4.1.26

[O FIO E O TIGRE AZUL]

[era só um fio. 
começava na ponta
leste e vinha como se serpente
até a ponta oeste e prosseguia
mais e mais como se desejasse
não ter fim jamais. 
era só um fio

na paisagem que a cidade 
expunha ao ocaso, luzes 
trêmulas de postes
como se fantasmas, mulheres 
que puxavam os filhos aos seios
para protegê-los 
do tigre azul.

o fio único desafiava 
os tratados de filosofia, 
os estudos de ciência,
ameaçava as deidades e divindades,
era um fio 
que começava na ponta
leste e vinha como se serpente 

até a ponta oeste, e prosseguia, 
mais e mais ele prosseguia, 
um fio desejante 
de não ter jamais um fim
atravessava a cidade 
em seu ocaso triste, 
de mulheres tristes, com filhos
tristes, em pânico 
com o tigre azul.]

27.12.25

[ELA DISSE; ELE DISSE]

[ele disse: "é aconselhável, em dias de chuva contínua e constante, invocar o chá, a sopa, as pantufas, o caderno aberto em folha vazia, o merlot encorpado, o silêncio dos bichos, as associações lunáticas de uma coisa dentro de outra coisa, o boné ou a boina, certas palavras úmidas que brotam enquanto a poltrona viaja com você a bordo".]

***

[ele disse: "se ao texto é preciso adicionar uma foto para que seja visto ou lido, então é um texto que, na origem, já se rendeu ao fracasso".]

***

[ele disse: "é preciso estar atento ao lugar de quem emite juízos sobre a qualidade literária de um livro. é o lugar do esteta ou do pateta? é o lugar do editor-mercador? é o lugar do gestor-promotor? é o lugar do amigo-comparsa? é o lugar do mero bajulador? é o lugar do resenhista-resenhador? quem fala, e o lugar de onde fala: eis onde estão as ciladas construídas para o desavisado leitor".]

***

[ele disse: "admiro a palavra almofariz pelo que ela exibe sílaba a sílaba, evocações de uma raiz longínqua, enunciações de uma noite árabe. mas igualmente eu a admiro pelo que ela contém enquanto utensílio, lá onde podem ser maceradas as ervas e as especiarias, conteúdo de misturações secretas, isto que, nas palavras, dá-se o nome de imagem-âmbar".]

***

[ele disse: "amiúde penso em coisas muito desajeitadas para os dias de hoje. por exemplo: o que deixa uma palavra no leitor assim que é lida. refiro-me, por exemplo, à palavra cavalo. quando lida, e vista, pois ler é também uma forma de olhar, o que a palavra cavalo deixa no leitor? deixa crinas ao vento, cascos sobre pedregulhos, o galope em desgoverno para um rumo desconhecido? ou a palavra cavalo deixa no leitor uma cena de quietude? o cavalo quieto, à noite, noite sem lua, noite sem vento, o cavalo ali, a um canto do pasto, a cabeça baixa, os olhos sonolentos, as bandas das crinas caídas ao longo da tábua do pescoço, o focinho pendente, as ventas apaziguadas, os olhos como se refletissem sobre assuntos que jamais saberemos".]

***

[ele disse: "se ao texto é preciso adicionar uma foto para que seja visto ou lido, então é um texto que, na origem, já se rendeu ao fracasso".]

***

[ele disse: “coitada da leitura, e mesmo da literatura, com a militância do bom mocismo carola”.]

***

[ele disse: “uma frase ou dito aos modos de clarice já é o bastante para fazer de um texto um pavão com os seus penachos. e uma frase solta retirada de rosa é o bastante para fazer do citador um pavoneante filósofo”.]

***

[ele disse: “grande parte da poesia hoje publicada não passa de arroz que gruda, de doce que desanda, de bolo que sola, de pipoca que não pula”.]

***

[ele disse: "anuncio ao mundo que acabei de arrancar de mim um pedaço de palavra. não doeu".]

***


9.12.25

[OS SABERES E OS DESSABERES]

[ainda há pouco eu sabia, 
mas o saber esvaiu-se, areia 
na peneira, matéria
não mais apanhável, toda ao chão
como se fungo, lodo, 
água ferruginosa.

ainda há pouco eu sabia, 
eu disse, e repito, sabia, 
mas o saber que eu sabia 
em vapor se fez, um outro saber, 
frágil, lerdo, manco,
logo esse novo saber 
apontou ali onde os saberes

fazem morada, um novo saber 
qual estranho, qual bicho 
sem nome. 
tive de aceitá-lo,
a um saber não se dá a recusa, 
ele vem,
puxamos a cadeira, 
deixamos que seja

novo conviva. olá, eu digo, 
solto verbos amigáveis, 
sirvo-lhe o cálice, sirvo-lhe a prosa
de uma frase sinuosa 
das que honram 
as amizades, 
isto até que o destino dos saberes

outra vez, em reprise, outra vez 
o destino leve o visitante, 
mais um dia passa, outro ano, 
outros saberes chegarão, 
e outra vez
vão ceder o lugar 
para novos saberes chegantes.]

4.12.25

[O BARCO E O LIVRO DOS PRESSÁGIOS]

[o livro dos presságios, 
aberto em dia errado, anunciava 
o barco para a tarde, a horas tantas, 
entre o dia e a noite, e seria 
um barco iluminado, 
traria tochas na proa, e ele 
embicaria porto adentro, dois
 
marinheiros o conduziriam ao cais, 
ambos cegos, joão 
era o nome de um, jarbas 
era o nome de outro, 
e as cordas e os cordames, 
os nós e os laços dos velames 
penderiam do mastro, 
no convés o resto de peixes, 
a tinta azul que grafava o casco,
 
"ilusões invictas" 
era o nome desse barco 
anunciado para a tarde, 
isto conforme o livro 
dos presságios, livro 
aberto em dia errado, 
pois previa para hoje 
o que de fato seria ontem, 

equívocos de mãos 
no desgoverno de um lapso, 
mas eis que a tarde 
apagava luzes, mas eis 
que a noite abria as portas 
para novo expediente, 
mas eis que a roda 
dos calendários girou 
com o súbito de um vento, 
mas eis que a barra 
tingia-se de um fogo, 

e então viu-se o clarão 
das tochas na proa, 
joão e jarbas acenaram 
suas mãos de sal, 
e o barco de hoje, que era 
o de ontem, entrou no porto.]

30.11.25

[A ESTA HORA DA NOITE]


[a esta hora da noite,
não há quem possa conversar
sobre poesia inglesa,
ou sobre os hábitos
de walter benjamin em paris,
ou sobre a vida
de augusto dos anjos
em leopoldina, minas gerais.

um amigo disse, no tempo
em que os amigos
conversavam
a esta hora da noite:
"o rosto dos escritores
impregna-se do que escrevem,
e as rugas são traços e textos
em palimpsesto
na carne do rosto".

a esta hora da noite,
o amigo que tal coisa disse
não vive mais neste mundo,
e há o silêncio,
e há o rosto de textos
nele impregnados,
e há o buraco
das conversas
que já não acontecem
a esta hora da noite.

a esta hora da noite,
não há quem possa conversar
sobre o ativismo de grace paley,
ou sobre a lata
de atum que kerouac comia,
antes de morrer,
ou sobre o silêncio
entre joyce e proust
em certo banquete,
sobre os livros
que joubert jamais publicou
ou sobre a infância
de edmund jabès no cairo.

a esta hora da noite,
o telefone não toca
para a leitura do conto
recém-escrito, a bomba
de nêutrons dizimou
a esquina, veio a nuvem
de gafanhotos,
o vinho está seco no copo,
não há quem possa
conversar sobre o dilema
de um palíndromo,
ou sobre a casa
onde drummond
viveu em belo horizonte,
ali pelos lados
do bairro da floresta.

a esta hora da noite,
não há quem possa conversar
sobre dantas mota,
sobre os diários
de eduardo frieiro,
sobre os sonetos
de jorge de lima,
sobre a métrica de yeats
ou sobre as minúsculas
em cummings, não há sinais
de palavras intercambiantes
sobre um livro
que possa nascer
a respeito de barcos,
relógios, perfumes,
ruínas, trens
que jamais chegam,
trens que jamais partem.

a esta hora da noite,
as conversas
estão despovoadas de rosalía
de castro e antonio machado,
não há quem possa
referir-se a martim codax
e às ondas do mar de vigo,
a esta hora da noite
só há tiro e sirene, motor e uivo,
galope e abismo.]

3.9.25

[É UM ENGANO IMAGINAR QUE A RUA DA BAHIA DEU A DRUMMOND A PEDRA NO MEIO DO CAMINHO]

[A Rua da Bahia é uma rua que vai daqui para acolá e de acolá para nenhures. 

É rua em declive ou em aclive, conforme os óculos, conforme o destino. Sobe, se você está a caminho de acolá; desce, se você está a caminho de nenhures. 

É rua apropriada para quebrar silêncios. Quando falta assunto, é só dizer: "Rua da Bahia". Os assuntos voltam. 

É rua densamente povoada pelo passado. Você diz: "Bar do Ponto". Todo o passado volta, e, junto com ele, voltam os fantasmas.

A Rua da Bahia inventou Belo Horizonte. "Haja cidade", disse a Rua da Bahia em uma segunda-feira chuvosa, muito tediosa, sem nada para fazer, só com empadas nos mostruários e alguns udenistas de cachecol. E houve então a cidade.

Do ponto de vista topográfico, a Rua da Bahia tem baixios, medianias e altanias. À meia-noite, não há vagas para poetas nas medianias, vagam anjos pelos baixios, sonham nas altanias os candidatos a governador.

Do Bairro da Floresta, onde começa, à Rua Carangola, onde termina, tudo é fabuloso na Rua da Bahia: passam javalis, dromedários, bem-te-vis de polainas, curiós de ceroulas, deputados dependurados pelas gravatas ― e ectoplasmas de faraós a caminho do Palácio da Liberdade.

É um equívoco pensar que a Rua da Bahia foi trazida de trem de Salvador, conforme divulgado pelo pessoal da UDN. Outro engano é imaginar que a Rua da Bahia deu a Drummond a pedra para o famoso poema, conforme propalado pela turma do PSD.

Mas é tese aceita ter havido um tempo em que todos os redatores de discursos dos governadores de Minas andavam à solta e sem camisa-de-força pela Rua da Bahia.

Ainda hoje, século e tanto depois, quem passa à noite pela Rua da Bahia pode ouvir versos assim: "Ó lua plana sobre os organdis de Eliana". Ou então: "Mansa é a mão que dança sobre a pança do comendador".]

31.8.25

[QUASE NOITE. COM FRANCIS PONGE]

[é quase noite. e as pitangas 
tingem o leite que o céu 
derrama a oeste, ali onde a estrela 
temporã logo virá declamar 
um poema de francis ponge.

o vapor de cachoeira 
não navega mais no mar. 
o jardim protege uma ninhada 
de vogais. o rústico graveto 
aresta a página de uma avenca 
que, quase noite, logo vai 
declamar um poema de francis ponge. 

é quase noite ao sul do sul, vai 
agora o sol, vem a lua, e o cheiro 
do óleo diesel é o próprio 
coração do diabo a bater 
na caldeira da fábrica. a fábrica 
não vai declamar 
um poema de francis ponge.

o corte no olho do cão andaluz. 
o banquete dos mendigos 
por entre as espirais 
do tabaco de buñuel.

godard recorta o senso 
comum com as tesouras 
de uma andorinha perdida, 
perdida e cega, 
na quase noite. a andorinha 
logo declamará 
um poema de francis ponge.

"fracassamos", diz o homem 
velho à beira de um canteiro. 
"fracassamos", dizem 
os leitores e as leitoras 
do não à beira 
das páginas mortas. e o gato, 
gato sem nome, subnutrido, 
triste, logo vai declamar 
um poema de francis ponge.]