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sexta-feira

[TRISTES AFORISMOS DA HORA PRESENTE]

1.O Brasil é um barco mitológico com quinhentos e dezessete anos, tripulado pela hipocrisia — hipócritas de dedo em riste, corruptos na sombra; hipócritas justiceiros, menos dos comparsas e da santa parentela. Uns e outros no barco louco: bons mocinhos virginais de hoje, bandidos de ontem; paladinos éticos na sala, bucaneiros no quintal. Uns e outros no barco louco.

2.Engana-se quem se espanta com tal teatro, como se teatro novo. Nesse cenário, repete-se a peça de antanho, de dantes do tempo das capitanias, aquelas hereditárias. Até roubar é um privilégio de classe. Ai de quem venha roubar no quintal da corte — pior ainda se chegar descalço.

3.Não diga no Brasil de hoje (quiçá mundo afora) que você é honesto. Não diga. O lobo da suspeição caminha pelas trevas.

4.Dar a mão à palmatória — eis uma lição para o país inteiro. Todas as janelas têm vidraça. Todas as casas são de vidro. E para isto não há penitência.

5.Vejo na tevê o galinho de briga, neto de galos maiores. Ah, se o doutor Sigmund fosse vivo, ah, se vivo ele fosse, vivo e ladino para dar curso a novos tratados no campo da histeria. 

6.Vejam, meninos: quando um rico grita, há risco no seu amado cofre. Quando um rico grita, o cofre está sem recheios.

7.Ah, meu Brasil de quinhentos e dezessete anos — tudo está como dantes. De novo o sonho minguou-se, de novo veio o mar de borrasca. 

8.A orquestra de tintas e gráficas já toca os seus macabros tambores — marchemos todos para o abismo.

9.Tantos lacerdas nas vizinhanças, tantas vivandeiras com as mãos nas bolsas. E a orquestra de tintas e gráficas já toca os seus macabros tambores — marchemos todos para o abismo.

10.Abro a porta para as manhãs. Os pássaros estão calados. Calado está o cachorro e o menino brinca cabisbaixo. Dói a dor mais profunda. Sem medicamentos. 

11. Quem vem lá? É o tropel das bestas guiadas. Cada uma com o seu cincerro, cada uma com a sua viseira. Atendem ao chamado do novo Torquemada.

12.Ah, os falsários no leme do barco. O barco louco. Ah, os falsários mesoclíticos, com ares santarrões. Elevo-lhes o meu punho, o meu escárnio, o meu ilimitado e infinito desprezo. 

13. O Brasil é um barco mitológico com quinhentos e dezessete anos. E fodeu-se.

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