Max Ernst - The Kiss - 1927
“Falar de luas quando passa a nave, só se for na ponte, nas muradas da ponte, ao seu ouvido. Seu nome é mesmo Tilza? Tilza com z? Gosto. Gosto das estranhezas do dizer estranho, arranhar o dedo no vidro em névoas, ter o mistério nas pontinhas de um buraco na vidraça.
De luas eu sempre falo até para as criaturas aqui de casa, quando chega a noite. Na sou daqui, desta cidade, aqui sou hóspede-forasteiro. Sou jogador de pôquer e leitor de romances. Tenho bigodes, prescindo de gravatas, aprecio o que for de parentesco com ambrosias. E as luas. Delas sempre falo, para elas eu guardo o melhor da voz.
Bom é ficar de mãos dadas sobre a ponte, na murada da ponte, quando a lua vem. Suspirar, se for esta a vontade; alentar bem perto os hálitos, se for a hora, se for a vez. As mãos. Mãos nasceram para os entrelaces, núpcias de dedos, tudo no mundo acabar por ter destino nubente.
Presumo que você seja morena clara, conforme sugere o seu nome, Tilza. Presumo, nas imaginações, duas covinhas nas bochechas, um biquinho nos lábios, um dedo mindinho dos mais suaves. E a voz, sua voz, acho eu que é voz de pura música.
Errado. Estarei errado? As imaginações acertam por outros caminhos, isto eu aprendi com as artes do jogo, com as artes dos romances. Presumir é inventar o que será nos fundos mais secretos do que ainda não existe, mas existirá. Assim: a Tilza que nunca vi, a Tilza que sempre vi.
Se São Paulo fica longe? Fica. Mais perto é a minha casa. E há ponte nos baixios da rua. E a ponte tem muradas panorâmicas. E por essa época do ano as luas são das enormes, redondas, acesas, muito loucas, luas de cabelos soltos.
Se São Paulo fica longe? Fica. Mais perto é a minha casa. E há ponte nos baixios da rua. E a ponte tem muradas panorâmicas. E por essa época do ano as luas são das enormes, redondas, acesas, muito loucas, luas de cabelos soltos.
Você vem?”.


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