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quarta-feira

[TALVEZ]

[talvez já não seja leite 
isto que bebemos, talvez
já não seja vaca isto
que ordenham, talvez
a liberdade seja um
um código de barras
nas gôndolas 
de um supermercado, 
talvez o amigo seja só 
um bucaneiro
a lhe emboscar na esquina.]

segunda-feira

[LER BLANCHOT. O REDEMOINHO DE IMAGENS]

[um torrão de argila como prefiguração do livro. um torrão de argila com inscrições (livro) é atirado à água. a água é o público.

o que é inscrito no torrão de argila e depois atirado à água é o sonho. sonhou-se. 

e o modo de se desfazer de suas consequências funestas é inscrever seus signos característicos em um torrão de argila.

e, pronto, que essa prefiguração do livro vá à água, que é o público, o leitor prefigurado antes que seja de fato leitor.

são imagens que estão em blanchot. 

vocês sabem: imagens assim costumam desencadear outras imagens, fósforo aceso junto à palha seca em um campo deserto. 

feito o fogo, o horizonte será tomado pela fumaça até que as cinzas a princípio fumegantes sejam a matéria inerte à espera da metamorfose.

virá a chuva, carcaças de insetos voadores combinadas com pássaros que não puderam fugir, espinhas e cartilagens de lagartos, caracóis que o fogo consumiu.

e então a matéria, em metamorfose, dará à luz um ramo, e o ramo uma flor, talvez uma fava.

e os insetos e os pássaros e os lagartos e os caracois e as lesmas aparecerão aos poucos para de novo a festa da vida.

isto que pode estar em um sonho, o sonho que possa prefigurar um livro, torrão de argila com inscrições do sonho para ser atirado à água, ao público.

você volta a blanchot e percebe que nada disto consta do que ele escreveu logo a seguir à imagem do torrão de argila. 

você percebe que adulterou tudo o que foi dito por blanchot em poucas linhas de exercício de redemoinho, redemoinho de imagens, essa loucura da literatura.]

[PALREIOS]

[a bocca chiusa,
compadres
e comadres
praticam
a maledicência
expandida.]

[ZEITGEIST]

[na primeira pergunta,
ele já veio com a palavra 
zeitgeist.
achei triste
essa macaqueação
modística e tatibitate.]

[ABOIO]

[mainstream:
o outro nome
para rebanho,
para  arrebanhável,
para coisas,
ideias
e pessoas
em condição de gado.]

[PÓS-TORQUATO]

[eu sou como sou
vagante.
e vago
obli
      qua
            mente
anônimo
pelas ruas
de belo horizonte.]

domingo

[VOCÊ NEM SABE O QUE ACONTECE QUANDO]

[o campo de experimentação para certas hipóteses estava à espera: 

mesa, cadeira, papel farto, caixa de lápis, borracha, apontador, janela aberta, silêncio, chá, torradas, cigarros, isqueiro, dicionários, mapas, barômetro, glossário náutico, pastilhas de gengibre, um gato, um cachorro, croquis, desenho do senhor otto, desenho da senhora sofia, foto da estação ferroviária de praga, a réplica miniaturizada de um barco viking, e, de repente,

a ausência de qualquer palavra que pudesse ser escrita.]

sábado

[A ÚLTIMA CARTA DE UMA LEITORA DE FRANCIS PONGE]

["a grande lei do mundo é o desentendimento", ela assim escreveu em sua carta ao amigo. na verdade, a sua última carta.

sempre prezava e praticava a escrita de cartas à maneira mais antiga. a caneta tinteiro que herdara do avô. o papel de maior gramatura, sempre cinza. o envelope branco. a dobradura da carta em quatro vezes. a ida ao posto dos correios. a satisfação de ter saciado o prazer de remetente.

aquela era uma carta não muito longa. duas folhas meia em letra miúda, um tanto arredondada. e diferia de outras cartas costumeiramente enviadas a esse amigo: as outras, com amenidades, mais em forma de diário das peripécias cotidianas; esta, com um travo amargo da descrença. parecia um manifesto ao ceticismo.

tinha sido leitora fervorosa da obra de francis ponge. com o poeta francês, havia aprendido a voltar-se para os objetos, neles penetrar a agudeza da análise, girá-los entre os dedos, em busca de um melhor entendimento do mundo. a partir dos objetos, fecundar palavras novas, despidas da ferrugem e do óxido do uso comum.

e agora, nesta carta, parecia nem mesmo contar com o fervor dedicado à poética de ponge. descria. "desmilinguia-se", como escreveu em uma das frases. sentia-se agora anêmica diante da possibilidade de entendimento entre os homens.

"olho para o meu país e já não me sinto parte dele", anotou mais adiante. "tudo se esfarela, é como se toda a matéria se desfizesse em torrões de uma farinha envelhecida", acrescentou.

durante muitos anos, ensinara língua portuguesa para crianças. depois viajou. foi à finlândia, à dinamarca, à suécia. viveu alguns meses em santiago do chile. abriu um bar com um irmão no bairro são pedro, em belo horizonte. desistiu do comércio. poeta sem livro publicado, nos anos 1980 enviava de quando em quando um poema para o suplemento literário.  

"vigor retesado, alegria multiforme, famélica e inveterada" eram expressões que usava com frequência para descrever seus louvores  à vida. "a vida é um troço comível e bebível", dizia. até que veio o deserto. até que veio a secura. até que veio a aridez. "os brasileiros estamos destinados à extinção", escreveu na última folha.

ontem, esse amigo destinatário de todas as suas cartas, e ainda com a última carta entre as mãos, soube do acontecido.]

[O FIM E O RECOMEÇO]

["tudo fenece e logo recomeça", ela disse. e acendeu um cigarro. o turbante recobria a cabeça. avançara com os dias a queda dos cabelos. era apaixonada leitora de edmond jabès. não tinha filhos. foram cinco casamentos. vivia agora a solidão dos dias em um quarto-e-sala da rua tupinambás. chorava às vezes. mas alimentava o seu humor tal e qual se dá a água a um vaso com avencas.

gostava mesmo da frase: "tudo fenece e logo recomeça". enfrentava a doença sem autocompaixão e sem acidez. prescrevia dia após dia a dose exata de levar adiante os últimos dias. recusara as prescrições assustadoras do médico amigo, seu companheiro de quatro anos em paris, na rua amelot, naquele tempo em que o marais exibia o charme das utopias travessas.

fenecer e recomeçar. esse movimento incessante da matéria orgânica. o corpo vai. e recomeça. nem que seja na memória deixada pelas mãos em objetos que encontrara em vida pelo caminho. tocar as coisas. deixar nelas as digitais do afago. dizer. proferir. anunciar-se ao mundo para que o legado dessa anunciação fosse disseminado, transmitido e marcado quando as mãos já não mais pudessem exercer a fortuna dos afagos.

brindou mais duas vezes o copo de uísque com a amiga. sabia que os encontros estavam no fim. mais um, mais dois encontros, com sorte voltaria mais algumas vezes ao bar para essa cerimônia de brindes sem saber do amanhã. à dor, dava a gargalhada pelas ninharias da vida cotidiana. à dor, oferecia os aforismos de jabès como predominância da beleza sobre a miséria.

tudo fenece e logo recomeça. estava magra, mas sentia um vigor descomunal nas mãos como se comandasse as rédeas de um potro bravio. chamava-se márcia. faria 52 anos em outubro. e sabia que o seu sorriso, tão belo, era uma bandeira contra as finitudes sem recomeço.]

sexta-feira

[A LITERATURA]

["a literatura não vale nada, meu bem", ela disse e dizia, e o bar estava vazio, o dono do bar ostentava um bigode amarelado pela fumaça de cigarro, e ela disse e dizia: "a literatura não vale nada, meu bem". 

e o bar (era quase noite) poderia ser um bar que pedisse uma vitrola a um canto, salpicada de bostinhas de mosquitos, e que um velho de repente entrasse e escolhesse sentimental demais do altemar dutra, e depois chorasse aquelas lágrimas de um velho com a esperança espatifada por uma carreta numa curva deserta. 

o bar, porém, era despossuído de vitrola. havia caixotes. e bandeirolas de times que já não mais existem. e nenhum velho entrou em busca de música.

ela e ele tomavam cerveja. ela e ele pareciam saídos de um filme mexicano dos anos 1950. ela e ele pareciam se consumir minuto a minuto em derretimento como se consomem as velas mais ordinárias.

"a literatura não vale nada, meu bem", ela disse e dizia como se aquela fosse a frase possível no meio de um tormento.]

[LER UMA VEZ, LER OUTRA VEZ]

["leia outra vez, e mais uma vez", dizia ele, ele o que insistia, insistia, por exemplo, para que as coisas fossem vistas até quando os olhos já não mais pudessem ver, até que a vista nublasse de tanto ver.
e sobre os livros, dizia ele, era preciso ler o já lido outra vez, e mais uma vez, até que o texto lido, a palavra lida, a frase lida, fizesse parte do ser, já sem fronteira entre aquele que lia e aquilo que era lido, essas operações, vocês sabem, um tanto loucas, mas que as crianças entendem, os marinheiros em alto-mar entendem, o andarilho sem pátria e sem lugar entende.]

quarta-feira

[QUADRINHA ILUMINADA]

   
[viva o calor, viva o sol.
assim não vejo
escritor sem pescoço,
enrolado em cachecol.]

domingo

[QUE COISA É A COISA?]

[prescrevo para a coisa
a estrutura, sua medula,
seus arranjos ósseos

ou carnosos, os enlaces
que lhe dão suporte 
para que tenha alguma 
existência,

seja ela a estrutura
do tomate ou da casa,
do navio ou da nuvem,
do poema 

e até
a estrutura do inefável,
ou do alento, 

ou mesmo a estrutura 
inacessível de um vulto.]

sábado

[A NOITE]

[a noite?
ora,
a noite é assim
uma fruta, um cajado,
um grão, um besouro,
só que
ela usa um xale negro 
furado
para não matar de asfixia
as estrelas.]

terça-feira

[BRILHO NO ARROZ COM NACOS DE PARAFINA. E OS TIROS]

[o velho disse que os nacos 
de parafina davam brilho ao arroz,
os caminhões encostavam, e, com as pás,
os chapas puxavam a carga para o depósito,
o arroz formava enormes dunas no chão
de cimento, e então outro grupo de homens
atirava e espalhava os nacos de parafina
para que os grãos foscos, polvorentos,
adquirissem o brilho de um produto
cem por cento de primeira linha.

o velho encostava-se no balcão do armazém
e explicava essas engenharias aos meninos,
contava sobre a esperteza de vender gato 
por lebre, e enquanto explicava, enquanto 
dourava a pílula da cabotinice, bebia
pouco a pouco em goles curtos a pinga
do lameu, cujo rótulo era "maria bonita",
lameu era o fabricante e o velho o engarrafador
responsável pelo rótulo de uma mulher
muito assemelhada com a atriz maria félix.

os meninos olhavam para o trabalho de polir
o arroz com os nacos de parafina. no largo
em frente, largo de terra batida, dois homens
de terno branco conversavam ao pé do ouvido.
um deles, o baixo, era profissional assassino,
bastava mandá-lo, basta o pedido e um pouco
de dinheiro e ele saía à caça 
de algum vivente jurado de morte.

o velho sempre deixava o revólver 32 
sobre o balcão, ao lado de uma carabina 22
francesa. os fregueses chegavam, compravam,
iam embora, no comum dos dias e dos anos,
acostumados que estavam em ver o velho
com o seu copo de pinga do lameu e as duas
armas sobre o balcão, instrumentos 
quase hábitos, instrumentos quase brinquedos, 
pois quando já bêbado, no final das tardes, 
ia com o lápis na parede e desenhava 
um tosco círculo, um tosco alvo,
e, voltando, encostando outra vez 
junto ao copo e às armas, atirava 
naqueles alvos, os estampidos
ecoavam pela cidade de campo da passagem
quatro mil almas acostumadas com aquelas doidices,
um velho e a sua pinga, um velho e as suas armas,
e os tiros, os tiros, os tiros, os tiros.]

quinta-feira

[ESCREVO PARA MIM ISTO QUE ESCREVO]

[escrevo para mim isto
que escrevo, assim do modo
como mastigo o pão
dormido, ou a laranja
aberta como se gomos 
de mel gelado.

escrevo para mim
isto que escrevo, sem
esperança de ser lido,
divido apenas uns restos
de frases em voz alta
com a cadela, e com a gata,
seres que me acompanham
matinalmente pela casa
ainda insone, ainda escuro, 
ainda em trevas, só algumas 
sirenes, só algumas buzinas, 
ou a voz de algum bêbado 
a se desfazer da noite 
em uma boate próxima.

escrevo para mim isto
que escrevo, sem ânsia,
sem ilusões, macero as letras
como quem macera a erva
para o chá, a camomila
com o seu fulgor solar,
a cidreira tão trivial, ajunto
as letras então como se farelos
de biscoito a se esfarelar 
dos dedos, e jamais, eu sei,
algum leitor virá a esse banquete
pobre: feito de vogais perdidas 
e consoantes trôpegas.] 

domingo

[DECÁLOGO PARA A ARTE DO CONTO, EM DIÁLOGO COM O DECÁLOGO DE JULIO RAMÓN RIBEYRO]

1.Pode um conto não contar uma história. Mesmo assim a história estará sendo contada. Por exemplo: a história do rosto do leitor que lê um conto que não conta uma história.

2.A história em um conto pode estar na borda, no limite, na sangria: quase saindo do conto. Se o contista for esperto, a história que fica nas beiras do conto pode ganhar os olhos do leitor.

3.Quando um conto vai além do tempo que se consome para tomar meia garrafa de cerveja, calmamente, sem goles longos, muito provavelmente esse conto já não quer ser conto, embora não seja ainda uma novela.

4.Se porventura o conto possuir uma história, essa história deve ser assemelhada com os olhos de uma mulher em estado de paixão. É um redemoinho que suga, traga, puxa, consome irremediavelmente os olhos do leitor. Se nada disso ocorrer, é bem capaz que o conto e a história que porventura possuir o conto sejam nada mais que uma pedra de gelo, em derretimento.

5.A partitura por onde navega o conto deve ser hábil como a música de um cavaquinho, entremeando rapidez e lentidão. E se o contista tiver habilidade de sobra fará do cavaquinho-conto um exercício de contraponto com um violão de sete cordas, alternando o lado de cá, agudo, com o lado de lá, grave. Um leitor com um conto assim diante dos olhos será um leitor feliz.

6.Talvez a maior virtude de um conto seja enroscar-se como uma enguia no pescoço do leitor, sem que ele perceba. Só ao chegar à última linha, o leitor sentirá o sufoco, o ar que ele respira será faltante, a vista estará turva, pois uma emoção sem limites tomou de assalto esse instante de comunhão extrema.

7.Assim como a profusão de rostos numa multidão, essa sinfonia dos diferentes, também são profusos os modos para se escrever um conto. Uma única palavra põe fogo no rastilho, ou uma frase única, serpenteante, interminável, com a limpidez de água de fonte ou com atmosfera da travessia de um pântano em noite sem lua. Os modos de se achegar ao conto não podem ser enumerados, por sua abundância.

8.Um conto pode ter personagens. Ou não. Ou pode ser constituído apenas pela música de uma sentença que se espirala, enlaça, amarra ou desata um conflito, por exemplo, entre a sombra e a luz, entre o relâmpago e a vidraça de um quarto desabitado.

9.A função do conto é dar vida ao minúsculo, ao pequeno, ao imperceptível. O que pode tanto ser o farelo ou o cisco sobre mesa matinal ou a aura sem expressão de um pobre homem sem rumo, pelas ruas de uma cidade. Ao cantar as minudências, ao apanhar em sua teia o inseto errante, o conto atinge o magnífico, o grandioso.

10.Um conto, muitas vezes, por inabilidade do contista, conclui a sua jornada com um pretenso ponto definitivo, e quase sempre falha nessa estratégia, pois vã é a ideia de conclusão. Não sem motivo, a grandeza de um conto é a súbita imobilidade da mão do maestro, suspensa no ar, propondo ao leitor o benefício do inacabado.


segunda-feira

[OS NOMES QUE DOU À ESPERANÇA]

[minha esperança tem muitos nomes. por exemplo, serrote. por exemplo, martelo.]

[chamo-a igualmente de enxada, goiva, prumo e bússola.]

[assim que a esperança se posiciona na paisagem, trato de chamá-la lápis, caderno, apontador.]

[em certos momentos, nomeio a minha esperança de semente, mas logo sei que melhor será chamá-la arado, lavoura, plantio e colheita.]

[em outros instantes, quando das travessias impossíveis, chamo-a barco, barcaça, navio.]

[dou sempre à minha esperança os combustíveis do movimento.]

[se adoentada, frágil e anêmica, trato de dar à minha esperança os sapatos do andarilho.]

[levo comigo o odre com a água para que a minha esperança não morra de sede.]

[levo comigo o odre com o vinho para que a minha esperança não morra de tristeza.]

[levo comigo as cores todas da paleta de cores para que a minha esperança possa estar pronta para os bailes e as alegrias.]

[há um nome que muito aprecio dar à minha esperança. este: o nome mão. a mão em côncavo para receber, a mão tesa para o trabalho.]

[há um nome que muito aprecio dar à minha esperança. este: dia. o dia que começa, o dia que atravessa, o dia que chega à tarde com os seus minutos todos plenos de verbo fazer.]

[para minha esperança, sempre encontro um verbo-flecha, um verbo-dardo, um verbo-seta, esses verbos todos inquietos.]

[a minha esperança tem sempre o corpo inconformável, e mesmo nos predomínios do desânimo ela encontra a correnteza dos rios.]