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quarta-feira

[O CAMUFLADOR DE PAISAGENS]

Se obra das mãos ou se obra dos olhos, o certo é que de repente a montanha ficava baixa, e o rio subia do leito para as alturas. Meninos sobrevoavam ninhos de pássaros.

Dona Partitura, que ganhou o nome pelas melodias perenes, olhava para o caramanchão e via um rochedo daqueles de fiordes. Olhava de novo e via lagoa. Depois mirava e supunha ter avistado um jardim de flores muito acesas pelas cores, quase em fogo.

A mancha aquela, além do vale, podia ser um elefante ou um homem que levitava. Olhassem mais um pouco e eis de novo o elefante agora de cabeça para baixo. Nem os santos se salvavam, pois desciam dos oratórios e vinham dar milho às galinhas.

A paisagem, ora molhada, ora seca, pedia às noivas que cuidassem das grinaldas, pois logo as grinaldas ficavam muito romãs, as romãs entreabertas. Os noivos voavam no lombo dos cachimbos.

Diziam ser culpa do velho tantos cachos de metamorfoses na paisagem. O velho, que imitava um cajado, ia pela estrada. Dizia adeus e voltava. Tinha se lembrado da cobrinha coral que ele criava dentro de uma botina.

Diziam ser culpa dele. Mas depois nem mais se lembravam da palavra culpa. Assoviavam baixo, perto do chão, bem no ouvido das formigas, e chamavam o velho para compor uma sonata.

Mas o velho só queria a estrada, e de quando em quando, enquanto seguia, acendia a lâmpada. E a lâmpada abria a janela para uma colmeia sem abrigo. 

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