Vicente Gunz, em seu A morte dos leitores ao meio-dia (romance, 234 páginas, Editorial Gallo de Oro, Montevidéu, Uruguai), conta a história de um escritor que costumava dar fim aos seus leitores sempre em um mesmo horário (ao meio-dia), em um mesmo dia da semana (às segundas-feiras) e com um mesmo método (o envenenamento). Para cometer tais crimes, o por assim dizer lectorcida contava com uma rede de fiéis informantes (geralmente livreiros turrões e ranzinzas), os quais, mediante fichas criteriosas e minuciosas, fartas de anotações, facilitavam o acesso do escritor às suas vítimas. O capítulo de número 33 nos dá, por exemplo, um saboroso relato das investigações policiais que culminaram na prisão do escritor, um homem aí pelos 54 anos, com bigodes ao estilo do velho Eça, cultor dos clássicos latinos e que teria vivido na capital uruguaia entre os anos 1950 e 1958. Seus livros, conforme a narrativa de Gunz, eram disputadíssimos em todos os países de língua espanhola e teriam inaugurado uma rica e promissora via para o romance policial, conforme o palavrório de um exigente e guilhotinesco crítico literário. Curiosamente, um dos livros mais disputados nas livrarias da época (livro ao qual ficaram atreladas 32 mortes de leitores) chamava-se A morte dos leitores ao meio-dia , ali onde o tal escritor contava de um outro escritor que costumava assassinar os seus leitores ao meio-dia de todas as segundas-feiras, por envenenamento. Etc. Aliás, do lado de lá do Rio de la Plata, etc., um bibliotecário cego, etc., pela Calle Maipú, etc., vocês sabem. Com certeza, sabem.
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