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terça-feira

[BRENDA WOLF]

Brenda Wolf gostava de trepidar o assoalho. Ela pressionava e batia os pés nas tábuas com a esperança de atrair terremotos. As xícaras, o açucareiro, os pires e os vidros de biscoito sobre a mesa formavam a paisagem perfeita e em miniatura do sinistro desejado. O gato se afastava. O avô, de quando em quando, perguntava se a cavalaria do imperador passava pela rua.

Nós, os que éramos despossuídos de espanto, ficávamos na varanda. Não acreditávamos em terremotos naquele trecho do mundo. No entanto, esperávamos: pela chuva, pelas cartas, pelo vendedor de tijolos ou pela banda de música. Brenda Wolf não nos dirigia a palavra. A varanda era um país, a cozinha era outro.

Sabem os que andam sem esperança que as gotas de uma torneira soam badalos de melancolia. Encolhíamos os nossos corpos sob as mantas, puxávamos os chapéus sobre os olhos, só concedíamos às vezes a emissão de uma vogal soturna. Vínhamos de muito longe. E é bem provável que não tivéssemos um destino.

E Brenda Wolf sonhava com os terremotos. Os pés fora das sandálias, os tornozelos rijos, os cotovelos fincados no tampo da mesa e a trepidação constante, quase galope, quase os tacões de um dançarino de flamenco. Um dia quem sabe um terremoto iria aflorar sob os pés de Brenda Wolf. E o mundo inteiro despenharia pelas gargantas do abismo.

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