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terça-feira

[GRAMÁTICA DA SAUDADE]

[Em duplas, fomos hoje pela Avenida Afonso Pena em missão de colheita. Colheita de saudades. 

Saudades florescem pela avenida afora, isto eu soube por João Serenus. Algumas são tenras, são frágeis, e crescem como avencas nos muros. Outras são saudades velhas, muito envelhecidas, e moram em um buraco do tempo. 

Há saudades de um amor que ficou com o seu olho branco na beira de uma estrada. 

Há saudades da mulher que, de herança, só deixou o esvoaçar de uma saia. 

Há saudades irritadas, sempre incompreendidas. 

Há saudades doloridas, vestidas de luto. 

E há saudades que se foram, que se perderam, se evaporaram, que foram comidas pelo fogo do dia, o dia que avançou manhã adentro e trouxe com ele a seiva das revoluções. 

Há saudades que nos vitimam com o repentino raio de um lusco-fusco. Elas nos vitimam e somem, tornam-se pássaros incendiados. 

Há saudades que são apenas voz, a voz de uma mãe, a voz de uma mãe que soa nos entardeceres, longe, nos longes mais que longes. 

Há saudades bêbadas, desnorteadas, enlouquecidas, essas que nunca estão onde desejamos que estivessem. 

Há saudades falsas, simuladas, com florações falsas, recobertas por ervas daninhas. 

Há saudades estrangeiras, em eterno movimento migratório, daqui para lá, de lá para algures. 

Há saudades puramente noturnas, as quais se escondem ao raiar do sol. 

E há a saudade-saudade, sobre a qual João Serenus se cala, e eu, humilde, desconverso. 

É a tal saudade-saudade nos abismos de um espelho.] 

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