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4.10.26

[AQUELE CONTO QUE O GATO ROUBOU DO LIXO DE CORTÁZAR]



[um  mosquito. aparentemente morto. um bilhete. só uma palavra: "adeus". um ovo. colheres. cinco colheres. chaves. mais chaves. ferrugem. outro bilhete. só duas palavras: "muito quebrado". dois pães. e nada mais.] 

[a janela dá para a cidade. nuvens. ninguém na avenida.]  

[um  caderno. há  marca de sangue no canto superior esquerdo. uma xícara. um volume de poemas ingleses. cartão-postal: londres. outro cartal-postal: porto de buenos aires. marcas de dedo no vidro. a bailarina. a bailarina sentada na cadeira de vime. e nada mais.]  

[a janela dá para a cidade. só nuvens. dois homens na avenida]  

[um xale. um cachecol. um revólver ao  lado de um frasco de perfume. sirenes. richard  wagner, as valquírias, baixo, baixo, baixinho. só a bailarina ouve wagner. o  professor. a porta. o professor junto à porta. o professor. seu casaco. o livro do professor posto ao lado do revólver ao lado do frasco de perfume. a bailarina: modorra. e nada mais.]  

[a janela dá para a cidade. nuvens, nuvens, nuvens. avenida deserta.]  

[dois  dias  depois. anotações ao lado do revólver ao lado do frasco de perfume. única palavra legível: "adeus". a bailarina no alto do  teto, asas  abertas, revoos  pela  sala. o  professor rasteja. a  pele  é áspera, de crocodilo. rabo descomunal do professor-crocodilo que desliza pela sala. a bailarina voa. o professor-crocodilo rasteja. e nada mais.]  

[a  janela dá para a cidade. céu sem nuvens. as famílias vão ao circo.]