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[FAZIA NOITE, MAS ERA URSO]

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[fazia noite, mas era urso.  fazia  claro, mas era poço.  fazia doce, mas era vespa. fazia liso, mas era lâmpada.  ó, música sem som  da frase oblíqua. ó, mancha invisível  no mar seco. aqui vou eu: cavaleiro,  cavalo,  furo e faca  pela dobra da música.  da poesia, bani  os incensos.  da prosa, abri o capinzal na planície, soprei  dunas do deserto. aqui vou eu: camelo  e tuaregue,  adaga  e sangue, parede  e alvura  no sol de andaluzia. não venha comigo,  poeta imitante. não venha comigo,  lebre indignante. nômade, montanhoso  e litorâneo, trago  amêndoa no punho.  e componho: silêncio de john cage  dentro de um redemoinho.]

[BIBLIOTECA AURORA ARURÁ]

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Hoje farei a doação para um sebo de 300 ou 400 livros, pequena fração do acervo pessoal formado no passo a passo das décadas. A maior parte seguiu em 42 caixas há dois meses para a Biblioteca Aurora Arurá, na Bahia, minúscula, simples e graciosa edificação elevada no quintalzinho da moradia amarela de Massarandupió. Este será o último endereço desses livros que nos acompanharam em Belo Horizonte a cada mudança de casa pelos bairros Pampulha, Sion, Luxemburgo e Cruzeiro. Agora compõem a Aurora Arurá, nome que surgiu em um sonho numa madrugada de outubro de 1998, na praia de Búzios, no Rio de Janeiro, durante um diálogo imaginário  com o poeta Manoel de Barros.

[TUDO NO MUNDO QUER SER LIDO]

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[tudo quer ser lido: a flor, o parafuso, o cisco.  a paisagem quer ser lida, e a janela, o fogo, o trovão.  tudo quer ser lido e expõe sua textuaria ao mundo.  o homem que vai, a mulher que vem, o menino que atravessa a zona de sombra de um edifício: todos querem ser lidos.  escreve-se com o corpo, escreve-se com o silêncio.  e tudo isto quer ser lido.  débora, a transtornada, quer ser lida.  jader, o furioso, quer ser lido.  papéis, células lexicais na luz, geometrias vocabulares, arranjos de letras inscritas na pele: tudo quer ser lido.  o lado certo e o lado avesso do objeto querem ser lidos.  o objeto "a" quer ser lido.  as paredes rebatidas pela voz para dentro do analista querem ser lidas, e própria voz, para dentro, posto que é voz ouvinte, quer ser lida.  já não é mais só o poema, o romance, o tratado, o ensaio. tudo quer ser lido.  adolfo, o pastor, quer ser lido.  hélia, a nov...

[TUDO NO MUNDO ESCREVE]

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[tudo no mundo escreve, até o chão com as suas camadas: tijolo, tábua, ladrilho, pena, cisco, fissura, fenda, rachadura. e a planta, que achou um ninho.] [tudo no mundo escreve: e o gato observa os experimentos da escrita, folhas, ramos secos, o tronco carbonizado, pedras, o rodo velho que agora deseja o mimetismo entre as coisas do chão. quem sabe virá uma borboleta para sacramentar a escrituraria?] [tudo no mundo escreve: e a linha, suspensa, etérea, é a frase que algum anjo geômetra inscreveu e escreveu sobre o texto de pedregulhos. o mar é o muro, e a madeira encravada no chão é um mastro. há um barco à deriva no canto esquerdo inferior. talvez seja o barco da memória.] [tudo no mundo escreve: até a espera, até o quase, até a perspectiva do que o paladar avista e os olhos comem. eis o de comer em suas alquimias do milho e do trigo. o prato escreve a oferenda. a mesa sustenta as frases desse texto que se expõe ao faminto. são muitos os parágrafos nas reentrâncias desse desej...

[A POESIA E A PROSA DUELAM NA TABERNA]

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["dizem os pasquins  que somos inimigas", falou devagar a prosa, o copo  sobre a mesa, aceso o cigarro rente à testa, a voz, a voz vinha de boca narrativa. "inimigas não somos, se bem, devo dizer, em algum momento senti ganas de matá-la", disse a poesia,  com meio riso cônico e irônico,  com outro meio riso fácil de notar que era um meio riso assim entre o sério e o adusto. "ah, também tive esses impulsos assassinos", confessou a prosa, o foco dos olhos sobre as próprias mãos agora em repouso sobre a mesa,  o cigarro quase no fim,  o fôlego para as frases longas. "seus deboches sempre  foram deboches de fraqueza",  respondeu a poesia, agora com um cálice de bebida forte,  se aguardente ou absinto,  as sobrancelhas franzidas, elípticos os lábios  com palavras bélicas. "em mim você também lançou  as setas envenenadas", falou a prosa,  os braços-parágrafos prontos para uma g...

[EM SALAMANCA, A TEORIA DO LIVREIRO SIETEFUEGOS]

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Foi em uma tarde brumosa e nevoenta da cidade de Salamanca, com mais exatidão na magnífica Calle de la Compañía, que Rubem Focs ouviu do livreiro Fernán Sietefuegos uma teoria deveras curiosa sobre a origem da filosofia. Segundo tais argumentos ditos em voz grave e baixa por Sietefuegos, foram os gatos que a inventaram, oferecendo-a na bandeja para os primeiros ou primeiríssimos filósofos de que a humanidade tem notícias. "O que é isto?", "Como foi que aconteceu?", "De onde veio?" ー todos sabemos que essas perguntas os gatos amiúde fazem como um hábito entranhado em sua natureza, enquanto cheiram o ar ou escutam o inaudível, enquanto fingem dormir, mas estão em vigília praticando exegese e hermenêutica de coisas secretas. Sietefuegos, com os seus enormes sapatos em lenta caminhada pela pedraria da rua, dono de um alfarrábio ali perto, na Calle de los Libreros, respirou fundo com um certo júbilo nos olhos. Parecia feliz com a história que ouvira de quem igu...

[EM TRIESTE, NO CAFÉ MOJORES]

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[Os camarões enlatados da marca Nogalitos (para quem não os conhece, são secos, miúdos e polvilhados com especiarias picantes) ainda podem ser degustados no Café Mojores, de Trieste, o mesmo aprazível e distinto estabelecimento já centenário onde o escritor Carlo Nubs costuma receber os amigos nas tardes de quarta-feira. Ali estive, no mês passado. Levava comigo algumas edições raras de manuais de pesca. Entre eles, cito um pequeno compêndio, não propriamente sobre a arte pesqueira, mas sobre a atitude que deve ter o pescador em locais de arriscado acesso, locais pouco frequentados, locais regidos pelo acaso, já que nunca sabemos se terminamos o dia com o embornal farto ou com a paciência rota. Carlo Nubs ficou comovido ao folhear essa edição que lhe caíra em mãos, pela primeira vez, fazia uns vinte anos. Ouvi-o dizer, de cor, frases inteiras sobre a arte da paciência ali contida, especialmente ali pela página 50, onde o autor do compêndio (omito o seu nome por motivos de segurança)...