[CURSO GERAL DE POÉTICA: EUGÉNIO DE ANDRADE]

[em 2005, era fevereiro entrante, e manuel jorge marmelo, meu irmão-do-lado-de-lá-do-mar, levou-me em passeio pelas ruelas de miragaia, mostrou-me o douro e a procissão de gaivotas na terceira margem do douro, mostrou-me becos, passagens, vãos de ruas para outras ruas 

na região mais antiga do porto, subimos, descemos, descemos e subimos, e lá estava o douro, sempre o douro, e o jorge, sempre fraterno, levou-me ali pela foz (era tarde de sábado, era tarde de frio, era tarde em meu tempo de permanência no porto), jorge levou-me ali pela foz, e, ao largo, ali quando o rio e o mar parece que conversam, parece que dialogam, 

parece que filosofam, jorge apontou-me, bem perto, a casa de eugénio de andrade, eis a casa do poeta, eis que o poeta (isto eu pensei) soube ter diante, em suas janelas, a topografia do rio e do mar, pois rio é o que abre, mar é o que recebe, e ali a casa, névoas agora na minha vista, sombras de uma lembrança que a clara luz daquele dia só 

me cega, tantos azuis, tantos brancos, tantos raios de cores despidas de cores, cores nuas sobre o mar e sobre o rio, e lá a casa do poeta, até fiz menção de visitá-lo, quem sabe uma palavra, quem sabe só o aperto fugaz de mãos com o rio e o mar ali como testemunhas, mas, não, não era hora, 

não era mais a hora, jorge contou-me que o poeta se achava adoentado, se fosse antes, anos antes, quem sabe, mas, não, o tempo urge, o tempo é bicho voraz, e o sábado, o sábado de 2005, foi adiante, almoçaremos no abadia, disse jorge, e lá fui eu, sereno, com duas flores no peito 

para eugénio de andrade, mesmo com o crime de ter viajado ao porto tão tarde. a isto eu chamo poesia.]

Comentários

  1. E que belo sábado foi aquele, meu irmão Paulinho. Um grande abraço do lado de cá desse mar visível a partir das janelas da casa que deixou de ser de Eugénio.

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