22.7.26

[ALBERT CAMUS E A JANELA]

[na enciclopédia das quedas e dos fracassos, junto com o verbete livro, há também os verbetes dos verbos ver e deduzir.]

[impossível ver (e deduzir) o que albert camus vê pela janela nesse instante.]

[instante, assim nos parece, de descanso, de intervalo, de lacuna, ao sentar-se no marco da janela.]

[talvez fosse melhor chamar isto de contramarco da janela, ou, no dizer dos engenheiros, pano de peito.]

[talvez, talvez seja isto, ou não, pois as nomenclaturas igualmente fracassam, apenas vemos que camus se sentou.]

[uma das pernas alçada sobre o encanamento da calefação, a outra perna se apoia no assoalho.]

[a luz de paris com os seus cinzentos à beira do prata, um telhado, uma antena de televisão.]

[camus segura com a mão direita talvez um cálice, e olha.]

[o que vê o escritor não sabemos.]

[talvez nem olhe, talvez apenas absorva o que vai pela rua.]

[um homem e uma mulher talvez passem justo agora, um carro, ou nada, pode ser que a rua esteja vazia.]

[camus então apenas se deixa ficar com o nada pelos olhos.]

[sim, tudo isto é fracasso, fracasso das deduções, imaginâncias sobre uma foto que nos comove, imaginâncias sobre o fracasso do que tentamos ver.]

[um escritor na janela, entre duas folhas abertas para que a janela nos faça recordar de um livro, um livro 
igualmente aberto, a janela-página com um escritor sentado lá dentro.]

20.5.26

[OS GRAVETOS, ESSES SERES DA INOCÊNCIA]

[ela disse, e se referia ao graveto: "este jamais sofreu a maldição da escrita".] 
[era o graveto de uma árvore também seca, que dava para um quintal corroído pelo silêncio, pela ausência, pelo abandono.] 
[tinha o graveto a dimensão de um dedo, e terminava em forquilha numa das pontas.] 
["este jamais sofreu a maldição da escrita", ela repetiu, e eu perguntei o seu nome.]
["meu nome", ela falou, "não tenho nome, e se o tivesse não o usaria".]
[depois, alguns dias depois, eu voltei a encontrá-la e ela escrevia a carvão símbolos ininteligíveis numa parede.]
[eram arremedos de vogais, porções de consoantes com aleijões, números que nenhuma aritmética poderia encampá-los.] 
[só o carvão, em finca, pontudo, escavava nitidez negra nos tijolos, aquela parede que restara de um depósito de sal.]
[era o carvão de um graveto recém-queimado.]
[o graveto que não sofrera a maldição da escrita.]

21.10.25

[PROVOCAÇÕES: ERIÇAMENTOS: ATRITOS]

[ENTREVISTA COM O VAZIO]

[o vazio perguntou ao pleno por que se escreve. o pleno não soube ou não quis fecundar uma resposta.]

[chamamos deleuze, chamamos a reprodução simulatória de uma vitrine em outra vitrine numa cidade sitiada, chamamos rimbaud, lautréamont, chamamos os tuaregues e os ciganos.]

[chamamento meramente retórico.]

[só a vaziez sabe por que se escreve.]

[DOS DESTINATÁRIOS]

[o velho disse: "mas um livro é sempre uma carta para não-todos-destinatários".]

[o velho disse: "para-todos é sempre demais para o destino de um livro".]

[OS NÃO LEITORES]

[o vazio disse que gostava de provocar os não leitores com miríades baças de um texto com espinhos.]

[era o modo de dar às retinas os punhados de areia.]

[os não leitores poderiam então simular a queda no abismo.]

[a dor do texto prenhe de ilegível.]

[CANTATA MATINAL]

[na beira-página, estão os visitantes.]

[são legentes e são legíveis.]

[uns leem as páginas, outros são lidos por elas.]

[combinam-se, de um lado e outro, os povos migrantes do texto.]

[o texto é o modo mais sublime dos povoamentos.]

31.8.25

[A FERA DA RUA DA BAHIA]

[a fera foi vista ontem 
na rua da bahia.
fera ferrabrás 
de linhagem fera: 
garras, bocarra, ira, 
pelagem, retinas. 
ninguém ligou. 
não houve espanto, 
não houve pânico, 
ninguém ligou 
para a polícia 
borocoxô
ou mesmo 
para o governador 
coió. 
douta 
e acadêmica vida 
esta que já não se espanta. 
insípida e pernóstica
vida esta que já não eriça 
os pelos da surpresa.
foi-se então a fera, 
fera ferrabrás
de linhagem fera.
foi-se pela cidade. 
talvez tomar sorvete. 
talvez 
comprar uns trajes
novos lá onde drummond 
fez um incêndio.]