27.8.26

[DE UM MANUSCRITO DE FLAUBERT]


[mas escrever é isto que destroça,
escava, cava, fura, incisa,
essas letras sob, essas letras sobre,
esses riscos, essas cunhas, o furo,
e, sim, repito, essa paisagem de destroços,
fúria de oblíquas, linhas-pêndulos,
perpendiculares em estado de rasura,
ininteligível que se lê num átimo-relâmpago,
desconforme desconforto, disforme incômodo,
um trabalho para unhas, dedos que rascam,
rasgam, essa paisagem de ruínas,
flaubert insone, prontuário de sismos,
a terra que treme, o barco que soçobra e aderna,
tudo é sobra, limalha, resíduo, detrito,
tinta e vazio, tinta e farelo, essas
migalhas de sílabas que o terremoto
esqueceu entre as fendas, escrever
então é isto, nada que lembre o texto
em pompa, texto-discurso, texto-melável
em melaço solene, escrever então é isto,
o que não se pode, o que não aguenta
ou suporta a pomba senil das harmonias.]

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