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[A POESIA E A PROSA DUELAM NA TABERNA]

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["dizem os pasquins  que somos inimigas", falou devagar a prosa, o copo  sobre a mesa, aceso o cigarro rente à testa, a voz, a voz vinha de boca narrativa. "inimigas não somos, se bem, devo dizer, em algum momento senti ganas de matá-la", disse a poesia,  com meio riso cônico e irônico,  com outro meio riso fácil de notar que era um meio riso assim entre o sério e o adusto. "ah, também tive esses impulsos assassinos", confessou a prosa, o foco dos olhos sobre as próprias mãos agora em repouso sobre a mesa,  o cigarro quase no fim,  o fôlego para as frases longas. "seus deboches sempre  foram deboches de fraqueza",  respondeu a poesia, agora com um cálice de bebida forte,  se aguardente ou absinto,  as sobrancelhas franzidas, elípticos os lábios  com palavras bélicas. "em mim você também lançou  as setas envenenadas", falou a prosa,  os braços-parágrafos prontos para uma g...

[EM SALAMANCA, A TEORIA DO LIVREIRO SIETEFUEGOS]

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Foi em uma tarde brumosa e nevoenta da cidade de Salamanca, com mais exatidão na magnífica Calle de la Compañía, que Rubem Focs ouviu do livreiro Fernán Sietefuegos uma teoria deveras curiosa sobre a origem da filosofia. Segundo tais argumentos ditos em voz grave e baixa por Sietefuegos, foram os gatos que a inventaram, oferecendo-a na bandeja para os primeiros ou primeiríssimos filósofos de que a humanidade tem notícias. "O que é isto?", "Como foi que aconteceu?", "De onde veio?" ー todos sabemos que essas perguntas os gatos amiúde fazem como um hábito entranhado em sua natureza, enquanto cheiram o ar ou escutam o inaudível, enquanto fingem dormir, mas estão em vigília praticando exegese e hermenêutica de coisas secretas. Sietefuegos, com os seus enormes sapatos em lenta caminhada pela pedraria da rua, dono de um alfarrábio ali perto, na Calle de los Libreros, respirou fundo com um certo júbilo nos olhos. Parecia feliz com a história que ouvira de quem igu...

[EM TRIESTE, NO CAFÉ MOJORES]

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[Os camarões enlatados da marca Nogalitos (para quem não os conhece, são secos, miúdos e polvilhados com especiarias picantes) ainda podem ser degustados no Café Mojores, de Trieste, o mesmo aprazível e distinto estabelecimento já centenário onde o escritor Carlo Nubs costuma receber os amigos nas tardes de quarta-feira. Ali estive, no mês passado. Levava comigo algumas edições raras de manuais de pesca. Entre eles, cito um pequeno compêndio, não propriamente sobre a arte pesqueira, mas sobre a atitude que deve ter o pescador em locais de arriscado acesso, locais pouco frequentados, locais regidos pelo acaso, já que nunca sabemos se terminamos o dia com o embornal farto ou com a paciência rota. Carlo Nubs ficou comovido ao folhear essa edição que lhe caíra em mãos, pela primeira vez, fazia uns vinte anos. Ouvi-o dizer, de cor, frases inteiras sobre a arte da paciência ali contida, especialmente ali pela página 50, onde o autor do compêndio (omito o seu nome por motivos de segurança)...

[DEPOIMENTO DE NOEL BISCOLET, VULGO CONDE DE LAUTRELUNE]

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"Eu conheci o escritor Paulinho Assunção em São Paulo, em janeiro ou fevereiro de 1971. Era então um sujeito magro de dar pena. Pele e ossos. Usava uma calça de tergal, quedes pretos muito usados, camisa de gola puída e sempre com um casaco de brim marrom. Todos os começos de noite ele chegava à Biblioteca Mário de Andrade, na Rua da Consolação, e dali era o último a sair.  Dizia-me estar copiando verso a verso, linha a linha, sílaba a sílaba, a poesia de João Cabral de Melo Neto. Tudo em um cadernão escolar que ele levava debaixo do braço até um ponto do ônibus na Avenida Rio Branco, de onde seguia para os altos da Vila Madalena, na Rua Madalena. Apesar da vida difícil e da asma, possuía um entusiasmo invejável. Tinha vasculhado toda a seção de livros raros da biblioteca. Em sua mesa, na sala de consultas, avolumavam-se primeiras edições do modernismo, lia com voracidade Oswald e Mário, e soletrava em espanhol a obra de Lorca e Antonio Machado.  Lia sempre c...

[FILOSOFIAS DE DOMINGO]

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G. Deleuze quis tomar uma cerveja nos fundos do Mercado, mais adiante da loja de patos, um pouco antes da loja de peixes, entre os pimentões e as laranjas, entre a filosofia do ver e a filosofia do degustar. A cerveja veio e havia lentidões na manhã de domingo. G. Deleuze pôs o chapéu sobre o balcão, tinha limões nos bolsos do paletó, pediu a João Serenus descrições sobre a incidência da luz sobre os copos. Bebemos. Bebemos: um brinde para Espinoza, um brinde à fluidez dos afetos, um brinde à nova gravata de Franz Kafka, um brinde aos brincos de Cida La Lampe. Uns poetas passaram montados em um camelo, voou um bando de bailarinas sobre as nossas cabeças. Estávamos em estado de trincheira, trincheira para sorrir, trincheira para apreciar. Quase cresciam flores na ponta dos nossos dedos. Nenhum irado veio nos tirar da quietude.

[NUVENS DE PALÍNDROMOS SOBRE BELO HORIZONTE]

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[vicente gunz e eu fomos ver o homem-que-puxa-o-fio na avenida paraná.] [o homem tem um cartaz de papelão sobre o peito, onde se lê: “eu sou o homem que puxa o fio”.] [vicente gunz e eu contamos vinte e seis discípulos atrás dele.] [parece que a jornada começou pela praça rio branco e seguirá até a praça raul soares.] [não é preciso dizer que o fio que o homem puxa é um fio imaginário.] [o homem leva com ele uma carretilha.] [a carretilha desenrola-se interminavelmente.] [alguns discípulos afirmam que o fio que o homem puxa é um fio vermelho.] [alguns discípulos são filosóficos: “este é o fio das extremidades metafísicas”.] [outros são mais pictóricos: “este é o fio da primeira rajada de cores do dia da criação”.] [vicente gunz e eu agora fazemos parte do bando.] [vamos pela avenida paraná, expedicionários, e tudo é um ruidoso estado de júbilo.] [um poeta ainda em fase de aleitamento aliou-se a nós: “este é o fio das evoluções estétic...