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Correio Do Autor

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sexta-feira

[ODE À PASTILHA]

pastiglie digestive dissetanti
leone, esteja em aconchego
no céu da minha boca aqui
ao sul do sul onde o monstro
cresce e devora os meus irmãos.

de torino você veio, delicada
solta a nado nas papilas
uma ideia de paz, uma ideia
de quietude, enquanto o monstro,
da barriga do juiz, regurgita
e vomita em todo o meu país.]

quinta-feira

[AVÔ ANTÔNIO INVENTA O CANUDO DE VENTO]

ele disse que foi para ligar a moradia das lagartixas com a varanda das aranhas.

o tijolo ficava na contramão do vento.

as lagartixas, amontoadas, estavam tristes e nem cantavam.

a varanda das aranhas a cada dia tinha mais fartura de mosquitos.

o avô achou que um canudo de vento ficaria bem para apaziguar as almas inquietas das lagartixas tristes.

o avô tinha experiência nas invenções que davam alegria.

inventou um pedal para o papagaio exercitar bicicletas imaginadas.

inventou botões com lascas do tronco da laranjeira.

inventou gravata com folhas de bananeira para o cachorro caolho.

inventou degraus para a cobrinha coral chegar mais fácil ao caramanchão de maracujá.

a cobrinha não era venenosa e dava para brincar com ela como se rolo de barbante.

então o avô fez o canudo de vento.

era um tijolo tão antigo que tinha cheiro de adão e eva.

o avô usou a colher de pedreiro.

foi serviço muito vagaroso para não espantar de medo as lagartixas.

o tijolo saiu inteiro, o avô mensurou o peso, quase dois quilos de terra comprimida pelos anos afora.

o avô guardou o tijolo em lugar de honra junto com a carcaça de uma sanfona.

o primeiro vento a entrar pelo canudo foi ainda vento tímido.

depois houve um vento mais ousado que passou pela mangueira e desceu pela parede mais velha, a que já faltava o reboco e tinha ninhos de abelhinhas arapuá. 

esse vento logo achou o canudo de vento e levou ar novo às lagartixas amontoadas.

deu um clima bom de praia dentro da moradia.

em simpósio na copa das árvores, os ventos souberam da novidade.

havia um canudo de vento novinho em folha que entrava de um lado e saía pelo outro.

todos os ventos da redondeza acharam a novidade muito especialíssima de boa.

e o lugar onde havia um tijolo era agora passagem oficial para vento que quisesse tocar harpa na teia de aranha.

houve vento que até assoviou músicas assoviantes.

pouco a pouco, as lagartixas viram a luz no fim do túnel.

estavam quase cegas de tanto escuro.

e agora era aquela claridade que faiscava até diamante pelo canudo de vento.

o avô achou bonita a sua obra.

assim que as lagartixas saíam, o avô buscava nomes que o dicionário não possuía para batizá-las.

melga, nelga, dilga, lulga, filga. esses eram os nomes que o avô inventava para elas.

e de noite, só com a lâmpada que pendia de um caibro, aconteceu baile no quintal.

os ventos harpavam canções de produzir saudades.

e foi assim que o avô antônio inventou o canudo de vento.

[LEITORES? SÓ TEMOS TRÊS]

[leitores? só temos três: o que gosta,
o que não gosta e o que não vê.
nem lê. vez e outra, misturam-se 
os três: um faz o que o outro faria,
mesclam-se as farinhas do que gosta,
do que não gosta e daquele que não lê.

digo isto: o pão da leitura vem de massa
enigmática. cada qual com o seu trigo,
cada qual com o seu fermento, um tem
água, outro tem o sal (ou o doce) na padaria.

entre tantos enigmas, enigma maior entre os três
é o leitor que não vê nem lê. é leitor in absentia.
dele só intuímos a sombra. rosto encoberto, corpo
difuso, mais lembra um fantasma. se tosse, se funga,
se retorce linha a linha a frase à vista, nada sabemos.

tende a ser frágil, sem substância e tutano, o leitor
que sempre gosta. lembra mais um devoto. advoga
o aplauso, é reverencial e idólatra. é tanto vício
nas palmas que há calejo e calo nos mindinhos.

dos três, nesse triangular esquema, há o cultor
do litígio. é máquina de contrariar o rio-corrente
da turba. esse leitor do contra, ranzinza, alisa o gato
a contrapelo e vai na contramão do senso comodista.
lá está ele, altivo, tapume por onde o vento sopra.

digo isto: a leitura, quitanda das alegrias, depende
dos três assim distribuídos. só dois seria um fiasco,
a leitura seria maniqueísta. só um seria leitura
sem dilema, monólito no tempo, monoteísmo do olho.
com os três, eu digo: a quitanda é bem mais plena.]

segunda-feira

[O ANJO DA ESCRITA]

[quando eu nasci, o anjo da escrita, que era um anjo tropeçante, disse: "vai ser asmático nas frases".

eu fui.

peguei guelras de empréstimo, dessas guelras usadas pelos peixes, e fui atravessar os ritmos, fui desencadear a sofreguidão na escrita.

se música não houve, na certa houve dança, essas danças muito esquisitas de chegar à beira do abismo.

daí aprendi a não ter rédeas quando o potro das palavras desembesta.

a tropel escrevo.

e já quase não respiro entre o começo do baile e a hora das revoluções.]

sexta-feira

[O ANIMAL SCRIPTUS]

[sei que, entre os animais
de raridade extrema, o scriptus
tem sido ignorado pelos séculos
afora até mesmo pelos mais bondosos
cultores de bestiário. alegam ser 
ele dotado de uma sombra espessa
que impede a passagem da luz, 
a luz que lhe pudesse dar brilho,
e por conseguinte algum atrativo, 
razão de sua insignificância 
científica, ou mesmo estética, 
para não dizer poética. ou anedótica.

não chego a discordar de tal 
classificação negativa. essa sombra,
de fato, acompanha o scriptus. e mais:
assemelha-se a uma mortalha.
e ainda mais: a ausência de focinho,
as orelhas coladas à cabeça, 
a cauda sem pelos, os olhos de um cinza
lúgubre, tudo isto faz dele 
um espécime para passar despercebido.

mas como poderia ignorar o canto,
a massa de som que o scriptus reproduz
à noite, já perto da madrugada,
canto parente de um saxofone?
como não se emocionar com a forma
doce que esse canto ou cântico
ecoa, vai pelo vento, embaralha-se
nas árvores, contorna as montanhas,
ou então segue à flor das águas
de um rio ou de um lago?

abstraio-me da aparência sem atributos
do scriptus e concentro-me em sua música.
talvez as sereias tenham com ele aprendido
a arte da sedução pelo canto. talvez
os poetas, tão primitivos, roubem
do scriptus desde o princípio dos tempos
as modalidades diversas da alta poesia.]