4.9.24

[TUDO NO MUNDO QUER SER LIDO]



[tudo quer ser lido: a flor, o parafuso, o cisco. 

a paisagem quer ser lida, e a janela, o fogo, o trovão. 

tudo quer ser lido e expõe sua textuaria ao mundo. 

o homem que vai, a mulher que vem, o menino que atravessa a zona de sombra de um edifício: todos querem ser lidos. 

escreve-se com o corpo, escreve-se com o silêncio. 

e tudo isto quer ser lido. 

débora, a transtornada, quer ser lida. 

jader, o furioso, quer ser lido. 

papéis, células lexicais na luz, geometrias vocabulares, arranjos de letras inscritas na pele: tudo quer ser lido. 

o lado certo e o lado avesso do objeto querem ser lidos. 

o objeto "a" quer ser lido. 

as paredes rebatidas pela voz para dentro do analista querem ser lidas, e própria voz, para dentro, posto que é voz ouvinte, quer ser lida. 

já não é mais só o poema, o romance, o tratado, o ensaio.

tudo quer ser lido. 

adolfo, o pastor, quer ser lido. 

hélia, a noviça, quer ser lida. 

o olho que lê também quer ser lido, e a mão que apalpa, tato legente, quer ser lida. 

quem não escreve quer ser lido, e quem escreve quer ser lido.

há o pássaro metálico de um pânico, e o pássaro quer ser lido.

e o pânico quer ser lido. 

não importa que faltem olhos, não importa mais a escassez legente: tudo quer ser lido, todos querem ser lidos. 

dança a letraria abundante pelos salões virtuais: tudo quer ser lido. 

mesmo quem nunca leu, quer ser lido. 

mesmo quem já morreu, quer ser lido. 

eis as lápides, eis a saudade ou a indiferença pelo que agora é pó: tudo quer ser lido. 

até a leitura quer ser lida. 

a antileitura quer ser lida, e a antipalavra quer ser lida.

partículas fetais de vocábulos ainda para nascer querem ser lidas. 

a finitude e a infinitude querem ser lidas. 

o leitor que pede o autógrafo ao autor quer ser lido, e o aglomerado de sábado, à porta da livraria, mais do que exibível, quer ser lido. 

o diálogo, mais do que a operação dialógica entre um e outro, quer ser lido. 

a fala quer ser lida. 

e a própria repetição infinita que aqui se faz e aqui se escreve quer ser lida.]

7.5.24

[TUDO NO MUNDO ESCREVE]

[tudo no mundo escreve, até o chão com as suas camadas: tijolo, tábua, ladrilho, pena, cisco, fissura, fenda, rachadura. e a planta, que achou um ninho.]

[tudo no mundo escreve: e o gato observa os experimentos da escrita, folhas, ramos secos, o tronco carbonizado, pedras, o rodo velho que agora deseja o mimetismo entre as coisas do chão. quem sabe virá uma borboleta para sacramentar a escrituraria?]

[tudo no mundo escreve: e a linha, suspensa, etérea, é a frase que algum anjo geômetra inscreveu e escreveu sobre o texto de pedregulhos. o mar é o muro, e a madeira encravada no chão é um mastro. há um barco à deriva no canto esquerdo inferior. talvez seja o barco da memória.]

[tudo no mundo escreve: até a espera, até o quase, até a perspectiva do que o paladar avista e os olhos comem. eis o de comer em suas alquimias do milho e do trigo. o prato escreve a oferenda. a mesa sustenta as frases desse texto que se expõe ao faminto. são muitos os parágrafos nas reentrâncias desse desejo tempestuoso. escreve-se para morder, mordiscar, para prenhar a boca, até que o ato de escrever seja o abismo do que foi comido.]

[tudo no mundo escreve: os visitantes não chegaram, mas a sua ausência não se consuma. os presentes, altivos, já escreveram a ode aos seus futuros donos. talvez hoje, talvez amanhã, em algum dia, quem sabe, os visitantes chegarão. pode ser que um deles traga o vinho, pode ser que um deles ainda sofra a melancolia do inexplicável. mas tudo no mundo escreve, e a escrita do destino já foi lançada ao tapete-livro, ali onde a gata, em palimpsesto, vigia os textos antigos e superpostos.]

[tudo no mundo escreve: aonde vai agora este peregrino? cessaram as chuvas, que, costumeiras, vinham dizer o sim da vida, o sim das alegrias. e agora é o tempo das caravanas no deserto. o peregrino escreve o caminho-de-ir tão a esmo, tão sem rumo. a linha que vai para leste, a linha que vai para oeste, nada parece dar ao peregrino a bússola para o acerto com os encontros. o chão é árido, o chão é infértil. e as árvores recolheram as sementes.]

[tudo no mundo escreve: é ilusão a ideia dos textos concluídos. em condição de mastros, os postes dizem aos marujos da inconclusão navegante. em condição de barcaça, a cidade dobra páginas sobre páginas no oceano revolto dos homens e das mulheres que chegam para a noite. a noite se aproxima lenta, mas inexorável. a noite vai cindir o céu em dois volumes de luz agônica. é a cidade que escreve as letras secretas que logo se apagarão em desmemória e amnésia. talvez um louco venha e proclame a inconclusão dos textos.]

[tudo no mundo escreve: é engano crer nos predomínios da mão e do lápis. a luz, com o seu abecedário, exibe-se por trás da mandala. há uma dança pela convergência. há estilhaços diamantados na beleza em sofrência das árvores, tão bonitas de dar pena. é uma gramática que concebe o texto para a leitura total, uma radicalidade do escrito entre galhos e folhas. a mão deve ser humilde. o lápis deve se abaixar à posição dos andarilhos descalços.]

[tudo no mundo escreve, e disseram aos homens que a quietude deveria ser abolida. o rito da permanência, o olhar avarandado, a sombra dos caramanchões, as lentidões, isto deveria ser abolido. e a rua, tal a prova de um revisor que lacera a página com bisturis e estiletes, deveria agora exibir o texto dos tumultos. vocábulos cortados ao meio iam por essa rua ferida de morte. carros e motoristas crucificavam os andarilhos e os expulsavam para o gueto onde já se achavam encerradas as árvores. e, mesmo indigesta, a elegia que agora ocupava a rua do começo ao fim deveria ser lida. até as buzinas, emissoras de metonímias enlouquecidas, imploravam por leitura.]

[tudo no mundo escreve: o vaso ao lado de rilke diz que a secura floresce o oposto do verde. estranha retórica tem o que é seco. poucos se dão ao estudo de tal discurso. o vaso, ao exibir a secura desses ramos, parece nos lembrar de um outro texto não compatível com o verdor feérico da vegetabilidade. há muito o que aprender com essa ramagem quase impertinente por sua condição desértica. 

[mas rilke, absorto, distante, apenas se deixa posar ao lado do vaso. dois elementos da composição postos lado a lado para que sejamos lembrados da impertinência do seco. o vaso escreve tratados arenosos. os ramos cantam música de adagas. talvez o inverno tenha sido forte demais para esse texto-vaso, e o outono não o tenha tornado ainda maduro para a água da leitura.]

24.4.24

[A POESIA E A PROSA DUELAM NA TABERNA]






["dizem os pasquins 
que somos inimigas", falou
devagar a prosa, o copo 
sobre a mesa, aceso
o cigarro rente à testa, a voz,
a voz vinha de boca narrativa.

"inimigas não somos, se bem, devo
dizer, em algum momento senti
ganas de matá-la", disse a poesia, 
com meio riso cônico e irônico, 
com outro meio riso
fácil de notar que era um meio riso
assim entre o sério e o adusto.

"ah, também tive esses impulsos
assassinos", confessou a prosa, o foco
dos olhos sobre as próprias mãos
agora em repouso sobre a mesa, 
o cigarro quase no fim, 
o fôlego para as frases longas.

"seus deboches sempre 
foram deboches de fraqueza", 
respondeu a poesia, agora
com um cálice de bebida forte, 
se aguardente ou absinto, 
as sobrancelhas franzidas,
elípticos os lábios 
com palavras bélicas.

"em mim você também lançou 
as setas envenenadas", falou a prosa, 
os braços-parágrafos
prontos para uma guerra, 
um discurso-fleuve
a um simples puxar do gatilho, dois
travessões aquartelados no queixo.

"e você sempre bebendo 
das minhas águas", disse a poesia, 
que agora acendia uma cigarrilha
com os riscos de um fósforo-metonímia. 
"tantos contrabandos, 
tanto furto, tantos assaltos,
para depois me difamar nos intramuros".

e assim foi pela tarde o palreio
da prosa com a poesia. ora
um bater de latas, ora
um quase duelo. ora
o raio que o parta de um cruzar
de facas sobre o cerebelo.

de longe, ao fundo, os que moramos
aqui na aldeia
ouvíamos o transcurso do simpósio.

sei que homero 
espreitava da penumbra,
sei que dante, 
no depósito, tinha atentas
as orelhas. sei que o goethe, 
aquele que lia nuvens, 
de quando em quando
descia a vista para saber 
a quantas ia a tal pendenga 
entre a prosa e a poesia.

foi-se a tarde, foi-se a noite. fez-se dia,
veio outra noite. cavalos 
entraram pelas janelas, 
com os cascos sobre os batentes.
um javali, um dromedário, peixes
nadaram no seco, 
sozinhas as flautas tocaram.

tudo isto nós presenciamos, 
os que somos aqui da aldeia. 
o palreio da poesia
com a prosa, dia e noite, noite e dia.

isto até que a madrugada, igualmente
bebida, à taberna chegasse
e visse as duas sobre a mesa:
bêbada uma, bêbada a outra,
uma sobre a outra elas dormiam.]

5.3.24

[EM SALAMANCA, A TEORIA DO LIVREIRO SIETEFUEGOS]


Foi em uma tarde brumosa e nevoenta da cidade de Salamanca, com mais exatidão na magnífica Calle de la Compañía, que Rubem Focs ouviu do livreiro Fernán Sietefuegos uma teoria deveras curiosa sobre a origem da filosofia. Segundo tais argumentos ditos em voz grave e baixa por Sietefuegos, foram os gatos que a inventaram, oferecendo-a na bandeja para os primeiros ou primeiríssimos filósofos de que a humanidade tem notícias. "O que é isto?", "Como foi que aconteceu?", "De onde veio?" ー todos sabemos que essas perguntas os gatos amiúde fazem como um hábito entranhado em sua natureza, enquanto cheiram o ar ou escutam o inaudível, enquanto fingem dormir, mas estão em vigília praticando exegese e hermenêutica de coisas secretas. Sietefuegos, com os seus enormes sapatos em lenta caminhada pela pedraria da rua, dono de um alfarrábio ali perto, na Calle de los Libreros, respirou fundo com um certo júbilo nos olhos. Parecia feliz com a história que ouvira de quem igualmente a escutara de outros e outros pelos tempos remotos. E concluiu: os filósofos nada mais fizeram do que emprestar dos gatos a metodologia, e esse pode ter sido o primeiro caso de roubo de propriedade intelectual. "Rimos os dois como crianças que riem das histórias estapafúrdias, e renovamos o nosso louvor e respeito, não propriamente aos filósofos, mas aos gatos."

27.11.22

[EM TRIESTE, NO CAFÉ MOJORES]

[Os camarões enlatados da marca Nogalitos (para quem não os conhece, são secos, miúdos e polvilhados com especiarias picantes) ainda podem ser degustados no Café Mojores, de Trieste, o mesmo aprazível e distinto estabelecimento já centenário onde o escritor Carlo Nubs costuma receber os amigos nas tardes de quarta-feira. Ali estive, no mês passado. Levava comigo algumas edições raras de manuais de pesca. Entre eles, cito um pequeno compêndio, não propriamente sobre a arte pesqueira, mas sobre a atitude que deve ter o pescador em locais de arriscado acesso, locais pouco frequentados, locais regidos pelo acaso, já que nunca sabemos se terminamos o dia com o embornal farto ou com a paciência rota. Carlo Nubs ficou comovido ao folhear essa edição que lhe caíra em mãos, pela primeira vez, fazia uns vinte anos. Ouvi-o dizer, de cor, frases inteiras sobre a arte da paciência ali contida, especialmente ali pela página 50, onde o autor do compêndio (omito o seu nome por motivos de segurança) compara o pescar com o escrever. Foi então que Carlo Nubs pediu ao garçom (um croata sessentão) os Nogalitos. O próprio Nubs fez questão de abrir a lata. Exalou-se pelo Café Mojores a hipnotizante sedução das especiarias. E o garçom, passo seguinte, ofereceu-nos as claras cervejas Nugars, claras e fortes, muito apetecíveis quando combinadas com os Nogalitos em seus incêndios apimentados. E foi-se a tarde. Veio a noite. Trieste estava como dantes. Fronteira de mundos e de sabores. E ainda pude, ao final da jornada, lançar aos ares os redemoinhos e as espirais de um puro da Etiópia, composto por metade tabaco, metade penugem de ninfas.]

6.8.22

[DEPOIMENTO DE NOEL BISCOLET, VULGO CONDE DE LAUTRELUNE]

"Eu conheci o escritor Paulinho Assunção em São Paulo, em janeiro ou fevereiro de 1971. Era então um sujeito magro de dar pena. Pele e ossos. Usava uma calça de tergal, quedes pretos muito usados, camisa de gola puída e sempre com um casaco de brim marrom. Todos os começos de noite ele chegava à Biblioteca Mário de Andrade, na Rua da Consolação, e dali era o último a sair. 


Dizia-me estar copiando verso a verso, linha a linha, sílaba a sílaba, a poesia de João Cabral de Melo Neto. Tudo em um cadernão escolar que ele levava debaixo do braço até um ponto do ônibus na Avenida Rio Branco, de onde seguia para os altos da Vila Madalena, na Rua Madalena.


Apesar da vida difícil e da asma, possuía um entusiasmo invejável. Tinha vasculhado toda a seção de livros raros da biblioteca. Em sua mesa, na sala de consultas, avolumavam-se primeiras edições do modernismo, lia com voracidade Oswald e Mário, e soletrava em espanhol a obra de Lorca e Antonio Machado. 


Lia sempre com um lápis na mão. Eu, que era então um apaixonado pelos livros de Pitigrilli, assustava-me com aquele tiroteio a esmo que ele praticava em suas leituras. Fartura de assuntos, fartura de autores. Parecia um presidiário que, solto, reencontrava a liberdade dentro de uma biblioteca. Ele tinha vindo do interior de Minas Gerais. 


Sim, se bem me lembro, a vida dele não era fácil. Trabalhava em dois expedientes na Rua 15 de novembro, em uma empresa de cadastro. Passava o dia dentro de ônibus pelas ruas de São Paulo. Ele recebia um pacote de fichas, logo cedo, e deveria ir de endereço em endereço colhendo informações sobre clientes. De sul a norte, de leste a oeste da cidade. A obrigação era entrevistar cada pretendente a um crediário e fazer anotações sobre o local visitado. Em mínimos detalhes: cor da casa, tipo de construção, informações sobre bairro, rua, vizinhança. O nome dessa profissão esquisita era informante de cadastro.


Por essa época, ele andava como uma moça sergipana de nome Artemísia. Nos finais de semana, gostava de frequentar umas reuniões organizadas por um velho sindicalista do porto de Santos. Gente do Partido Comunista. O sindicalista era pai de uma vizinha da Vila Madalena chamada Mara, mulher do Nelson, ambos artesãos da Praça da República. Aquela feira hippie. 


Acho que Nelson foi um dos grandes amigos de Paulinho Assunção naquele tempo. Tocavam violão e compunham. Foram até selecionados em um programa de calouros da Fundação Padre Anchieta, um programa dirigido pelo maestro Diogo Pacheco. Cantaram uma música cuja letra era uma colagem de frases do Nietzsche. "Melodia aleatória", eles diziam com o orgulho daquela onda vanguardista do período. As notas da escala tonal eram numeradas em pedaços de papel e depois fazia-se um sorteio às cegas. O resultado era imprevisível para a dor dos ouvidos mais conformados. 


Um dia visitei Paulinho Assunção naquele barraco da Rua Madalena. Em uma mala de couro cru, ele guardava poemas escritos em folhas soltas, dobradas em pacotes e amarradas com barbante. Eu soube depois pelo Lips, um chapeiro de lanchonete na Rua Teodoro Sampaio, que esses pacotes depois foram queimados um a um no pequeno quintal que havia entre o barraco e a casa principal. Isto teria acontecido em agosto ou setembro. Provavelmente em setembro, quando o Exército matou o capitão Carlos Lamarca e Paulinho Assunção teria voltado para Minas. Não sei. A sergipana Artemísia divulgava outra história, que ele teria sido preso pelo delegado Fleury. Não sei. A experiência da literatura desfaz datas, desmonta fatos, turva o entendimento.


Nelson, o marido de Mara, conta por exemplo que Paulinho Assunção teria adotado outro nome, Vicente Pass ou Rubem Focs, e embarcado em um navio mercante para a Noruega. Sei apenas que tenho saudade de nossas conversas sobre vanguarda, sobre poesia e música de vanguarda, Maiakovski e Pierre Boulez, Stockhausen e poesia concreta. Conversas ali na porta da biblioteca, quando saímos para fumar. Ele puxava um cigarro do maço de Gauloise sem filtro comprado em uma banca de revistas da Praça da República. Baforava. Gesticulava. Um passarinho de tão magro. Eu fumava Continental. 


Hoje estou muito velho. Minha memória é uma memória esburacada. Mas se você souber por onde anda o Paulinho Assunção diga-lhe que consegui escrever o livro sobre os rios brasileiros, uma sinfonia de poemas entrecruzados. São 400 páginas. Nunca será publicado."

22.9.21

[FILOSOFIAS DE DOMINGO]


G. Deleuze quis tomar uma cerveja nos fundos do Mercado, mais adiante da loja de patos, um pouco antes da loja de peixes, entre os pimentões e as laranjas, entre a filosofia do ver e a filosofia do degustar. A cerveja veio e havia lentidões na manhã de domingo. G. Deleuze pôs o chapéu sobre o balcão, tinha limões nos bolsos do paletó, pediu a João Serenus descrições sobre a incidência da luz sobre os copos. Bebemos. Bebemos: um brinde para Espinoza, um brinde à fluidez dos afetos, um brinde à nova gravata de Franz Kafka, um brinde aos brincos de Cida La Lampe. Uns poetas passaram montados em um camelo, voou um bando de bailarinas sobre as nossas cabeças. Estávamos em estado de trincheira, trincheira para sorrir, trincheira para apreciar. Quase cresciam flores na ponta dos nossos dedos. Nenhum irado veio nos tirar da quietude.