botero
Foi do Quixote a idéia de irmos hoje despuxar angústia na Praça da Liberdade. É bem verdade que os mineiros só conhecem a via contrária, isto é, puxar angústia, do modo como faziam os nobres cavaleiros de um doce apocalipse, isto é, Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino. Pois fomos hoje despuxá-la, quem sabe desenredá-la, quem sabe espantá-la, dar um susto na angústia.
Ela se achava sentada em um banco e tinha aquelas feições próprias da angústia — limão puro no céu da boca, dolorosos narizes, abissal desejo por abismos. E lá estávamos, o Quixote e eu, diante dela. E até que não era feia, se a olhássemos por determinados ângulos. Achei por exemplo bonitos os seus joelhos e muito delicados os dedinhos de sua mão esquerda. E Quixote viu nela o fio — a ponta do fio — por onde deveríamos despuxá-la. Era um fio dócil, com laço na ponta.
E assim fizemos, começamos a despuxá-la, começamos a desenredá-la, começamos a desnovelar a dita cuja em novelos intermináveis. E de repente tínhamos uma angústia toda desnovelada, quase obra de um gato com um novelo de tricô. Quixote despuxava de um lado, eu despuxava de outro.
Sacra filosofia, desmantelados juízos. Era uma angústia com centenas e centenas de pontas, fios inacabáveis, labirínticas costuras, alucinados nós de borromeus em raciocínios lacans. E então — foi igualmente uma idéia do Quixote — resolvemos por um tratamento de choque: pusemos a angústia para andar de bicicleta.


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