Terça-feira

A GEMA DO POEMA






Para o poeta Ricardo Aleixo


À caça de Kafka, passei pela morada-jaguadarte e lá grafei em saudações o nome carol, insisto, grafei carol no lugar onde o certo era estar o nome carroll. Talvez tenha sido obra de uma lupa opaca; talvez tenha sido o rato que rói de vez em quando o léxico. Talvez. O fato é que depois, súbito, num átimo, fiz do dedo um istmo sobre o mar aberto do teclado, fui rápido, quase um corisco, mas grafei de novo o quisto que contaminara por inteiro o abecedário — saiu o nome caroll onde o certo era estar o nome carroll. Oh, Lewis, oh, Carroll. Feroz Jabberwocky. Gárgula dos mares, gorja das tempestades. Valente mistura de jaguar e jubarte — precisão do ataque com a elegância do jogo, dupla combinação de “Rs” e “Ls”, letras nos espelhos de outras letras, símile de símiles, buraco negro por onde entrou Alice, chuva de meteoros no canino dos “Rs”, lambida erótica da língua na parelha de “Ls”. Oh, Lewis, oh, Carroll. Feroz Jabberwocky. Pupila de onça na noite dos fonemas, pegadas na areia do saara do idioma, gema do poema. Por isso, depois da flanela rubra sobre o sol dos óculos, depois de atravessar a selva labiríntica dos equívocos, envio ao poeta o mapa desse ir e vir verídico, embora cego; veraz, porém só alcançado pelo ir e vir do erro. E a corda do arco se fez tesa. E a flecha fez do trajeto a sua meta.

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