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10.8.26

[BIBLIOTECA DA PRAÇA DA LIBERDADE]


[Creio ter sido entre março/abril de 1967 que entrei pela primeira vez na Biblioteca da Praça da Liberdade (assim conhecida na época; o nome Luiz de Bessa viria depois). Com 16 anos, recém-chegado a Belo Horizonte, foi a minha primeira visita a uma biblioteca pública. Não me lembro se ali cheguei pela manhã ou à tarde, se subi a pé a João Pinheiro, a Bias Fortes ou a Bahia. Nem me lembro se usava naquele dia o uniforme do Colégio Estadual da Gameleira. A ambiência do lado de fora da biblioteca é vaga na minha memória de 75 anos. Ao contrário, é nítida, palpável, do lado de dentro: o ambiente das estantes e das mesas, e, sobretudo, a memória tátil em meu primeiro convívio com aquela fartura de livros. Sinto ainda hoje a textura das lombadas e das capas, aquela fieira de autores que seriam o meu pão dali em diante. Desses, recordo-me claramente da lombada e da capa de A Cartuxa de Parma, de Stendhal, a encadernação em sépia no meio de todos aqueles volumes de literatura francesa. E logo a estante com os russos. E logo o empréstimo inaugural, o primeiro dos empréstimos, quando pude levar para casa, no Calafate, os livros escolhidos. A partir desse encontro amoroso e inesquecível com a Biblioteca da Praça, fiz dali o meu refúgio. E devido à impossibilidade de largar as descrições que lia das estepes russas, das condições feudais dos camponeses russos, fui reprovado em uma prova crucial de matemática em um daqueles anos. Mais tarde, em 1971, quando me mudei para São Paulo, repeti esse tipo de afetuosa e apaixonada convivência com a Biblioteca Mário de Andrade. E com outras, como a Tomás Rivera, da Universidade da Califórnia em Riverside, meu esconderijo diário ali nas beiradas do deserto californiano, mas que não teve expediente em 11 de setembro de 2001, pelas razões óbvias.