De Chirico, Love Song
“(...)... espantar, espantávamos, mas era. Estava. Havia. Vero e veraz, lá estava o Senso Comum grudado nas paredes, grudado nos ladrilhos, grudado nas calçadas, grudado na sola dos sapatos. O Senso Comum, matéria gelatinosa e pegajosa, visgo, grude, gosma, lá estava o Senso Comum senhor e dono da cidade.
Espantar, espantávamos, alguém chamou o guarda, Dona Elvira, ainda de camisola, veio à rua com os chinelos gastos, chinelos arrastantes, para ver o Senso Comum em pingo a pingo, gota a gota pela torneira do jardim. Não descia, não voltava, a goma entupia a torneira, entupia a mangueira, entupia o mundo.
Dei voltas e voltas pelo bairro. Passei pela casa dos doutores e dos magistrados, entrei pelos becos das trevas, fui ao morro — de lá, com os olhos cansados, fui só desânimo. O Senso Comum, plasta de matéria de emplastro, substância esbranquiçada com a cor do bolor — lá estava o Senso Comum senhor e dono do meu bairro.
Chopin esmolengou-se na vitrola. Bach virou martelo na sala. Homero, com as páginas entreabertas, escorreu a baba. Lá estava o Senso Comum senhor e dono das letras, das artes, das coisas porosas do espírito.
O rádio, derretido, trazia notícias do lado de lá das esferas — todas as esferas tomadas pelo Senso Comum, senhor e dono do universo. O jornalista, com a sua caneta sem aderência, escrevia em papel de cera, esvaía-se tal e qual vela, círio, em noite de trevas. O jornalista escorria pela cidade sob a gerência do Senso Comum, senhor e dono das notícias.
Escondi-me no quarto. Meu quarto dissolvera-se. Até a arma era agora uma bisnaga mole, pendente, na mesinha de cabeceira...”.


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