VISUALIZAÇÕES DE PÁGINA

9.12.25

[OS SABERES E OS DESSABERES]

[ainda há pouco eu sabia, 
mas o saber esvaiu-se, areia 
na peneira, matéria
não mais apanhável, toda ao chão
como se fungo, lodo, 
água ferruginosa.

ainda há pouco eu sabia, 
eu disse, e repito, sabia, 
mas o saber que eu sabia 
em vapor se fez, um outro saber, 
frágil, lerdo, manco,
logo esse novo saber 
apontou ali onde os saberes

fazem morada, um novo saber 
qual estranho, qual bicho 
sem nome. 
tive de aceitá-lo,
a um saber não se dá a recusa, 
ele vem,
puxamos a cadeira, 
deixamos que seja

novo conviva. olá, eu digo, 
solto verbos amigáveis, 
sirvo-lhe o cálice, sirvo-lhe a prosa
de uma frase sinuosa 
das que honram 
as amizades, 
isto até que o destino dos saberes

outra vez, em reprise, outra vez 
o destino leve o visitante, 
mais um dia passa, outro ano, 
outros saberes chegarão, 
e outra vez
vão ceder o lugar 
para novos saberes chegantes.]

4.12.25

[O BARCO E O LIVRO DOS PRESSÁGIOS]

[o livro dos presságios, 
aberto em dia errado, anunciava 
o barco para a tarde, a horas tantas, 
entre o dia e a noite, e seria 
um barco iluminado, 
traria tochas na proa, e ele 
embicaria porto adentro, dois
 
marinheiros o conduziriam ao cais, 
ambos cegos, joão 
era o nome de um, jarbas 
era o nome de outro, 
e as cordas e os cordames, 
os nós e os laços dos velames 
penderiam do mastro, 
no convés o resto de peixes, 
a tinta azul que grafava o casco,
 
"ilusões invictas" 
era o nome desse barco 
anunciado para a tarde, 
isto conforme o livro 
dos presságios, livro 
aberto em dia errado, 
pois previa para hoje 
o que de fato seria ontem, 

equívocos de mãos 
no desgoverno de um lapso, 
mas eis que a tarde 
apagava luzes, mas eis 
que a noite abria as portas 
para novo expediente, 
mas eis que a roda 
dos calendários girou 
com o súbito de um vento, 
mas eis que a barra 
tingia-se de um fogo, 

e então viu-se o clarão 
das tochas na proa, 
joão e jarbas acenaram 
suas mãos de sal, 
e o barco de hoje, que era 
o de ontem, entrou no porto.]