O QUE PEDE UM LIVRO

para ondjaki.


o que pede um livro, é nupciar com o seu leitor. hoje, amanhã, em um dia qualquer, estradas de acolá, pedaços de um tempo algures no mais-além-do-lado-de-lá, o grão de um olho, as mãos em côncavo de um leitor-leitora, apaziguado instante, flor de uma quietude errante, pêndulo que vai-e-vem, cópula do olhar com as letras, luz que a página não apaga, isto, sim, o que pede um livro, é nupciar com o seu leitor-leitora, pode ser hoje, daqui a um ano, um talvez século de um transcurso cego, caminho sem fim na amêndoa que o infinito põe e a abelha leva, distância mais distante de um não saber se vivo, se morto, se lá estaremos para ver o livro, júbilo dos júbilos, ele por fim aberto ao meio em sua tara amiga, alguém em um jardim de um século irreconhecível, eis que o livro cumpre o seu destino, lido e despido, nu em seu desígnio de ser acima-e-abaixo, por-dentro-e-fora, do fim ao começo e pelo avesso posto aos olhos de um leitor-leitora, estrangeiros no tempo, tortos quem sabe na paleontologia de um hábito esquecido, ler um livro, ter nas mãos o livro-livro quase o âmbar que a árvore guardou em uma cápsula escondida, secreta e cúmplice para enganar as distâncias, pois de matéria comum é feito um livro, tudo nele é esperança, não mais a gasta palavra esperança nas bocas sem substância, mas porvir nupciante que bate à nossa porta, diz olá, diz como vai, diz o que nem é preciso dizer pois sabemos ser próprio do livro: livro é noivante.

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