[BARRIL DE PARAFUSOS]
[torciam os narizes, altivos, com a soberba dos narizes de cera, mas, às escondidas, liam com prazer e gozo o que tanto desprezavam.]
[ó vós que entrais, tudo aqui é ficção.]
[foi um desastre, literalmente um desastre, o meu encontro com o editor da poderosa magallón press às seis da tarde de ontem em lacraia beach. mister loures tenka, ao atravessar a rua para receber os originais do meu romance, não viu o caminhão de lixo.]
["deveras que é bonito o espetáculo desses voos que a gente não vê, só intui, só deduz, assim com o olho carente e aflito de ver, mas com o ouvido satisfeito com tais farfalhantes presenças." antero das folhas, sozinho, em voz alta só para ele.]
[e aquele inglês que escrevia o poema e logo usava o papel para fazer um cigarro, e baforava aos ares o poema já morto em espirais, uma espécie de queima letral, queima textual, o que chamaríamos hoje de deletar com incêndio?]
[escrever, apagar. postar, deletar. louvor às rasuras como marcas do que foi escrito e já não existe mais.]
[o detetive ia pela estrada junto com o mágico. viram na terra uma pedra. o detetive girou a pedra entre os dedos e desconfiou que o vermelho em um dos cantos era sangue. o mágico também a examinou. sorriu. e guardou a pedra no bolso do colete.]
[o livro de cem anos diz ao livro de um dia: "seja bem-vindo, a estante é para todos".]
["presumo que o senhor deseja um autógrafo, não é?", perguntou o contista lúdimo garvan. "sim, mas pode ser um autógrafo de mentira", respondeu o leitor das olheiras azuis.]
[a velha árvore não suportou tantos carreiristas literários em disputa pelas mais altíssimas grimpas de suas copas. desabou-se.]
[primeira pílula: um parágrafo sombrio. segunda pílula: ruído de papel rasgado.]
[toda a cena aconteceu em uma rapidez impressionante. ela chegou, torceu o pescoço dele, riu muito alto mostrando as obturações já escuras nos molares, elevou o dedo médio para aqueles jogadores de cartas tão idiotas quanto cretinos, virou a esquina e sumiu.]
[eram doze pequenos pacotes amarrados com barbante. havia neles de tudo: versos copiados, palavras soltas, frases incompletas, garranchos e garatujas. no quintal, ele fez o fogo. e cada pacote, tal como se dá um tiro bem dado em um alvo, foi atirado no coração da fogueira.]
[quase ninguém sabe deles. quase ninguém os lê. eles escrevem, no entanto. escrevem como se fosse o último dia. o último dia de tudo e de todas as coisas. contam o que ninguém antes contou. e sabem que as suas vidas não valem um centavo.]
["veja, a noite já está quase ali na esquina. que as vozes então fiquem mais baixas, e que os cálices fiquem mais cheios." senhor glous em conversa com o senhor glis.]
["só leio histórias que não são escritas deste jeito", disse o pássaro das quatro horas.]
["é a linguagem que constrói o ovo", disse o pássaro das nove horas.]
["se você falar ou escrever a palavra incontornável, eu solto os javalis", disse o senhor glis.]
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