[VOCÊ AINDA ESCREVE SEM SER LIDO?]


O que faz ainda nas chamadas redes um escritor de 74 anos, à beira dos 75, e que já não é lido por quase ninguém? Não seria mais sensato recolher-se de vez ao silêncio ou fechar-se em reclusão de urso velho em seu tugúrio agora baiano? Para quê distribuir diariamente a sua voz escrita por aqui e acolá e algures, tal e qual se ainda vivesse o impulso juvenil de soltar, ao vento, textos, textículos ou textões?

Ser originário de muito longe no tempo possibilita uma visão assustadora e aterrorizante. É como se o alto-altíssimo da idade escancarasse uma visão das décadas todas vividas, uma a uma, desde a quadra adolescente de rascunhar os primeiros escritos até o momento de uma certa profissionalização que lhe tenham oferecido o jornalismo e a literatura. E, enfim, o agora do agora, quando as razões ou motivos para continuar a escrever tornam-se cada vez mais frágeis.

Há, porém, o insondável como a querer explicar o inexplicável. Nada mudou quanto à intromissão contínua de palavras e frases em seu corpo e em seu ser já velho. Tal e qual na juventude, não há um minuto em que o seu corpo e o seu ser não estejam tomados pela formação de frases, de palavras que fecundam outras palavras, de imagens que vêm à luz a partir de outras imagens. É a oficina do corpo e do ser em permanente labuta pela linguagem. 

Nesta altura dos combates, muitos e muitos amigos e companheiros de jornada já se acham ausentes. Aos poucos, o que escreveram e publicaram é esquecido. De quando em quando, uma efeméride pode acender mínima luz sobre um livro ou um acontecimento em suas vidas. Logo, o dia seguinte desfaz e dispersa as lembranças como um jorro de tinta na flor das águas. E como todos, literalmente todos escrevem nos dias que passam, o lugar dos ausentes é logo ocupado.

O frenesi das palavras e textos que desejam nascer parece incendiar o meu corpo assim que nasce o dia. Olho pela janela do quarto assim que o dia se avizinha, vindo desde a imensidão da noite, e vejo o mar de Salvador. Por um vão entre prédios, lá está o trecho de mar em que o velho Caramuru pode ter naufragado. Acolá, em outro vão entre prédios, vejo a Ilha de Itaparica e a fila iluminada de navios prontos para a entrada no porto. 

Escrevo.

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