[A HORA DOS CONTOS]
["os contos noturnos devem ser escritos a sol a pino; e os contos diurnos devem presenciar a noite."]
(anthero púmere, catalão, autor de "o tigre e o lápis".)
[PRESSÁGIOS]
["para os que subiam a rua da bahia em dias ímpares, os presságios chegavam na forma de ventos curvos, quase espiralantes, e nessas horas era possível ouvir declamações chorosas de fantasmas de poetas."]
(do livro "o acadêmico que botou um ovo", de nathália sinvuelta, publicado em 1978.)
[A ESCRITA E A TOCAIA]
["escrever não difere muito de ser surpreendido pelo acaso em uma curva, em uma esquina, uma encruzilhada. no fim ou no começo de uma frase há sempre uma tocaia, uma emboscada."]
(nero luhr, húngaro, autor de "uma barca amarela no rio danúbio".)
[O SEPULTAMENTO DAS PALAVRAS]
["não me perguntem sobre o cemitério das palavras."]
(anabella douglas, canadense, autora de "se lacan fosse um chimpanzé".)
[VIGIAR ESTRADAS]
["escrevi cem livros. agora vigio estradas. vigio os carros que vêm e que vão. sou agora um escritor de miragens."]
(octavio laredo, mexicano, autor de "as alcovas flutuantes" e mais 99 novelas.)
[DAS DERROTAS]
["os derrotados, como nós, é que somos os seres da esperança."]
(personagem do romance "o maquinista", de jairo fontana domênico, paranaense, século 19)
[HOMENS-PARAFUSO]
["a primeira mudança que percebi nele foi a negação do mistério. ele disse que não havia mistério no mundo. depois ele começou a se desfazer de tudo que o motivasse ao sonho, à fantasia, ao devaneio. foi então que um dia ele apareceu na praça como se fosse um poste andante. nada nele era humano. poderia ser um guarda-chuva, um chapéu, um par de botinas. ele desistira de ser pessoa. e nem tristeza ele despertava em nós. era como se olhássemos para uma pedra."]
[trecho do monólogo da personagem jocelyn, no romance "homens-parafuso", do grego alexis da pisídia.]
[OS SAVASSIANOS DO BAR 49]
["eles se encontravam em um bar da savassi e produziam aquilo que em um laboratório de química pode ser chamado de refugo, aquilo que será descartado, por ser inútil. eram frases e trocadilhos pela noite adentro, como se fossem ventríloquos ou marionetes de alguma entidade malévola. tudo o que falavam era ornado pela crosta do fel e do veneno. eram filhos daquelas famílias governamentais de minas, sempre no poder, mesmo que decadentes. aliás, poder e decadência sempre andaram juntos por essas capitanias eternas. e eles, esses savassianos do bar 49, eram a prova mais irrefutável das oligarquias improdutivas, rentistas, sem-que-fazeres na vida diária, em conspiração permanente contra os que não faziam parte da parentela. parentela de sangue ou parentela de classe."]
(trecho do romance "os savassianos do bar 49", de otto centelha.)
[O CANDIDATO A PREFEITO]
["pedaço a pedaço foi construído o candidato a prefeito. puseram ventoinhas em seu cérebro, rodinhas em seus pés, maçanetas em seus costados, deram lustro em seu nariz, colocaram um gravador em sua boca. aos poucos, os construtores do candidato ligaram fios e cordames, circuitos e arames, ajustaram porcas e arrebites. fizeram-no ainda risonho como uma criança lambuzada de melaço, deram-lhe uma história, um passado glorioso e heroico, e frases de efeito para se referir ao futuro. depois, em um estandarte, levaram o candidato a prefeito para desfilar pela cidade. ele ia dentro de uma caixa em formato de cofre, com fendas recolhedoras de dinheiro, por onde cédulas e moedas, de doadores ocultos, financiavam os custos com a obra."]
(segundo parágrafo da novela "o homem oco", de marita guadalajara, ainda inédito.)
[AS MANCHAS]
["todas as casualidades marcaram encontro às 17h55. o saloon ainda estava quase deserto. só dois pistoleiros cochilavam junto à porta. o grande relógio badalou a hora do encontro. esperamos um, dois minutos, dez minutos. as casualidades não compareceram."]
(quarto parágrafo de "as manchas de sangue no paletó do palhaço", de urbino volnius, pseudônimo do pernambucano farah mostero.)
[SUSPIROS]
["dez da noite. a marquesa pôs a dentadura dentro do copo e sonhou com o príncipe da dinamarca."]
(página 18 de "a revolução das panquecas", de balthazara alepo, argentina, século 19.)
[ORA, BOLAS]
["levantar acampamento! levantar acampamento!"]
(grito de desespero do personagem astolfo no romance "ora, bolas", do uruguaio tito mederti, publicado em belo horizonte no ano de 1946.)
