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Correio Do Autor

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19.9.19

[OS SABERES E OS DESSABERES]

[ainda há pouco eu sabia, mas o saber
esvaiu-se, areia na peneira, matéria
não mais apanhável, toda ao chão
como se fungo, lodo, água ferruginosa.

ainda há pouco eu sabia, eu disse, e repito,
sabia, mas o saber que eu sabia em vapor
se fez, um outro saber, frágil, lerdo, manco,
logo esse novo saber apontou ali onde os saberes

fazem morada, um novo saber qual estranho,
qual bicho sem nome. tive de aceitá-lo,
a um saber não se dá a recusa, ele vem,
puxamos a cadeira, deixamos que seja

novo conviva. olá, eu digo, solto verbos
amigáveis, sirvo-lhe o cálice, sirvo-lhe a prosa
de uma frase sinuosa das que honram 
as amizades, isto até que o destino dos saberes

outra vez, em reprise, outra vez o destino
leve o visitante, mais um dia passa, outro ano, 
outros saberes chegarão, e outra vez
vão ceder o lugar para novos saberes chegantes.]

18.9.19

[COM FERVOR, DEDICO-ME AOS TEXTOS QUE NINGUÉM LERÁ]

[dedico-me, com fervor, 
aos textos
que ninguém lê. 
ou jamais lerá. 
passa o corvo de poe
com um penduricalho 
no pescoço.
passa um navio sem porto.
passa a imagem 
de um monstro
pelo campo mais exíguo
do olho.
chora a cantautora de tango.
é frio o fio do punhal
no dorso do monstro, 
é chuva
de ácido no espelho d´água do poço.
chuto então a esperança 
com o peito do pé descalço, 
e, com fervor e paixão,
dedico-me
aos textos que ninguém lê,
que ninguém jamais lerá.]

[LEIBNIZ E OS FILÓSOFOS DA RUA MUZAMBINHO]

[à altura do número 67 da "monadologia", leibniz escreve: "cada porção da matéria pode ser concebida como um jardim cheio de plantas e como um lago cheio de peixes. mas cada ramo de planta, cada membro de animal, cada gota de seus humores é ainda um jardim e um lago".]

[reunidos nos altos da rua muzambinho antes ainda que a manhã abrisse os seus cachos ou pendoasse as suas espigas, rubem focs, lucas baldus, severus cândido e vicente pass concordaram com o filósofo. e acrescentaram algo a mais sobre o que imaginam da porção de um poema.]

[um acréscimo que poderia ser assim resumido: cada lasca de um poema, cada fração de suas escamas, cada partícula derivante de suas migalhas, cada aclive ou declive na linha de um poema deve conter o poema inteiro, assim como a lasca do madeirame à deriva no mar contém o barco inteiro.]

["por que tantos poetas ignoram essa geometria dos pedaços?", perguntou rubem focs.]

["por que tantos poetas sovam a massa que não dá liga?", perguntou lucas baldus.]

["são demasiados os mistérios no reino das palavras", disse severus cândido.]

["a formiga que puxa o farelo do pão é conhecedora de poética", disse vicente pass.]

[e assim a manhã abriu as suas venezianas e a luz entrou. um bem-te-vi solfejou para os lados da rua ramalhete. nas vizinhanças ainda não se ouviam os alaridos do menino antônio. e um vento travesso rebateu duas vezes as campânulas de uma janela.]

17.9.19

[MIGRAÇÕES]


[migro deste odre
deste invólucro
para outro
que ainda é só 
um ovo ou larva
ou organismo
sem lugar
no vazio oco
desta página.]

16.9.19

[AS INVASORAS DA CASA-LIVRO]

[amanhece. palavras arrombam janelas,
põem abaixo paredes e portas, são intrusas
larápias, sem pés nem cabeças, eis a nau
capitânia, eis o oásis, eis a palavra grão,
a palavra adubo e a palavra açude, sótão
e pedra, cinema e vagão, água e pano,
gangues de palavras tão cedo acordadas,
o bando cangaceiro que sai do dicionário
e vem perturbar a quietude do pássaro.

─ quem são vocês? ─ eu pergunto.
─ de onde chegam? ─ eu insisto.

não respondem. um dia depois do outro,
sempre nas manhãs e sempre juntas,
ei-las que assaltam a minha casa-livro.] 

14.9.19

[DESERTAR-SE]

[desertar-se do comboio
que leva o senso, o consenso, 
desertar-se do carro-guia
com o seu aboio, desertar-se

no primeiro atalho, ir-se
pelo desvio, desertar-se
estrangeiro antes
do primeiro arroio, antes

do primeiro fio ligador
do comum com o fastio, 
desertar-se, só, na solidão
de um sol rebrilho no dorso

do seu punho, desertar-se
da ladainha unívoca de um só ritmo,
desertar-se com o livro, o branco
e nu despaginado livro, desertar-se

pela folha que encruzilha
os aforas do caminho, desertar-se
livre inominado índio,
desertar-se da tribo, seguir
o chamado do fogo.]

13.9.19

[FIGURAS DO INCONTÍVEL. OU MÍNIMA POÉTICA DO TRANSBORDAMENTO]

[as figuras do transbordamento, do vazamento.]

[as figuras da irrigação, da erupção, da irrupção.]

[as figuras do incontível, do imprisionável.]

[as figuras do que explode, do que dilata, do que expande.]

["a lava é a figura imemorial da liberdade", disse o velho.]

[as figuras da inundação, da arrebentação.]

["faz-se o poema pela eclosão de imagens", disse o velho.]

["deter é impossível", também disse o velho.]

[um homem, dois homens, três homens. as gentes. a praça. a rua. a multidão, o movimento.]

["a própria quietude é um estado de latência, é um vulcão dormido", disse outra vez o velho.]

[pelas rachaduras, pelos orifícios, pelos buracos, pelas reentrâncias, a água vaza, assim como a lágrima, assim como o grito, o léxico, a frase, o ritmo. assim como o ato.]

["o ato é a figura da potência incontrolável", disse o velho.]

["inconcebe-se o poeta que se atém a formas fixas, mármores, paralisia, entrevamento", disse o velho.]

[ingênuo é o poeta que tem o seu poema guardado em vidro de formol.]

[a figura do mundo: estilhaçamentos. o mundo quebradiço. o mundo trincado. cacos. meteoros e asteroides como se lascas de outros mundos.]

[a figura da memória: dilatamentos para trás e para adiante. a memória infinda-se.]

[o poema: porções ou cápsulas das revoluções em andamento.]

11.9.19

[ISTO É COISA DO POEMA E COISA DO PENSAMENTO]

[a dialética espiralante, 
em espirais, com a tríade 
tese, antítese e síntese 
em deslizamento 
ao redor do objeto-ideia, 
revisitação constante 
das faces do objeto-ideia, 
cada momento 
outro momento, 
cada vinco 
outro vinco, cada rasura 
outra rasura, 
cada traço 
outro traço, cada dobra 
outra dobra, 
isto é coisa do poema 
e é também coisa 
do pensamento. 

desformalizar, desformular 
e deformar cada passagem 
com a operação da tríade 
em constante movimento 
acima e abaixo, para um lado 
e outro, isto é coisa 
do poema e é também coisa 
do pensamento. 

destituir a tríade tese, 
antítese e síntese 
de sua propensão 
a criar binarismos, 
mesmo que, a contragosto
para ela, mesmo 
que um desconforto 
para a sua já viciada 
rigidez, isto é coisa 
do poema 
e é também coisa 
do pensamento.]

6.9.19

[DA SEPARAÇÃO ENTRE POEMA E POESIA]

[foto de peter turnely]
[penso na figura do poema: 
plâncton, âmbar, abelha, 
ou grãos de trigo, em pendões, 
ao vento. penso nessa figura
que nada tem com a poesia.

penso no organismo, 
no indivíduo, penso na ilha 
e não penso no continente.
penso a figura de um tufo 
de algodão que rola, deriva,
ao sopro de uma ventania.

penso na figura em minudência
ímpar, esses caroços do júbilo
e do êxtase. penso nessa figura
a que se denominou poema, já
tarde demais quando a poesia 
era já forma adiposa, teia-aranha.

penso na figura do que é menos,
penso nos engenhos da partícula,
o plâncton, o âmbar, o pólen,
e não penso na forma-em-abundância,
nos cargueiros sinistros oceânicos,
não penso na forma que é discurso.

agora é quase noite, e a poesia
é esse bolero sob o poste: lacrimosa,
pantagruélica, a gula pela gordura.

agora é quase noite, e o poema
é esse farelo de pão sobre a toalha,
nele cabe uma galáxia, tão condensável
é o átomo de sua anatomia.]

1.9.19

[AS VASILHAS E AS PESSOAS]

[as vasilhas vazias, quando nos armários guardadas, rememoram os alimentos que contiveram, reescrevem sob a tampa a orgia das combinações de cheiros. 

são décadas, anos, meses de servir à cozinha em sua função anônima de utensílio. 

nelas lá estão, no vazio, no seu interior profundo, os traços do cominho, as exalações do alho, a pompa das especiarias.

tudo fica, tudo se mantém nas paredes da vasilha: a memória do arroz ou a história da lentilha.

na vaziez da vasilha, o odor se pereniza. 

mesmo lavadas, mesmo tão limpas, assim que guardadas as vasilhas biografam a épica dos alimentos.

da saga do açafrão à saga da taioba, da lenta resignação da couve que ao óleo se entrega, posto que da vasilha nada some, nada desaparece, seu vazio é vazio prenhe, é a prenhez do memorial das coisas.

e também das gentes, pois que as pessoas não se esvaziam nunca.

destino igual têm as vasilhas e as pessoas.

nelas tudo é memória, é assombro e espanto com o que um dia viveram: nas vasilhas, sabores; nas pessoas, outras gentes.]

30.4.19

[A LETRA NÔMADE]

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[A LETRA DA NOITE]

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[PEQUENO TRATADO SOBRE AS ILUSÕES]

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[SEGUNDO CADERNO DE LETRA MOVEDIÇA]

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[FERDINANDO FLAUTA MÁGICA]

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[FERDINANDO FLAUTA MÁGICA]

"Aquela era uma fria e úmida noite de julho. A neblina escondera o Pico do Itacolomi e só a muito custo viam-se no céu, por entre a névoa, pontos minúsculos de estrelas. E como sou dado a associações de uma coisa com outra, como sou um homem que sempre liga o que muitas vezes não pode ser ligado, comparei essas estrelas do céu de Ouro Preto a certos brilhos existentes nos olhos de algumas mulheres. Mulheres prestes ao abrupto e avassalador encontro com as paixões — e eu vi mulheres assim tanto numa esquina de Estocolmo, quanto numa esquina de Trieste ou no abafado verão de uma noite moçambicana." Trecho das aventuras de Ferdinando Flauta Mágica ao encontro de uma sociedade secreta de contadores de histórias nos subterrâneos de Ouro Preto.

[A CONVERSA DOS LIVROS NA BIBLIOTECA DO MÁGICO]

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A CONVERSA DOS LIVROS NA BIBLIOTECA DO MÁGICO

[A CONVERSA DOS LIVROS NA BIBLIOTECA DO MÁGICO]

[uma rapsódia belo-horizontina]

[Belo Horizonte. Quinto andar do Edifício Maletta. Altas horas da noite, os livros da biblioteca do mágico começam a conversar, debater, polemizar, espadachins de palavras, duelantes de textos, criando balbúrdia pelas estantes até avançadas horas da madrugada. Este é o argumento principal da história de Abdias, o mágico, e de Antonino Vultos, o narrador, nessa rapsódia literária belo-horizontina.]