[A VAZIEZ DO ESPANTALHO]

[tudo está vazio:
sua boca, sua cabeça, 
sua sombra.

seu discurso está vazio.
bacia sem nada, peneira 
ao vento.

tudo está vazio:
seu grito, seu rumor, 
seu murmúrio.

sua aorta está vazia. 

sua horta, 
sua praga.

tudo está vazio.

o livro que você lê 
está vazio.

letreiros da imensa avenida, 
edifícios 
da grande cidade.

tudo está vazio.

seu lápis não tem grafite, 
sua caneta 
não tem tinta.

tudo está vazio.

seu corpo no palco, 
seu enchimento-espantalho, 
seu gesto 
performático.

tudo está vazio.

seus dedos, seu teclado, 
sua memória.

seu chip está vazio.
 
sua vaidade, 
seu sucesso, sua bolsa 
de valores.

tudo está vazio.

seu monólogo em rede, 
seu seguidor 
e seu seguido.

tudo está vazio.

sua metáfora, sua curva 
figurativa, 
suas volutas significantes.

tudo está vazio.

mas o poema, rebelde, 
nega o ato 
benevolente,
nega a genuflexão 
submissa, 
o poema, sol a pino, 
cruza veloz
seu olho de poema pelo raio 
da janela-bruma.]

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