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Correio Do Autor

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sexta-feira

[JUAN RULFO, GRACILIANO RAMOS]

[veio de manhã o juan rulfo para o encontro com graciliano ramos.]

[rulfo saiu de dentro de pedro páramo e graciliano saiu de dentro de vidas secas.]

[o deserto das palavras tinha pedras no meio das frases.]

[o deserto das palavras tinha oásis no meio das frases.]

[de cá, em belo horizonte, junto com quixote e kafka, vigiamos rulfo e graciliano em volta das palavras arenosas, palavras destituídas de enfeites, palavras feitas com a gema das pedras.]

[palavras bonitas são aquelas que não se penteiam diante do espelho.]

[palavras bonitas são aquelas que não usam batom.]

[palavras bonitas são aquelas que trazem a gema no seu oco de infinitude.]

[palavras bonitas não precisam de brinco nas orelhas nem de verniz em suas paredes.]

[palavras bonitas são palavras-palavras, disto sabem rulfo e graciliano em volta de dois laços de conversa, de dois nós no barbante da conversa.]

[ouvir o silêncio de rulfo, ouvir o silêncio de graciliano.]

[o dia depositava mais silêncio em volta do lugar onde os dois — saídos cada um de seu livro — puseram banquinhos para enrolar uma conversa dentro da outra.]

[a conversa serpenteava pelo terreno arenoso, de pedregulhos.]

[era cascavel, era um urutu com estrela na testa de um lado e outro da paisagem.]

[lugar muito perigoso para o uso de conversas tão silenciosas.]

[mas era assim que rulfo e graciliano conversavam.]

[dava para ouvir de longe a música que as pedras faziam quando tocadas umas nas outras.]

spera nota musical de uma pedra roçada pela outra.]

[quixote escutou cincerros no pescoço de palavras-burregos.] 

[kafka escutou rabeca tocada por palavras-de-sol-a-pino.]

[nenhum desperdício.]

[nenhuma usura.]

[tudo o que rulfo e graciliano diziam era dito com a dose exata dos prumos.]

quinta-feira

[VIDRAÇA COM TRINCOS E OUTROS PEDAÇOS]

[só faltou contar que a palavra do meio era a mais enfeitiçável.]

[foi o jatobá quem me disse que frutel é o bordel das frutas.]

[hoje cedo comprei um araticum no mercado. os araticuns são frutas profanas e exalam o cheiro da primeira orgia vegetal.]

[a jornalista veio me entrevistar hoje sobre coisas estrovengas. escalafobéticas. dei desculpa de estar longe de onde estava.]

[está ficando de noite em minas. desde pequeno, gosto de imitar sombra na hora que anoitece.]

[mundo é palavra sem cabimento no embornal que eu levo no ombro. prefiro palavras cabíveis. por exemplo, cisco.]

[ele disse: "quando abrirem a minha arca, ela será tão vasta quanto a arca de fernando pessoa".]

[fazer para poucos, para uns mínimos loucos, e dar uma banana para a massa flácida de ouvidos moucos.]

[tantas vezes dá a louca no poeta. põe uma frase na cabeça e vai, de ponta a ponta, dando bom dia a cavalo, dando boa tarde ao capeta.]

["os bem-te-vis não aceitam o acordo ortográfico das sabiás." euler dos anjos.]

["os sonhos de um corrupto sempre acontecem dentro de um sonho alheio." jugger alemón.]

["de nada serviu a noite, pois o pastoreio de estrelas estava suspenso." otto das uvas.]

["gostei do modo como o seu livro fica sempre fechado na minha estante." ninno dos alaúdes.]

segunda-feira

[CINEMA DE PESSOAS, COISAS E BICHOS]

[«os livros escolhem os seus leitores», disse o velho. a lua passava por entre as árvores e o navio desaparecia na linha do horizonte. 

o vento dedilhava vogais nas venezianas. 

rumores adquiriam sonoridades mais altas e já se assemelhavam a ruídos. 

a madrugada ia a galope sem que ninguém pedisse para que ela suavizasse as passadas em ritmos mais lentos. 

«os livros escolhem os seus leitores», disse o velho. 

laranjas representavam laranjas na tela do mundo, e os cachorros continuavam cachorros apesar das metáforas desviantes. 

duas dores, da espécie de dor sem nome e sem origem, vagavam pelos largos da praça. 

dois medos, da espécie de medo indistinguível, rastejavam pelos musgos do muro. 

«os livros escolhem os seus leitores», disse o velho do lado de fora da casa, o insone velho que lançava palavras ao vazio.]

sábado

[FLOR E OUTROS CACHORROS FILÓSOFOS]

[flor costumava filosofar com a cabeça em descanso sobre as patas dianteiras, 

sei que eram filosofias, 

todos aqui no bairro acreditávamos em cachorros filósofos,

houve mesmo casos de cachorros que resolviam enigmas, 

ou então indomesticavam a tarde, 

as tardes, para esses cachorros, eram dilaceradas por setas, vetores, armadilhas, 

moças de repente cantavam, 

uns velhos, por nada, alçavam-se de suas cadeiras e vinham à esquina trazendo provérbios gregos, 

surgiam redemoinhos, 

giros de poeira e gravetos, 

as velhas rezavam, 

posto que intuíam a presença do diabo, 

tudo porque uns cachorros mais dotados de pensamento complexo faziam da tarde ora um axioma ora uma proposição desafiante, 

nem os doutos professores do lado de lá do rio solucionavam tais desafios, 

depois esses cachorros filosofantes iam para a colina e lá uivavam o seu tanto de vitória. 

flor também praticava tais simpósios.]

terça-feira

[EDMOND JABÈS: GENEROSIDADES DO SILÊNCIO]

[o que perturba sem nenhum ruído, sem 
algaravias, o livro perturbador e perturbante, 
esse livro que por ele somos perdidamente atraídos 
(são tão poucos, são contáveis nos dedos), 

esse livro que nos retira o centro e nos lança 
às espirais da própria perturbação, esse livro 
talvez não seja um livro longo, imenso, oceânico, 
mas um livro que, mesmo ao ter mil páginas, 

é um livro de pequenas cápsulas, de pequenos grãos, 
de pequenas ilhas. 

mostro a k. e a q. 
um dos livros de jabès. abrimos em conjunto 
as suas páginas. lá estão as cápsulas, as frações 

e as porções do fato perturbador e perturbante. 
o que lemos nesse livro, livro que é a multiplicação 
de tantos livros num pontilhismo de tantas ilhas 
em um mapa sem nome, nos joga às margens 

da cidade. a cidade então perde o centro, e, com ela, 
passamos a habitantes do horizonte. o horizonte 
sem margens. trazemos então edmond jabès, 
ele próprio, ao nosso convívio. dele ouvimos 

a generosidade do silêncio. nele identificamos 
o silêncio ouvinte, esse silêncio pleno de ouvidos, 
silêncio pleno de olhos, silêncio pleno de peles. 
o silêncio como uma epiderme do tempo. jabès 

então caminha conosco por essa belo horizonte 
a cada olhar inventada. também ele usa sapatos 
náuticos. também ele atravessa de um lado 
e outro as alfândegas dos gêneros.]

quinta-feira

[LITERATURA MIGRANTE]

[a falta de lugar, a ausência de lugar, o lugar que nunca mais será lugar.]

[o lugar como miragem.]

[o nomadismo migrante das gentes, as aves e os seus pousos temporários.]

[a ilusão das tribos corporativas em fincarem bandeiras em territórios já em total desaparecimento.]

[a ilusão da posse territorial desses guetos como se a posse territorial do que já não mais é território fossem a ressonância e a reverberação de seus anseios dominadores.]

[então a escritaria (a que interessa) se funda nesse movimento migrante a caminho das miragens.]

[as miragens no horizonte que é igualmente uma ilusão.]

[o horizonte é uma ilusão.]

[ecoa, profético, dos provérbios e cantares, o verso de antónio machado.]

[mas há, ainda, ilusionistas, prestidigitadores, risonhos corporativos enlaçados na politicalha dos compadrios literários.]

[os risonhos corporativos com as suas boinas, seus cachecóis.]

[e a belle indifférance.]

[são muitas as mainstreams em disputa, em litígio.]

[são muitas as mainstreams em contendas por territórios e posses dentro da mainstream-mãe.]

[então a escritaria (a que interessa) se funda nesse movimento migrante a caminho das miragens.]

[a escritaria que interessa é escritaria migrante e refugiada no caminho, o caminho sem fim da ausência de lugar.]

[toda literatura que interessa é literatura migrante, é literatura refugiada nesse não-lugar sem posses e territórios.]