26.1.26

[DECÁLOGO PARA A ARTE DO CONTO, EM DIÁLOGO COM O DECÁLOGO DE JULIO RAMÓN RIBEYRO]

1.Pode um conto não contar uma história. Mesmo assim a história estará sendo contada. Por exemplo: a história do rosto do leitor que lê um conto que não conta uma história.

2.A história em um conto pode estar na borda, no limite, na sangria: quase saindo do conto. Se o contista for esperto, a história que fica nas beiras do conto pode ganhar os olhos do leitor.

3.Quando um conto vai além do tempo que se consome para tomar meia garrafa de cerveja, calmamente, sem goles longos, muito provavelmente esse conto já não quer ser conto, embora não seja ainda uma novela.

4.Se porventura o conto possuir uma história, essa história deve ser assemelhada com os olhos de uma mulher em estado de paixão. É um redemoinho que suga, traga, puxa, consome irremediavelmente os olhos do leitor. Se nada disso ocorrer, é bem capaz que o conto e a história que porventura possuir o conto sejam nada mais que uma pedra de gelo, em derretimento.

5.A partitura por onde navega o conto deve ser hábil como a música de um cavaquinho, entremeando rapidez e lentidão. E se o contista tiver habilidade de sobra fará do cavaquinho-conto um exercício de contraponto com um violão de sete cordas, alternando o lado de cá, agudo, com o lado de lá, grave. Um leitor com um conto assim diante dos olhos será um leitor feliz.

6.Talvez a maior virtude de um conto seja enroscar-se como uma enguia no pescoço do leitor, sem que ele perceba. Só ao chegar à última linha, o leitor sentirá o sufoco, o ar que ele respira será faltante, a vista estará turva, pois uma emoção sem limites tomou de assalto esse instante de comunhão extrema.

7.Assim como a profusão de rostos numa multidão, essa sinfonia dos diferentes, também são profusos os modos para se escrever um conto. Uma única palavra põe fogo no rastilho, ou uma frase única, serpenteante, interminável, com a limpidez de água de fonte ou com atmosfera da travessia de um pântano em noite sem lua. Os modos de se achegar ao conto não podem ser enumerados, por sua abundância.

8.Um conto pode ter personagens. Ou não. Ou pode ser constituído apenas pela música de uma sentença que se espirala, enlaça, amarra ou desata um conflito, por exemplo, entre a sombra e a luz, entre o relâmpago e a vidraça de um quarto desabitado.

9.A função do conto é dar vida ao minúsculo, ao pequeno, ao imperceptível. O que pode tanto ser o farelo ou o cisco sobre mesa matinal ou a aura sem expressão de um pobre homem sem rumo, pelas ruas de uma cidade. Ao cantar as minudências, ao apanhar em sua teia o inseto errante, o conto atinge o magnífico, o grandioso.

10.Um conto, muitas vezes, por inabilidade do contista, conclui a sua jornada com um pretenso ponto definitivo, e quase sempre falha nessa estratégia, pois vã é a ideia de conclusão. Não sem motivo, a grandeza de um conto é a súbita imobilidade da mão do maestro, suspensa no ar, propondo ao leitor o benefício do inacabado.


24.1.26

[A VAZIEZ DO ESPANTALHO]

[tudo está vazio:
sua boca, sua cabeça, 
sua sombra.

seu discurso está vazio.
bacia sem nada, peneira 
ao vento.

tudo está vazio:
seu grito, seu rumor, 
seu murmúrio.

sua aorta está vazia. 

sua horta, 
sua praga.

tudo está vazio.

o livro que você lê 
está vazio.

letreiros da imensa avenida, 
edifícios 
da grande cidade.

tudo está vazio.

seu lápis não tem grafite, 
sua caneta 
não tem tinta.

tudo está vazio.

seu corpo no palco, 
seu enchimento-espantalho, 
seu gesto 
performático.

tudo está vazio.

seus dedos, seu teclado, 
sua memória.

seu chip está vazio.
 
sua vaidade, 
seu sucesso, sua bolsa 
de valores.

tudo está vazio.

seu monólogo em rede, 
seu seguidor 
e seu seguido.

tudo está vazio.

sua metáfora, sua curva 
figurativa, 
suas volutas significantes.

tudo está vazio.

mas o poema, rebelde, 
nega o ato 
benevolente,
nega a genuflexão 
submissa, 
o poema, sol a pino, 
cruza veloz
seu olho de poema pelo raio 
da janela-bruma.]

22.1.26

[METODOLOGIA PARA ERIÇAMENTO DE FRASES]

[... ela disse: "narciso não tem lápis, e os rostos não escrevem".]

[... ela disse: "a poesia começa quando apodrece o andor das santidades".]

[...eles disseram: "fazia bem à cidade e à sua paisagem encontrar-se de repente, subitamente, com o escritor wander piroli".]

[... ela dizia: "a exuberância da secura, como naquelas frases curtas do luiz vilela".]

[... ele disse: " se me restarem forças, ainda escreverei uma história sobre o opala azul do escritor oswaldo frança jr.".]

[... ele dizia: "os temas amenos são graciosidades próprias para os livros de culinária".]

[... ela dizia: "se é para escrever, que seja a dente, a unha, a cru".]

[... ele disse: "sem formas desesperadas todo conteúdo é bibelô de penteadeira".]

[... ele dizia: "eram bitelas jabuticabas e bitelos olhos de meninos na cerca, prontos para o assalto e o banquete".]

[... ele disse: "e então, naquela manhã, surgiu murilo rubião na paisagem, com sacola de mercado e os lentos passos dentro de tênis azuis".]

[... ele dizia: "tarde, muito tarde, descobri que aquele poeta alto e magro, em dissipação na paisagem, não era emílio moura."]

[... ela disse: "é claro que o texto foi lido, e se nada disseram ou nada dizem é porque a moita é o mais confortável lugar da não-fala".]

[... ela disse: "somos todos postes que falam ininteligíveis monólogos nos ouvidos de outros postes".]

[... ele disse: "a interlocução foi esfarelada".]

[... ela dizia: "que triste a tal poesia que se quer unânime".]

[... ela dizia: "o réptil, sub-reptício, sem rumor e sem ruído, comete a fraude da falsa camuflagem".]

[... ele dizia: "é admirável a arte de não ser visto na multidão".]

[... ele dizia: "não há prazer algum em fazer o que todos fazem, o verbo fazer deve sempre ser verbo desbravador".]

[... ela dizia: "alguma coisa se movimenta no mundo quando ocorre um ato de desobediência".]

[... ela dizia: "literatura não é enturmação, é sempre dissidência".]

[... ela dizia: "escrever é dependurar palavras em varais ao tempo. quem passa lê. ou não lê".]

[... ele disse: "desobedecer é o verbo mais importante de uma língua".]

[... ela disse: "o caracol também poderia se chamar walter. por entre folhas, gravetos, ciscos, tinha também o seu livro das passagens".]

[... ela dizia: "aquelas chuvas oblíquas, aqueles ventos em curva, aqueles homenzinhos de cachecol em suas esquinas fantasmas".]

[... ela disse: "tantos lápis, tantos cadernos, e todas essas palavras em greve de fome".]

[... ele disse: "a província e os provincianos sempre ensinam que o sujeito deve cultuar a baixa autoestima".]

[... ela disse: "os intuitivos e os autodidatas foram banidos da tribo".]

[... ele disse: "leem os mesmos autores, comentam os mesmos livros, frequentam os mesmos lugares e olham para a mesma direção".]

[... ele disse, e ali eram os arrabaldes, ali onde as reminiscências de tangos velhos: "o país fodeu-se".]

[... ela dizia: "se há felicidade, talvez ela esteja no convívio com os bichos, esses mesmos que dão importância até na queda de uma folha seca".]

17.1.26

[DOSES DIÁRIAS DE INFÂNCIA]

[Ele automedicou-se com duas doses diárias de infância para que a velhice não ficasse à beira da estrada com cara de abandono e fastio. 

Essas doses diárias de infância eram escolhidas aleatoriamente no frasco maior da meninice, ali onde cabiam eventos espetaculares do tempo em que as coisas nasciam, coisas inaugurantes e inauguradas. 

Coisas que eclodiam.

Ele acreditava com fervor nos poderes benéficos dessa estranha terapêutica. E ao contrário de outras medicações, sem qualquer temor a riscos ele cedia o corpo aos efeitos colaterais sobre os quais cultivava suprema ignorância. 

Não havia bula. Não se conheciam os processos químicos ou fitoterápicos que davam origem a essas doses. Ele apenas abria o frasco maior da meninice e sorvia o que prescrevera.

Sentiu-se bem. 

Não sentiu-se novo porque não era este o propósito do que decidira quando viu à beira da estrada caras de abandono e fastio. Aquele enfado cheio de pontas. Aquele enfado coberto pelo limo. 

Apenas sentiu-se bem, como se uma alegria esvoaçante, de asas vivazes e ágeis, tocasse diariamente a sua porta. 

Recebia essa visitante. Oferecia-lhe a sala. Deixava que essa alegria alada pousasse no escritório ao lado de caixinhas de madrepérola, minúsculas latas, objetos dispostos em uma gramática lúdica.

A infância, por obra e graça da prescrição diária, então renascia nesses labirintos de objetos que a idade foi acumulando entre cadernos, livros, lápis, retratos, flâmulas e recortes. 

Retornavam folguedos, travessuras, espantos, cheiro de terra.

E uma vontade desmesurada de música passou a predominar em seus dias. Tanto que, muitas vezes, sob os olhares interrogantes da família, ele cantarolava feito um doidinho manso.]

4.1.26

[O FIO E O TIGRE AZUL]

[era só um fio. 
começava na ponta
leste e vinha como se serpente
até a ponta oeste e prosseguia
mais e mais como se desejasse
não ter fim jamais. 
era só um fio

na paisagem que a cidade 
expunha ao ocaso, luzes 
trêmulas de postes
como se fantasmas, mulheres 
que puxavam os filhos aos seios
para protegê-los 
do tigre azul.

o fio único desafiava 
os tratados de filosofia, 
os estudos de ciência,
ameaçava as deidades e divindades,
era um fio 
que começava na ponta
leste e vinha como se serpente 

até a ponta oeste, e prosseguia, 
mais e mais ele prosseguia, 
um fio desejante 
de não ter jamais um fim
atravessava a cidade 
em seu ocaso triste, 
de mulheres tristes, com filhos
tristes, em pânico 
com o tigre azul.]

27.12.25

[ELA DISSE; ELE DISSE]

[ele disse: "é aconselhável, em dias de chuva contínua e constante, invocar o chá, a sopa, as pantufas, o caderno aberto em folha vazia, o merlot encorpado, o silêncio dos bichos, as associações lunáticas de uma coisa dentro de outra coisa, o boné ou a boina, certas palavras úmidas que brotam enquanto a poltrona viaja com você a bordo".]

***

[ele disse: "se ao texto é preciso adicionar uma foto para que seja visto ou lido, então é um texto que, na origem, já se rendeu ao fracasso".]

***

[ele disse: "é preciso estar atento ao lugar de quem emite juízos sobre a qualidade literária de um livro. é o lugar do esteta ou do pateta? é o lugar do editor-mercador? é o lugar do gestor-promotor? é o lugar do amigo-comparsa? é o lugar do mero bajulador? é o lugar do resenhista-resenhador? quem fala, e o lugar de onde fala: eis onde estão as ciladas construídas para o desavisado leitor".]

***

[ele disse: "admiro a palavra almofariz pelo que ela exibe sílaba a sílaba, evocações de uma raiz longínqua, enunciações de uma noite árabe. mas igualmente eu a admiro pelo que ela contém enquanto utensílio, lá onde podem ser maceradas as ervas e as especiarias, conteúdo de misturações secretas, isto que, nas palavras, dá-se o nome de imagem-âmbar".]

***

[ele disse: "amiúde penso em coisas muito desajeitadas para os dias de hoje. por exemplo: o que deixa uma palavra no leitor assim que é lida. refiro-me, por exemplo, à palavra cavalo. quando lida, e vista, pois ler é também uma forma de olhar, o que a palavra cavalo deixa no leitor? deixa crinas ao vento, cascos sobre pedregulhos, o galope em desgoverno para um rumo desconhecido? ou a palavra cavalo deixa no leitor uma cena de quietude? o cavalo quieto, à noite, noite sem lua, noite sem vento, o cavalo ali, a um canto do pasto, a cabeça baixa, os olhos sonolentos, as bandas das crinas caídas ao longo da tábua do pescoço, o focinho pendente, as ventas apaziguadas, os olhos como se refletissem sobre assuntos que jamais saberemos".]

***

[ele disse: "se ao texto é preciso adicionar uma foto para que seja visto ou lido, então é um texto que, na origem, já se rendeu ao fracasso".]

***

[ele disse: “coitada da leitura, e mesmo da literatura, com a militância do bom mocismo carola”.]

***

[ele disse: “uma frase ou dito aos modos de clarice já é o bastante para fazer de um texto um pavão com os seus penachos. e uma frase solta retirada de rosa é o bastante para fazer do citador um pavoneante filósofo”.]

***

[ele disse: “grande parte da poesia hoje publicada não passa de arroz que gruda, de doce que desanda, de bolo que sola, de pipoca que não pula”.]

***

[ele disse: "anuncio ao mundo que acabei de arrancar de mim um pedaço de palavra. não doeu".]

***


9.12.25

[OS SABERES E OS DESSABERES]

[ainda há pouco eu sabia, 
mas o saber esvaiu-se, areia 
na peneira, matéria
não mais apanhável, toda ao chão
como se fungo, lodo, 
água ferruginosa.

ainda há pouco eu sabia, 
eu disse, e repito, sabia, 
mas o saber que eu sabia 
em vapor se fez, um outro saber, 
frágil, lerdo, manco,
logo esse novo saber 
apontou ali onde os saberes

fazem morada, um novo saber 
qual estranho, qual bicho 
sem nome. 
tive de aceitá-lo,
a um saber não se dá a recusa, 
ele vem,
puxamos a cadeira, 
deixamos que seja

novo conviva. olá, eu digo, 
solto verbos amigáveis, 
sirvo-lhe o cálice, sirvo-lhe a prosa
de uma frase sinuosa 
das que honram 
as amizades, 
isto até que o destino dos saberes

outra vez, em reprise, outra vez 
o destino leve o visitante, 
mais um dia passa, outro ano, 
outros saberes chegarão, 
e outra vez
vão ceder o lugar 
para novos saberes chegantes.]