Sábado

O DIA EM QUE O CAPETA QUIS APRENDER POESIA COM LEMINSKI




foi um dia quando,
e era o capeta (o que tudo sabe
ou que tudo julga saber),
o capeta veio, tronço de muito esconço,
torbo de muita turba, o capeta veio,
e o capeta queria porque queria,
queria aprender poesia,
e foi de poeta em poeta,
de freguesia em freguesia,
a uns perguntava sonetos,
a outros perguntava elegias,
tabernas de portas abertas, covis
de portas fechadas, antros de becos
malditos, ruares de malefícios, e o
capeta veio, e encontrou o paulo, o
paulo que era leminski, quis dele
saber onde a fonte, onde o alho
do bugalho, em qual pedaço
de rima, em qual trecho de asfalto,
como aprender tal ofício, exímio
arpejar de um lado, parágrafo de doido
compasso, metáfora sem cuia
ou guia, barroco de copulário,
palavra dentro de palavra, ovas
dentro de ovários, poesia no fundo
da agulha, onde encontrar tal
uva para esse vinho da poesia.
e leminski, passarinho, virou-se
para o capeta e a ele deu a lição
mais alta: ó luzbel de lucifares
malucos, anjo doido de enganos 
e negaceios de perdiz:
em matéria de poesia,
todo mundo é aprendiz.

1 comentários:

DM disse...

eu diria mais
a esse nem-sei-que-diga:
«aprendiz de aprendiz»
e fazia-lhe uma figa.

Domingos da Mota

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