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30.12.22

[A FLOR DA USURA]

[a amêndoa do ser não resiste
aos martelos. quebra-se fácil
tal cápsula. até os meninos,
cuja amêndoa é do tamanho

de um vaga-lume, até os velhos,
cuja amêndoa expandiu-se
com a passagem dos anos,
nenhuma amêndoa do ser

é imune aos martelos, saibam
disso para que não sejam presas
do engano, tenra é a amêndoa
que protege e guarda o ser

da aurora ao ocaso, quebra-se,
esfarela-se, parte-se em cacos
com um simples martelo, seja
o que toca a rótula dos joelhos,

seja o que desce sobre a cabeça
dos pregos, seja mesmo o que,
simbólico, está na voz da gula,
a voz que emite quem acumula,

esses impérios do verbo ter
que a humana gente cultua:
bezerro do mais, flor da usura,
o mais com aparência divina.]

6.12.22

[QUASE NOITE. COM FRANCIS PONGE]

[é quase noite. e as pitangas 
tingem o leite que o céu derrama
a oeste, ali onde a estrela temporã
logo virá declamar um poema
de francis ponge.

o vapor de cachoeira não navega
mais no mar. o jardim protege
uma ninhada de vogais. o rústico
graveto aresta a página de uma avenca
que, quase noite, logo vai declamar
um poema de francis ponge. 

é quase noite ao sul do sul, vai
agora o sol, vem a lua, e o cheiro
do óleo diesel é o próprio coração
do diabo a bater na caldeira da fábrica.
a fábrica não vai declamar
um poema de francis ponge.

o corte no olho do cão andaluz.
o banquete dos mendigos por entre
as espirais do tabaco de buñuel.
godard recorta o senso comum
com as tesouras de uma andorinha
perdida, perdida e cega, na quase noite.
a andorinha logo declamará
um poema de francis ponge.

"fracassamos", diz o homem velho
à beira de um canteiro. "fracassamos",
dizem os leitores e as leitoras do não
à beira das páginas mortas. e o gato,
gato sem nome, subnutrido, triste,
logo vai declamar 
um poema de francis ponge.]

3.12.22

[OS ESQUISITOS, COMO NÓS, À BEIRA DO DOURO]

["Nenhum de nós recorda o texto da lei que obriga a recolher folhas secas", diz Julio Cortázar ali pela página 129 de A volta ao dia em oitenta mundos, quarta edição da Siglo Veintiuno Editores, Buenos Aires, outubro de 1968. Ndalu, que é versado nesses temas um tanto em desuso, e é capaz de paradas súbitas na rua ao ter o olhar atraído para uma pedra, um besouro morto ou um papel com letrinhas manuscritas, propôs a Jorge um jogo enquanto caminhávamos pela manhã à beira do Douro. 

Vínhamos de Dublin, fizemos uma parada de dois dias no Porto, mas o nosso destino era mesmo Havana, pois ali, naquele mês de agosto, participaríamos do XX Encontro dos Livros e Personagens Inexistentes. "O jogo consiste em ativar em nós o fervor para a esquisitice", explicou Ndalu. 

Soprava do Douro um ventinho travesso e mefistofélico. Caminhávamos lentamente e descompromissados. E havia como que um ritmo frásico de lerdo e preguiçoso soneto em nossos pés. Em meu bolso, o bolso direito da camisa, palpitava uma carta que recebera do professor baiano Otto com 22 sugestões para livros e personagens inexistentes. Uma carta que, confesso, seria de utilidade imensa no encontro cubano. 

Ndalu, então, explicitou um pouco mais o jogo ativador de esquisitices, que seria uma espécie de circuito cerebral inexplorado, posto que marginal à ordem do comum e do usual naqueles dias em curso pelo mundo. Esquisitar seria o verbo maestro nesse jogo que a visão do Douro instigava, que os passos de caminhantes sem pressa estimulavam, que a perspectiva da travessia atlântica dali a dois dias motivava.

Éramos três amigos irmanados pelos livros e pelas histórias. A invenção de fábulas nos unira ao longo dos anos, e éramos capazes de engenhosas viagens, ora Bagdá, ora Minsk, ora Manaus, ora Praga, mesmo que na quietude de não sair do lugar. E jogávamos o jogo proposto por Ndalu. Lançávamos em voz alta hipotéticas concepções sobre a frase de Cortázar sobre as folhas secas. Dizíamos palíndromos às moças que passavam àquela hora da manhã, ou então tecíamos elogios aos chapéus dos senhores que, como nós, iam e vinham, à beira-Douro. As moças, sob ação palindrômica, sorriam; os senhores, com a sisudez destoante com a luz matinal, trancavam ainda mais os semblantes. 

Até que vimos, adiante, ungido por um prisma de luz, um menino. Soubemos, depois, que se tratava do Menino Recolhedor de Folhas. Virtuose no ofício, ele dispunha as folhas secas em estantes dentro de um caixote. Parecia uma biblioteca de livros sem títulos e sem personagens. Mas era coisa tão bonita de se ver que mereceu de nós saudações e vivas ecoantes-altissonantes pela manhã portuense.]

21.11.22