VISUALIZAÇÕES DE PÁGINA

Correio Do Autor

assuncaopontopaulinhoarrobagmailpontocom

quarta-feira

[MONÓLOGO INTERIOR EM VOZ ALTA]

[a linguagem não suportava portas fechadas. nem arames. nem tacanhos.]

[íamos pela curvilínea porque a reta era monotonia. ou melancolia.]

[não custa lembrar marx e engels: “todas as relações sociais tradicionais e consolidadas, com o seu cortejo de crenças e de ideias admitidas e veneradas, ficam rotas: as que as substituem caducam antes de terem podido se cristalizar. tudo o que era sólido e estável se desmancha no ar; tudo o que era sagrado é profanado e os homens, ao fim, veem-se forçados a considerar serenamente suas condições de existência e suas relações recíprocas”.

*.*.*.*.*

[michel temer denega tanto que, se estivesse no titanic, chamaria o iceberg de praia tropical.]

[o denegador, ao estilo michel temer, sempre finge que não é com ele.]

[o denegador, ao estilo michel temer, nunca entra em loja de carapuça.]

*.*.*.*.*

[toco a memória. ela retrai. observo então a memória sem tocá-la. a memória vem.]

[disse emerson: "quando alguém patina em gelo fino, a salvação está na velocidade".]

[em todo o mundo, a árvore mais frondosa, mais vigorosa, com mais frutos, é a árvore dos energúmenos.]

*.*.*.*.*

[a mesma boca que deprecia o operário deprecia o humanista.]

[desconstruir o outro. estilhaçar o outro. fazer avolumarem-se os contingentes de "inferioridade". eis a divisa dos tacanhos, dos toscos e xucros.]

[e flora mais e mais a árvore de energúmenos.]

*.*.*.*.*

["de que mais necessitamos que uma campina, um bosque e algumas quantas casas aprazíveis para estarmos contentes?", disse robert walser a carl seelig em uma caminhada pelos arredores do sanatório de herisau, na suíça, em 16 de maio de 1943.]

[robert walser: quanto mais cresce a árvore de energúmenos, mais penso em robert walser, mais leio robert walser, mais caminho com robert walser pelos arredores do sanatório de herisau.]

[contra os energúmenos, eu tomo a dose diária de robert walser.]

*.*.*.*.*

[o escritor, na padaria, diz a frase-sentença: "estão mortos os que não aparecem, estão mortos os que não vendem a própria imagem mais do que os próprios livros".]

[é a frase-sentença preferida dos gestores, dos produtores culturais, dos marqueteiros, dos intermediários-atravessadores no mercado dos livros, tanto quanto no mercado da couve, da cenoura, dos ovos e dos nabos.]

*.*.*.*.*

[ninguém, com alguma faísca de argúcia, duvida que o denegador michel temer é um funcionário muito aplicado e dedicado da mão oculta, da força oculta. está lá para cumprir uma tarefa que lhe foi imposta para fingir de presidente da república.]

[a mão oculta, a força oculta: só visível no exército de energúmenos que viceja nas redes, nos comentários das redes, no fel destilado nas redes.]

[os energúmenos também cumprem a tarefa que lhes foi passada pela mão oculta, ou seja, rentistas, especuladores, agentes do capital transnacional, emissários dos serviços de inteligência de conglomerados de empresas e governos.]

terça-feira

[O JOGO DE ESCONDE-ESCONDE FAZ BEM AO POEMA]

[o jogo de esconde-esconde
faz bem ao poema. o mercado
não acha. o mercado, cuja alma
é de tenda e venda, quer o poema
na gôndola, perenemente exposto
na prateleira, e o gestor, voraz
de fama por osmose, ignora
o poema sem código de barra.

mas o poema, ora vejam, é peralta,
tem pacto com a sombra, 
seu destino é simular a presença,
ora chega, solar de meio-dia,
ora se ausenta, e não há quem
o faça sair da toca, é bicho-enigma,

ora é lebre indefesa, ora é puma
em penumbra, esconde-se quando
o dia começa, aparece quando o dia
termina, e não há gestor entre couve
e batata, intermediário da lavoura,
que o faça mudar de estratagema.] 

segunda-feira

[O CARACOL: SEUS AFORISMOS, SEUS ALFABETOS]

[tomo o caracol como modelo 
das povoações de um quintal antigo. 
ele agora que vai por uma rua de avencas,
ele agora que entra no museu do louvre 
que há entre dois pneus
que o tempo secou e fez tão tristes.

este caracol operário de fábrica com o seu uniforme
cinza, caracol desarmado, com os bolsos vazios,
tão pacífico que se desvia até mesmo do arame 
e do prego, e nem nota o veludo verde
da hera que abraça o tronco, as galhadas e o muro.

soldados passam ao largo, pois que besouros
tão terríveis. um cano dissolve-se em água
podre, cresceu a erva daninha dentro das polainas 
de um beletrista, há restos da cópula
dos lagartos, há penas de um galo-cadáver.

o caracol agora sai do louvre e parece cochilar
sobre um tijolo às vistas de um gato milenário,
às vistas de um cachorro transformado em junco.

as povoações do quintal antigo esperam pacientes
o final da tarde. centopeias buscam o casebre
para a noite que será a última do ano das centopeias,
joaninhas-noivas miram-se no espelho de uma lata,
e as lacraias procuram o bar que há à beira de uma vala,
ali onde o destino dessas povoações foi escrito
para a hora pontual dos soterramentos.

não há temor no caracol, eu sei. amanhã, 
quando ainda for sanguínea a manhã, 
chegarão os tratores, chegarão os engenheiros.
as botas dos pedreiros apagarão os aforismos
que o caracol escreveu com o seu alfabeto
de baba, e sua memória será coberta por um ladrilho.]

domingo

[DECÁLOGO PARA A ARTE DO CONTO, EM DIÁLOGO COM O DECÁLOGO DE JULIO RAMÓN RIBEYRO]

1.Pode um conto não contar uma história. Mesmo assim a história estará sendo contada. Por exemplo: a história do rosto do leitor que lê um conto que não conta uma história.

2.A história em um conto pode estar na borda, no limite, na sangria: quase saindo do conto. Se o contista for esperto, a história que fica nas beiras do conto pode ganhar os olhos do leitor.

3.Quando um conto vai além do tempo que se consome para tomar meia garrafa de cerveja, calmamente, sem goles longos, muito provavelmente esse conto já não quer ser conto, embora não seja ainda uma novela.

4.Se porventura o conto possuir uma história, essa história deve ser assemelhada com os olhos de uma mulher em estado de paixão. É um redemoinho que suga, traga, puxa, consome irremediavelmente os olhos do leitor. Se nada disso ocorrer, é bem capaz que o conto e a história que porventura possuir o conto sejam nada mais que uma pedra de gelo, em derretimento.

5.A partitura por onde navega o conto deve ser hábil como a música de um cavaquinho, entremeando rapidez e lentidão. E se o contista tiver habilidade de sobra fará do cavaquinho-conto um exercício de contraponto com um violão de sete cordas, alternando o lado de cá, agudo, com o lado de lá, grave. Um leitor com um conto assim diante dos olhos será um leitor feliz.

6.Talvez a maior virtude de um conto seja enroscar-se como uma enguia no pescoço do leitor, sem que ele perceba. Só ao chegar à última linha, o leitor sentirá o sufoco, o ar que ele respira será faltante, a vista estará turva, pois uma emoção sem limites tomou de assalto esse instante de comunhão extrema.

7.Assim como a profusão de rostos numa multidão, essa sinfonia dos diferentes, também são profusos os modos para se escrever um conto. Uma única palavra põe fogo no rastilho, ou uma frase única, serpenteante, interminável, com a limpidez de água de fonte ou com atmosfera da travessia de um pântano em noite sem lua. Os modos de se achegar ao conto não podem ser enumerados, por sua abundância.

8.Um conto pode ter personagens. Ou não. Ou pode ser constituído apenas pela música de uma sentença que se espirala, enlaça, amarra ou desata um conflito, por exemplo, entre a sombra e a luz, entre o relâmpago e a vidraça de um quarto desabitado.

9.A função do conto é dar vida ao minúsculo, ao pequeno, ao imperceptível. O que pode tanto ser o farelo ou o cisco sobre mesa matinal ou a aura sem expressão de um pobre homem sem rumo, pelas ruas de uma cidade. Ao cantar as minudências, ao apanhar em sua teia o inseto errante, o conto atinge o magnífico, o grandioso.

10.Um conto, muitas vezes, por inabilidade do contista, conclui a sua jornada com um pretenso ponto definitivo, e quase sempre falha nessa estratégia, pois vã é a ideia de conclusão. Não sem motivo, a grandeza de um conto é a súbita imobilidade da mão do maestro, suspensa no ar, propondo ao leitor o benefício do inacabado.


segunda-feira

[OS NOMES QUE DOU À ESPERANÇA]

[minha esperança tem muitos nomes. por exemplo, serrote. por exemplo, martelo.]

[chamo-a igualmente de enxada, goiva, prumo e bússola.]

[assim que a esperança se posiciona na paisagem, trato de chamá-la lápis, caderno, apontador.]

[em certos momentos, nomeio a minha esperança de semente, mas logo sei que melhor será chamá-la arado, lavoura, plantio e colheita.]

[em outros instantes, quando das travessias impossíveis, chamo-a barco, barcaça, navio.]

[dou sempre à minha esperança os combustíveis do movimento.]

[se adoentada, frágil e anêmica, trato de dar à minha esperança os sapatos do andarilho.]

[levo comigo o odre com a água para que a minha esperança não morra de sede.]

[levo comigo o odre com o vinho para que a minha esperança não morra de tristeza.]

[levo comigo as cores todas da paleta de cores para que a minha esperança possa estar pronta para os bailes e as alegrias.]

[há um nome que muito aprecio dar à minha esperança. este: o nome mão. a mão em côncavo para receber, a mão tesa para o trabalho.]

[há um nome que muito aprecio dar à minha esperança. este: dia. o dia que começa, o dia que atravessa, o dia que chega à tarde com os seus minutos todos plenos de verbo fazer.]

[para minha esperança, sempre encontro um verbo-flecha, um verbo-dardo, um verbo-seta, esses verbos todos inquietos.]

[a minha esperança tem sempre o corpo inconformável, e mesmo nos predomínios do desânimo ela encontra a correnteza dos rios.]