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quarta-feira

[O MATADOR DE POMBOS]

Pelo buraco da fechadura, a senhora Rebeca Plath vigiava quando o senhor Gonçalo Samoa estava prestes a deixar o quarto e descer a escada em caracol até o pomar, onde gastaria quase toda a manhã atirando em pombos. Eram tiros e mais tiros. Os pombos, que eram fartos e se procriavam como se coelhos, caíam das árvores, dos muros, dos rufos oxidados, das platibandas. Algumas aves ficavam agonizando no chão até que o senhor Gonçalo Samoa lhes dava o benefício de uma pisada de misericórdia.

A senhora Rebeca Plath era antiga funcionária daquele casarão solitário entre as montanhas do sul e as montanhas do norte, não muito distante das margens do rio Cruzador, serpenteante curso d´água que seguia de leste para oeste. Teria uns 50 anos. Vestia-se em tons sempre escuros, poucas joias, prendia os cabelos muito ruivos na nuca e irradiava um rosto magnífico a contrastar com os seus modos de freira. Dizia-se ter sido amante do senhor Gonçalo Samoa na juventude. E não se sabe a razão de não ter sido mais procurada à noite pelo patrão, assim que completou três décadas de vida.

O senhor Gonçalo Samoa era um velho agente da polícia ditatorial. A fama de sua crueldade como torturador chegava às províncias mais longínquas. Apreciava retirar o coração de seus torturados. Talvez apreciasse ainda mais ouvir o ruído da faca em ossos e cartilagens do peito. 

Jamais sorriu. Aprontava-se todas as manhãs com o terno cinza, a gravata amarelada, o chapéu borsalino, o lenço no bolso esquerdo, os sapatos de salto adaptado para elevar alguns centímetros a estatura quase anã. 

Pronto, descia ao pomar para atirar nos pombos. Ainda em jejum, abatia-os a gosto até a metade da manhã. E então, sossegado, com as feições relaxadas, sentava-se à mesa para a primeira refeição do dia. A senhora Rebeca Plath permanecia em sua invisibilidade de conveniência.

Naquela manhã de agosto de um ano bissexto, antes um pouco que terminasse a tarde, dois de nós aproximaram-se pelo flanco da esquerda, margeando um muro de pedra, e os dois outros pelo flanco da direita, ao lado de uma horta. Esperamos que a senhora Rebeca Plath servisse o chá ao senhor Gonçalo Samoa na varanda. Esperamos que ele embebesse na xícara o biscoitinho de canela. Esperamos que acendesse o charuto e contemplasse mais levas de pombos em revoo pelas árvores, alvos para a manhã seguinte.

O ataque foi repentino. Demos os urras de guerreiros e os vivas de conquista. Durante a noite e a madrugada, obrigamos o senhor Gonçalo Samoa a contar e a recontar o seu passado de facínora, braço sanguinário do ditador Gildério Fucs. Quando nada mais merecia ser contado e anotado, o sol já aparecia forte sobre o casarão solitário. Não nos espantamos que o coração do senhor Gonçalo Samoa fosse uma pedra de gelo em derretimento. 

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