em que fazia a última leitura. Eu nunca deveria, Senhor Pon, usar o canivete enquanto leio. Nunca. Mas sou — o Senhor bem sabe — muito repetitivo.
Passarei por Lisboa em outubro, a caminho da Espanha. Estarei em Vigo até novembro. Vou com Lanna — há cinco anos que lhe prometi a viagem e agora não há mais como desistir. Levaremos também o gato — é o Lopes — que se encontra no oitavo capítulo do livro. Dedico-lhe, aliás, 33 páginas.
Peço-lhe paciência durante a leitura do texto que se encontra entre as páginas 143 e 198. Paciência e benevolência. Não pela qualidade (seja duro, Senhor Pon, não poupe nada em sua avaliação), mas pelo tema que ali descrevo — o tema do assassinato.
Confesso-lhe: fui testemunha daquele crime. E acrescentaria: o dedo que puxou o gatilho teve (simbolicamente, se assim posso dizer) a influência da minha mão. Invoco, porém, o sigilo. Se os críticos (sobretudo os críticos italianos) souberem de minha proximidade a tão deplorável fato, estarei para sempre banido da Europa, e jamais verei uma obra minha exposta nas livrarias do velho continente.
Seria demais o convite para que esteja em Vigo pelos finais de outubro para dos copitas con nosotros? Lanna e eu estaremos à espera.
Una stretta di mano.
Do seu
G.]
Envio-lhe, enfim, os originais com 250 páginas (por favor, não fique assustado com o tamanho) em espaço simples. Há uma mancha de sangue na página 89. Por favor, igualmente não se assuste. Foi um acidente com o dedo médio no momento em que fazia a última leitura. Eu nunca deveria, Senhor Pon, usar o canivete enquanto leio. Nunca. Mas sou — o Senhor bem sabe — muito repetitivo.
Passarei por Lisboa em outubro, a caminho da Espanha. Estarei em Vigo até novembro. Vou com Lanna — há cinco anos que lhe prometi a viagem e agora não há mais como desistir. Levaremos também o gato — é o Lopes — que se encontra no oitavo capítulo do livro. Dedico-lhe, aliás, 33 páginas.
Peço-lhe paciência durante a leitura do texto que se encontra entre as páginas 143 e 198. Paciência e benevolência. Não pela qualidade (seja duro, Senhor Pon, não poupe nada em sua avaliação), mas pelo tema que ali descrevo — o tema do assassinato.
Confesso-lhe: fui testemunha daquele crime. E acrescentaria: o dedo que puxou o gatilho teve (simbolicamente, se assim posso dizer) a influência da minha mão. Invoco, porém, o sigilo. Se os críticos (sobretudo os críticos italianos) souberem de minha proximidade a tão deplorável fato, estarei para sempre banido da Europa, e jamais verei uma obra minha exposta nas livrarias do velho continente.
Seria demais o convite para que esteja em Vigo pelos finais de outubro para dos copitas con nosotros? Lanna e eu estaremos à espera.
Una stretta di mano.
Do seu
G.]
[A NATUREZA E O PENSAR]
[é devagar que penso a natureza,
quero dizer, o redemoinho
e o gafanhoto, a pedra e o graveto,
a chuva e o terremoto.
não ponho pressa em mim
para pensar o rio, seus remansos,
seu leito turvo, galhadas
que descem, suas águas corredeiras,
esse rio que ponho no pensamento
para melhor pensá-lo, pois um rio
é sempre dois rios, uma coisa
é sempre duas coisas,
a que está fora e a que está dentro,
são campos magnéticos, circuitos
entre o que se apalpa
e o que se pensa, a mesma coisa que,
ao ser pensada, ganha a consistência
de ser a mesma e ser diversa, pois
pensar é uma moenda, pensamento
é aquilo que engenha, se penso
a coisa, e penso a natureza, a mesma
coisa logo se inventa, basta pensar
para que outro mundo venha,
por isso chego à natureza
como um peregrino, ando com patas
de felino, lento eu giro o que eu vejo
em suave rodopio, não corro, aprendo
com a modorra do cachorro,
aprendo com a sonolência do cavalo,
alio-me à força dispersiva que leva
o cisco em ventania. se não entendo,
espero, e se me espanto, alegro-me.]
quero dizer, o redemoinho
e o gafanhoto, a pedra e o graveto,
a chuva e o terremoto.
não ponho pressa em mim
para pensar o rio, seus remansos,
seu leito turvo, galhadas
que descem, suas águas corredeiras,
esse rio que ponho no pensamento
para melhor pensá-lo, pois um rio
é sempre dois rios, uma coisa
é sempre duas coisas,
a que está fora e a que está dentro,
são campos magnéticos, circuitos
entre o que se apalpa
e o que se pensa, a mesma coisa que,
ao ser pensada, ganha a consistência
de ser a mesma e ser diversa, pois
pensar é uma moenda, pensamento
é aquilo que engenha, se penso
a coisa, e penso a natureza, a mesma
coisa logo se inventa, basta pensar
para que outro mundo venha,
por isso chego à natureza
como um peregrino, ando com patas
de felino, lento eu giro o que eu vejo
em suave rodopio, não corro, aprendo
com a modorra do cachorro,
aprendo com a sonolência do cavalo,
alio-me à força dispersiva que leva
o cisco em ventania. se não entendo,
espero, e se me espanto, alegro-me.]
23.9.26
[OS BANIDOS DAS EMENTAS DOS CURSOS DE LETRAS ESTÃO AGORA NO BAR 39]
[os banidos das ementas dos cursos de letras estão agora no bar 39, ali onde degolam-se cotovias.]
[há um cansaço nas horas.]
[um zeitgeist hematófago entra pela janela oeste e vai sugar o sangue da garçonete circe.]
[há um cansaço nas horas.]
[rebarbas e limalhas de país amontoam-se nos cantos, regadas pelos cachorros.]
[a palavra escombros, pluralizada, sinfônica, é escandida pelo jogral dos banidos das ementas dos cursos de letras.]
[há um cheiro da cidade de são paulo no suor do ar, o porejante suor do ar, o porejante suor do ar.]
[por que ainda choram os cavaquinhos?]
[outro zeitgeist hematófago entra pela janela leste e vai sugar o pescoço do otávio, o bom.]
[mangas apodrecem no beco.]
[jakobson não virá hoje.]
[passa, ao largo, na calçada oposta, a marcha das senhoras criadoras de monstros em potes de compotas.]
["não há poesia sem um dedo decepado a navalha", diz circe.]
[circe já perdeu todo o sangue para o zeitgeist hematófago.]
[os banidos das ementas dos cursos de letras são seis, são cinco, são quatro, são três, são dois, são zero na invisibilidade do bar 39.]
[o bar 39 aderna.]
[os testículos de gôngora rolam para lá e para cá no bar adernante, quase a pique, no mar sem vento.]
[há bundas defumadas de parnasianos em ganchos de açougueiros.]
[fala-se turco no recanto sul.]
[e a bomba falha. a explosão recua-se. o atentado não se consuma.]
[há um cansaço nas horas.]
[um zeitgeist hematófago entra pela janela oeste e vai sugar o sangue da garçonete circe.]
[há um cansaço nas horas.]
[rebarbas e limalhas de país amontoam-se nos cantos, regadas pelos cachorros.]
[a palavra escombros, pluralizada, sinfônica, é escandida pelo jogral dos banidos das ementas dos cursos de letras.]
[há um cheiro da cidade de são paulo no suor do ar, o porejante suor do ar, o porejante suor do ar.]
[por que ainda choram os cavaquinhos?]
[outro zeitgeist hematófago entra pela janela leste e vai sugar o pescoço do otávio, o bom.]
[mangas apodrecem no beco.]
[jakobson não virá hoje.]
[passa, ao largo, na calçada oposta, a marcha das senhoras criadoras de monstros em potes de compotas.]
["não há poesia sem um dedo decepado a navalha", diz circe.]
[circe já perdeu todo o sangue para o zeitgeist hematófago.]
[os banidos das ementas dos cursos de letras são seis, são cinco, são quatro, são três, são dois, são zero na invisibilidade do bar 39.]
[o bar 39 aderna.]
[os testículos de gôngora rolam para lá e para cá no bar adernante, quase a pique, no mar sem vento.]
[há bundas defumadas de parnasianos em ganchos de açougueiros.]
[fala-se turco no recanto sul.]
[e a bomba falha. a explosão recua-se. o atentado não se consuma.]
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