6.10.26

[ALGUÉM PARA ESCREVER AQUELA HISTÓRIA DO COMUM DAS GENTES]

1. [a senhora margot, completados os 69 anos no último mês de abril, procura alguém para escrever suas memórias, e certamente encontrará quem as escreva, pois seu tempo foi de grandes peripécias, como ter sido aeromoça em uma companhia aérea transatlântica.]

2. [o ex-deputado agamenon procura alguém para escrever sobre um trecho delicado de sua vida, um livro que conte para os filhos, os netos, os sobrinhos, e toda a parentela, a razão de seu fracasso como político.]

3. [o engenheiro valdo teve uma súbita revelação enquanto via subir o vigésimo prédio de sua carreira de construtor, e procura alguém para escrever sobre o mistério de tão repentinamente ter chorado lágrimas torrenciais ao ver o edifício iluminado pela luz da tarde, com nuvens delicadas que iam em algodoais pelo céu cor de alumínio.]

4. [a psicanalista charlotte, franco-brasileira, procura alguém para escrever não a respeito dos casos clínicos em seu consultório, pois sobre esses ela publicou fartamente em trinta e poucos anos de carreira, mas sobre as anotações que fez em suas horas vagas, pequenas tiras de papel com o noticiário cotidiano de um pôr-do-sol, de um pássaro na janela, de uma abelha que passou, de um trinco no azulejo em formato de coração, essas coisas menores, ínfimas, mas que para elas sua destreza para a escrita jamais deu conta.]

5. [a freira josefa, latinista, tradutora de grego, missionária em pelo menos dois países africanos, procura alguém para escrever um livro no qual, anonimamente, ela possa ditar os instantes em que a sua fé, de modo inexplicável, tornou-se tão frágil, tão ameaçada, que ela temeu pelo futuro de sua entrega religiosa, entrega tão admirada pelas superioras da congregação.]

6. [diante de tantos desejos assim espraiados e acumulados, os ghost-writers da cidade, em fila, já afilam os seus lápis.] 

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