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quinta-feira

[VOA, PASSARINHO]

Convém desesperar ainda mais o já desesperado até que o desesperável, em movimento, se contorça e grite, grite em desespero maior ainda, e crescentemente desesperador.

Abria-se o guarda-chuva na sala para que a invenção de gotas chuvarentas pudesse dar a esse artefato alguma utilidade em ambiente seco. Este era o desvio, digamos, conceitual, daqueles que não podiam ouvir sobre o desespero. Diante do desespero e do desesperável, abriam guarda-chuva em lugar sem chuva.

A polícia vem e dá 11 tiros no menino. Onze tiros. O evangelista vem e assoa o nariz nas franjas do mundo. O clown quer ressuscitar fetos em latas de lixo. O homem sai detrás de um poste e urina sobre o rosto daquele que dorme no cimento. As tremeluzes da cidade. O monstro nas vitrines. As degolas e os patíbulos. O santo pede guilhotina para o menino do coquetel molotov.

Qual poema você quer hoje se minhas mãos minam sangue? Qual centelha de esclarecimento você quer hoje se nada mais há a esclarecer?

Voa, passarinho. Voa, passarinho da desesperança. A migração dos passarinhos ao país nenhum. Hoje somos os exilados do país nenhum. O país nenhum feito de fel e feito de fígado. Voa, passarinho. Adeus.

O velho jornalista encolheu o ser. O ser do velho jornalista esvai-se em pó. É o mesmo corpo. Nada mudou em seu corpo, em seus bigodes, em seus braços magros e longos. Mas o ser, a amêndoa do ser, é hoje uma peneira. Nada retém. 

Voa, passarinho, voa. Acabou. As palavras subnutridas, as frases em estado terminal. Qual poema é possível nesta antessala, nesta antecâmara, neste umbral que acede à masmorra?

Bons mocinhos, ei-los. Bons mocinhos trapaceiros. Lustrados sem ilustração e agora donos do país nenhum. 

Convém desesperar ainda mais o já desesperado até que o desesperável, em movimento, se contorça e grite, grite em desespero maior ainda, e crescentemente desesperador.

Não há poema, eu digo. Não há poema. Mas convém desesperá-los, os bons mocinhos, com o desespero desesperador. À noite, seremos os fantasmas que lhes darão a insônia eterna. Voa, passarinho. Mas voa com o canto-lâmina para que eles não possam mais dormir.

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