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Correio Do Autor

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quinta-feira

[AS INVASORAS DA CASA-LIVRO]

[amanhece. palavras arrombam janelas,
põem abaixo paredes e portas, são intrusas
larápias, sem pés nem cabeças, eis a nau
capitânia, eis o oásis, eis a palavra grão,
a palavra adubo e a palavra açude, sótão
e pedra, cinema e vagão, água e pano,
gangues de palavras tão cedo acordadas,
o bando cangaceiro que sai do dicionário
e vem perturbar a quietude do pássaro.

─ quem são vocês? ─ eu pergunto.
─ de onde chegam? ─ eu insisto.

não respondem. um dia depois do outro,
sempre nas manhãs e sempre juntas,
ei-las que assaltam a minha casa-livro.] 

quarta-feira

[A VIDA? ORA, A VIDA É BICICLETA]

[no princípio não era o verbo,
mas o pão de queijo. assim
afirmavam gozosos e pândegos 
aqueles marinheiros. 

não marinheiros de alto-mar, 
à moda de joseph conrad,
eram, sim, marujos de navegação 
em terra, ao nível do chão,
contumazes retóricos ali 
para os lados do bairro da floresta.

bastava lançar a isca de um vocábulo 
que eles puxavam o anzol das frases.
e então navegavam pelos mares 
da língua. aliteravam lua linda 
lábio luva leque lépido larápio. 
e faziam redondilhas. e litotes. 
e puxavam do bolso do paletó 
um limerique de formato irlandês
em louvor a james joyce. 

e depois, ao silêncio que vinha 
após tais simpósios, acenavam 
para quem passasse àquela hora, 
podia ser o poeta libério neves 
a caminho de santa tereza, 
podia ser o manoel lobato 
rumo à sagrada família.

e riam. riam à simples menção
de algum mineiro-paulistano, 
espécie nova de mineiro 
que vai para são paulo e põe
penacho de quatrocentos anos.

"a vida? ora, a vida é bicicleta",
dizia um deles, e de novo aliterava
porções do idioma em selvageria
orgíaca, vírgula visigodo vassalo
vórtice ventríloquo vaia vaga-lume,
tudo pelas artes da namoragem 
com a língua.]

segunda-feira

[ESTA MÃO PENSA]

[esta mão pensa.]

[abre, fecha, abre, fecha. fecha e abre. e pensa.]

[pensa quando em repouso, pensa quando dormente, pensa
quando se estende e lança seu corpo de mão no espaço.]

[pois tudo nela é corpo, cinco dedos e a palma, cinco dedos e o dorso, cinco dedos e os talhos, tantos talhos e rugas, rios e ribeiros, topografia na carne.]

[seu tremor matinal quase pássaro, a mão que voa e revoa para a xícara, para a colher ao chão, para a pelagem do gato, para a tristeza de um vazio jamais preenchível.]

[e pousa, e pega, aperta, sujiga.]

[e se fere, e fere, e busca, e acha a sua sombra ao sol de um muro ermo, a mão que pensa, e tão plena de pensar, vê-se no espelho da sombra.]

[a mão pensa nesses desvãos dos simulacros.]

[a mão pensa em seu destino de jamais descanso.]

[a mão que pensa é imemorial, é a mão das mães, mas é, igual, a mão do operário e é a mão dos amantes.]

[é a mão dos escreventes.]

[é a mão na espada e é a mão na terra, lavoura adentro, a que ama e pensa na espiga, no pendão do trigo, e depois no pão que amassa e formula a existência do pão.]

[recebo dessa mão que pensa o reconhecimento e a compaixão.]

[humilde, rendo-me ao seu poder ubíquo de estar na guerra e estar na paz.]

[rendo-me à alegria de presenciar o seu banquete, assim que espreme o sumo e faz jorrar o néctar das coisas espremíveis.]

[esta mão pensa, e o seu rito de pensar é um tributo à minha condição de homem minúsculo, propício à queda com um simples farfalho de vento.]

[E DANTE VIU BEATRIZ]

[a segunda vez que dante viu beatriz
foi em um certo dia do ano de 1283. dante,
com dezoito anos, trajava uma túnica, 
o lucco dos florentinos, e protegia 
a cabeça com o cappuccio, barrete 
que se desdobrava até os ombros.

beatriz apareceu em uma esquina, assim
conta cristiano, o martins, esse poeta
de montes claros, autor da elegia de abril,
e tradutor da divina obra ao português.

duas senhoras daquele medievo às margens
do arno ladeavam a moça só um ano
mais jovem do que dante. e num mínimo relance, 
instante beija-flor de tão súbito, de tão
átimo, quase lusco-fusco de instante, ela
pôs os verdes olhos em seu rumo, um doce
vórtice, um pêndulo, um revoo, um farfalho.

foi o bastante para que o rapaz, em transe,
fizesse vida afora, desse instante, um alimento,
percorreu nele a corrente, o rio sem paz
do amor a montante e a jusante, tanto
e tão forte, que ele dali se retirou de imediato,
foi para o quarto da casa onde vivia
com o irmão franscisco, pois já eram mortos
dona bela e o serventuário alighieri, e só,
na solidão onírica de torpor e êxtase,
dante dormiu, e sonhou, e no sonho beatriz 
trazia nas mãos um coração em rubro, em chamas.

era a segunda vez que dante via beatriz, assim
nos conta cristiano, o martins, o poeta
da elegia de abril. e agora, neste mês de maio,
eu reconto de modo tosco e esdrúxulo, invado os muros
de florença, revisito o burgo, revejo aquele incêndio
na praça, presencio a seiva em seu bruto elemento, 
dante e beatriz, liga e visgo, amálgama, 
momento e início, vita nuova, obra em ponto
de calda, posto que lhe nascia o soneto.] 

domingo

[O ANIMAL SCRIPTUS]

[sei que, entre os animais
de raridade extrema, o scriptus
tem sido ignorado pelos séculos
afora até mesmo pelos mais bondosos
cultores de bestiário. alegam ser 
ele dotado de uma sombra espessa
que impede a passagem da luz, 
a luz que lhe pudesse dar brilho,
e por conseguinte algum atrativo, 
razão de sua insignificância 
científica, ou mesmo estética, 
para não dizer poética. ou anedótica.

não chego a discordar de tal 
classificação negativa. essa sombra,
de fato, acompanha o scriptus. e mais:
assemelha-se a uma mortalha.
e ainda mais: a ausência de focinho,
as orelhas coladas à cabeça, 
a cauda sem pelos, os olhos de um cinza
lúgubre, tudo isto faz dele 
um espécime para passar despercebido.

mas como poderia ignorar o canto,
a massa de som que o scriptus reproduz
à noite, já perto da madrugada,
canto parente de um saxofone?
como não se emocionar com a forma
doce que esse canto ou cântico
ecoa, vai pelo vento, embaralha-se
nas árvores, contorna as montanhas,
ou então segue à flor das águas
de um rio ou de um lago?

abstraio-me da aparência sem atributos
do scriptus e concentro-me em sua música.
talvez as sereias tenham com ele aprendido
a arte da sedução pelo canto. talvez
os poetas, tão primitivos, roubem
do scriptus desde o princípio dos tempos
as modalidades diversas da alta poesia.]

sábado

[RELEITURAS DO NÚMERO TRÊS]

[as três linhas do haicai; a mãe
que grita ao filho "vou contar até três";
as três pessoas da santíssima trindade;
as três batidas na madeira

para que o azar caia fora, e nos deixe,
e nos abandone; as três marias 
de mãos dadas no céu das constelações;
os três operadores da dialética, posto

que tese, antítese, síntese; as três
dimensões do tempo, posto que passado,
presente, futuro; os três ângulos
do triângulo, posto que reto, agudo,

obtuso; as três classes do triângulo,
posto que equilátero, isósceles, escaleno;
a magnífica harmonia do três, sobre a qual
disse virgílio em sua exclamante

omne trinun perfectum; os três
reis magos, posto que melquior, baltasar,
gaspar; as três oferendas dos três magos,
posto que ouro, incenso, mirra; o feito

três vezes feito, posto que na lei judia
isto quer dizer permanente; o elo
do um com o dois, posto que na cabala
o três é paz e integração; o prisma

da luz em três cores primárias, posto
que azul, amarelo e vermelho; os três
pontos da assinatura maçônica; as três
matérias do trívio medieval, posto

que gramática, lógica, retórica; os três
estágios da visão aristotélica, posto
que princípio, meio, fim; o triplo
de três que me coube, posto que a casa

traz no frontão o número 333; as três
folhas do trevo, posto que acaso, posto
que sorte nos ermos do jardim; o três 
da flor-de-lis, formada pelas gotas 

do leite de hera; os três mosqueteiros
de dumas; o três não nomeado, não dito
pelos ianomâmis, imencionável numérico; ou
o três argolante-enlaçante do nó borromeu.]

sexta-feira

[PARA SALVAR A EXUBERÂNCIA]

[era preciso salvar a exuberância de certos martírios que lhe vitimavam e entristeciam.] 

[a exuberância: da pedra, do mar, do cesto ao sol, do peixe, do camelo na solidão do deserto, da mulher que nutria o espanto diante da janela matinal.] 

[os martírios que vitimavam a exuberância eram, por exemplo, os ventos cruzados.] 

[os ventos que trazem em seu interior revolutivo o desnorteio, a incongruência de rumos, o escoiceamento dos potros.] 

[ao descerem sobre a exuberância, esses ventos cruzados submetiam a exuberância ao martírio de fenecer e murchar.] 

[por isso, era preciso salvar a exuberância.] 

[então os velhos se reuniam à tarde e emitiam palavras redondas para anteparo à ação dos ventos cruzados sobre a exuberância.] 

[os velhos eram muito velhos.] 

[aquelas mãos já quase adobe.] 

[aqueles olhos já minerais.] 

[e aquela calma dos grandes guerreiros sem armas e sem ódios.] 

[era quase um tratado sobre o equilíbrio do mundo.] 

[era quase um louvor aos engenhos da paciência.] 

[tudo para salvar a exuberância dos martírios que lhe vitimavam e entristeciam.]

terça-feira

[O VIADUTO]

[ah, o viaduto. tão louco.
tão feito de riscos
com os seus arcos
de equilibrar drummond
e nava, sabino, pellegrino,
paulo e otto, quanto fascínio
pela vertigem sobre o vão-
abismo do trem que vem
e vai, que ia e vinha, o trem
sem rumo da belo-horizontina
miragem, belo-horizontina
paisagem, linda e tão boba.]

[TRATADO DAS REPRESENTAÇÕES]

[o velho disse: “assim que a representação deixa a coisa representada, como se figura levitante, corpo que sai do corpo,


chegam os ventos da reviravolta, os ventos do redemoinho,


e o que era representado, espelho passivo, espelho sem vida, logo se estilhaça, são as constelações rebeldes, galáxias sem fim ou começo,


e a escritura,


ave poedeira, faz eclodir os ovos das desavenças do sentido, ai então da retórica, ai do beletrismo, ai do burocrático olhar


que não enxerga, ai do olho quando em sua pobreza analógica, posto que o poema, motim incessante, navio em chamas, vem sempre anunciar


a inconveniência, o desconforto: o que é se esconde, o que é escondido se mostra.]

domingo

[TUDO NO MUNDO ESCREVE]

[tudo no mundo escreve, até o chão com as suas camadas: tijolo, tábua, ladrilho, pena, cisco, fissura, fenda, rachadura. e a planta, que achou um ninho.]

[tudo no mundo escreve: e o gato observa os experimentos da escrita, folhas, ramos secos, o tronco carbonizado, pedras, o rodo velho que agora deseja o mimetismo entre as coisas do chão. quem sabe virá uma borboleta para sacramentar a escrituraria?]

[tudo no mundo escreve: e a linha, suspensa, etérea, é a frase que algum anjo geômetra inscreveu e escreveu sobre o texto de pedregulhos. o mar é o muro, e a madeira encravada no chão é um mastro. há um barco à deriva no canto esquerdo inferior. talvez seja o barco da memória.]

[tudo no mundo escreve: até a espera, até o quase, até a perspectiva do que o paladar avista e os olhos comem. eis o de comer em suas alquimias do milho e do trigo. o prato escreve a oferenda. a mesa sustenta as frases desse texto que se expõe ao faminto. são muitos os parágrafos nas reentrâncias desse desejo tempestuoso. escreve-se para morder, mordiscar, para prenhar a boca, até que o ato de escrever seja o abismo do que foi comido.]

[tudo no mundo escreve: os visitantes não chegaram, mas a sua ausência não se consuma. os presentes, altivos, já escreveram a ode aos seus futuros donos. talvez hoje, talvez amanhã, em algum dia, quem sabe, os visitantes chegarão. pode ser que um deles traga o vinho, pode ser que um deles ainda sofra a melancolia do inexplicável. mas tudo no mundo escreve, e a escrita do destino já foi lançada ao tapete-livro, ali onde a gata, em palimpsesto, vigia os textos antigos e superpostos.]

[tudo no mundo escreve: aonde vai agora este peregrino? cessaram as chuvas, que, costumeiras, vinham dizer o sim da vida, o sim das alegrias. e agora é o tempo das caravanas no deserto. o peregrino escreve o caminho-de-ir tão a esmo, tão sem rumo. a linha que vai para leste, a linha que vai para oeste, nada parece dar ao peregrino a bússola para o acerto com os encontros. o chão é árido, o chão é infértil. e as árvores recolheram as sementes.]

[tudo no mundo escreve: é ilusão a ideia dos textos concluídos. em condição de mastros, os postes dizem aos marujos da inconclusão navegante. em condição de barcaça, a cidade dobra páginas sobre páginas no oceano revolto dos homens e das mulheres que chegam para a noite. a noite se aproxima lenta, mas inexorável. a noite vai cindir o céu em dois volumes de luz agônica. é a cidade que escreve as letras secretas que logo se apagarão em desmemória e amnésia. talvez um louco venha e proclame a inconclusão dos textos.]

[tudo no mundo escreve: é engano crer nos predomínios da mão e do lápis. a luz, com o seu abecedário, exibe-se por trás da mandala. há uma dança pela convergência. há estilhaços diamantados na beleza em sofrência das árvores, tão bonitas de dar pena. é uma gramática que concebe o texto para a leitura total, uma radicalidade do escrito entre galhos e folhas. a mão deve ser humilde. o lápis deve se abaixar à posição dos andarilhos descalços.]

[tudo no mundo escreve, e disseram aos homens que a quietude deveria ser abolida. o rito da permanência, o olhar avarandado, a sombra dos caramanchões, as lentidões, isto deveria ser abolido. e a rua, tal a prova de um revisor que lacera a página com bisturis e estiletes, deveria agora exibir o texto dos tumultos. vocábulos cortados ao meio iam por essa rua ferida de morte. carros e motoristas crucificavam os andarilhos e os expulsavam para o gueto onde já se achavam encerradas as árvores. e, mesmo indigesta, a elegia que agora ocupava a rua do começo ao fim deveria ser lida. até as buzinas, emissoras de metonímias enlouquecidas, imploravam por leitura.]

[tudo no mundo escreve: o vaso ao lado de rilke diz que a secura floresce o oposto do verde. estranha retórica tem o que é seco. poucos se dão ao estudo de tal discurso. o vaso, ao exibir a secura desses ramos, parece nos lembrar de um outro texto não compatível com o verdor feérico da vegetabilidade. há muito o que aprender com essa ramagem quase impertinente por sua condição desértica. mas rilke, absorto, distante, apenas se deixa posar ao lado do vaso. dois elementos da composição postos lado a lado para que sejamos lembrados da impertinência do seco. o vaso escreve tratados arenosos. os ramos cantam música de adagas. talvez o inverno tenha sido forte demais para esse texto-vaso, e o outono não o tenha tornado ainda maduro para a água da leitura.]

[tudo no mundo escreve: "quem vem lá?", pergunta o anjo torto com o seu lápis. "ninguém", a voz responde, a voz que vai pelo viaduto tal aedo que leva às gentes as palavras ainda ágrafas, palavras ainda destituídas do verbo ser. sabe-se que são deveras perigosas as palavras ainda destituídas do verbo ser. são palavras que não podem dizer: "eu sou". elas só dizem: "ninguém, ninguém". impossível anotá-las em cadernos, como bem sabe o anjo torto com o seu lápis à entrada do viaduto, junto às volutas, às balaustradas, às lanternas. "como escrevê-las, então, se elas usam a cisão entre sujeito e verbo como forma de fingimento?", isto é o que pergunta o anjo torto com o seu lápis. mas ninguém responde.]

quinta-feira

[NOTAÇÕES PARA UM TRATADO ORGÍACO DA POESIA BRASILEIRA]

[a linha evolutiva da poesia brasileira. 
a linha involutiva da poesia brasileira. 
a linha cortada da poesia brasileira. 
a linha sinuosa da poesia brasileira. 
a linha frouxa da poesia brasileira. 
a linha tesa da poesia brasileira. 
a linha inexistente da poesia brasileira. 
a linha falsária da poesia brasileira. 
a linha dondoca da poesia brasileira. 
a linha socialite da poesia brasileira. 
a linha carola da poesia brasileira. 
a linha de pai para filho da poesia brasileira.
a linha complacente da poesia brasileira. 
a linha hipócrita da poesia brasileira. 
a linha comparsa da poesia brasileira. 
a linha arrebentada da poesia brasileira. 
a linha pueril da poesia brasileira. 
a linha instagram da poesia brasileira.
a linha lânguida da poesia brasileira. 
a linha lustrosa da poesia brasileira. 
a linha perfumada da poesia brasileira. 
a linha higiênica da poesia brasileira. 
a linha separatista da poesia brasileira. 
a linha em cizânia da poesia brasileira. 
a linha desbocada da poesia brasileira. 
a linha sem rumo da poesia brasileira. 
a linha acadêmica da poesia brasileira. 
a linha gerundial da poesia brasileira.
a linha escrita criativa da poesia brasileira.
a linha faculdade de letras da poesia brasileira.
a linha guerrilheira da poesia brasileira. 
a linha anacrônica da poesia brasileira. 
a linha sincrônica da poesia brasileira. 
a linha selfie da poesia brasileira.
a linha demente da poesia brasileira.
a linha senil da poesia brasileira.
a linha nobiliárquica da poesia brasileira.
a linha contrabandeada da poesia brasileira. 
a linha em guetos da poesia brasileira. 
a linha de compadres da poesia brasileira. 
a linha douta da poesia brasileira. 
a linha. outra linha. 
a não-linha. 
a linha do sim e a linha do não. 
etc.]