[O EU COMO BEZERRO DE OURO]
Escrevo hoje em uma espécie de vigília. É como estar à beira do sono, em uma região limítrofe, umbral talvez para o território da escrita. Não era assim não faz muito tempo. Eu escrevia desperto e com os olhos arregalados. E não sei ao certo quando foi que essa nova modalidade veio predominar em meu modo de escrever. Não reclamo, porém, de exercer tal estranheza: a cada palavra, a cada sinal gráfico escrito ou digitado, sou levado ao quase sono, de onde fico à espera da palavra ou do sinal gráfico seguintes. Sim, às vezes vem uma frase inteira, abrupta, súbita. E logo entro outra vez em um desligamento do mundo, um distanciamento do mundo, até que outro trecho apareça: outra frase ou uma simplória vírgula em outro lugar da frase anterior.
Isto poderia ser a abertura ou o preâmbulo de um conto ou de uma novela ou de um ensaio em promiscuidade com a ficção ou a poesia. Prevalecem confissões como esta na avenida considerada principal da literatura contemporânea. Essas confissões do "eu escrevente", o eu posto em um pedestal para ser adorado como um bezerro de ouro. O eu sacrificial que se imola para o mercado em tons e sons melífluos, pueris. A saga do eu como um pudim de baunilha a tremular sobre a mesa do banquete mercadológico das narrativas rasas e efêmeras.


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