“(...) ...veio de manhã o Juan Rulfo para o encontro com Graciliano Ramos. Rulfo saiu de dentro de Pedro Páramo e Graciliano saiu de dentro de Vidas Secas. O deserto das palavras tinha pedras no meio das frases. O deserto das palavras tinha oásis no meio das frases. De cá, em Belo Horizonte , junto com o Quixote e o Kafka, vigiamos Rulfo e Graciliano em volta das palavras arenosas, palavras destituídas de enfeites, palavras feitas com a gema das pedras.
Palavras bonitas são aquelas que não se penteiam diante do espelho. Palavras bonitas são aquelas que não usam batom. Palavras bonitas são aquelas que trazem a gema no seu oco de infinitude. Palavras bonitas não precisam de brinco nas orelhas nem de verniz em suas paredes. Palavras bonitas são palavras-palavras, disto sabem Rulfo e Graciliano em volta de dois laços de conversa, de dois nós no barbante da conversa.
Ouvir o silêncio de Rulfo, ouvir o silêncio de Graciliano.
O dia depositava mais silêncio em volta do lugar onde os dois — saídos cada um de seu livro — puseram banquinhos para enrolar uma conversa dentro da outra. A conversa serpenteava pelo terreno arenoso, de pedregulhos. Era cascavel, era um urutu com estrela na testa de um lado e outro da paisagem.
Lugar muito perigoso para o uso de conversas tão silenciosas. Mas era assim que Rulfo e Graciliano conversavam. Dava para ouvir de longe a música que as pedras faziam quando tocadas umas nas outras. Áspera nota musical de uma pedra roçada pela outra.
Quixote escutou cincerros no pescoço de palavras-burregos. Kafka escutou rabeca tocada por palavras-de-sol-a-pino. Nenhum desperdício. Nenhuma usura. Tudo o que Rulfo e Graciliano diziam era dito com a dose exata dos prumos...”.



1 comentários:
um silêncio de metáforas enxuto.
belíssimo!
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